Escarlate #46 - A Espera?
A caverna estreita se curva em direção ao centro da montanha. Ainda está inclinada e como uma ladeira.
“Agora talvez estejamos nos afastando, Zand.”
“E o que fazemos?”
“Se não houver um caminho de descida, teremos mesmo que voltar.”
“Droga.”
Eles seguem. Zand pensa se não vão terminar encontrando o grupo de Rubi do outro lado. Afinal, estão se dirigindo para lá. É bem possível que os dois caminhos levem ao mesmo lugar...
De repente Zand se vê diante de um buraco. Abaixa-se e tenta entender o que está havendo.
O buraco não é muito fundo, ou seja, não cai direto na caverna. De repente, Zand tem a impressão de ver um brilho a uns dez metros, num corredor seguindo por esse buraco.
“Não vá por aí. Encontramos.”
“Como assim?”
“Esse piso parece muito frágil. Pode resistir o peso de vocês ou não. De qualquer forma, fará barulho. Então melhor esperar aqui.”
“Tem certeza?”
“Não dá para ter certeza, mas é altamente provável que quebrando este chão o grupo caia exatamente no meio da caverna e, se o grupo da sua namorada teve sorte, a uma boa distância deles. Podemos encurralar o dragão aqui.”
“Que bom. Então vamos esperar. E o que terá sido aquela luz? Pode ser Rubi...”
“Pode. Se for, eu estou totalmente equivocada e essa passagem não vai para dentro da caverna. Ainda assim, é melhor o grupo se juntar para decidir o que fazer, caso seja esse o caso.”
“É, você está certa.”
Zand recua dois passos e se senta, esperando a aproximação de Willen. Os dois ficam sentados próximo ao buraco na caverna, a postos para entrarem a qualquer momento.
- Tem certeza que é uma passagem? Você viu a caverna?
- Não, mas Eve...
- Zand, meu caro aprendiz... Não confie cegamente nos outros. Esse caminho que fizemos é muito torto para que se possa dizer facilmente se continuamos ou não no caminho certo.
- Eve foi uma guerreira muito experiente antes de ter acontecido isso com ela.
- Tenha cuidado, Zand. Você fica cego quando se trata de mulheres. Primeiro foi esse dragão. Se envolveu com ela sem nem perceber que era um monstro. Depois sua namorada ladra e agora essa tal de Eve. Tenha cuidado, muito cuidado.
- Com todo o respeito, meu mestre, mas não fale besteiras. Não há nada entre Eve e eu, nem é possível haver.
- Se você diz... Só espero que isso tudo não termine da pior forma.
“Não tenha raiva do seu mestre. Ele tem razão em se preocupar. Ceticismo é uma qualidade.”
“Acha mesmo?”
“Acho. Sempre agi sozinha, ou liderando ajudantes. Você conhece minha história.”
“Claro...”
“Sabia que há vários tipos de dragão, não apenas os vermelhos, não é?”
“Sei sim.”
“Há dragões metálicos, dragões cromáticos... Havia um catálogo enorme, porém nem todos se pode ver hoje.”
“Dizem que se perderam em outra dimensão, não é?”
“Ou que a maioria deles estão em um plano paralelo ao nosso. Sinceramente, depois do que aconteceu comigo, não duvido mais de nada...”
Bala Achada (v.2)
Abandona o fuzil
Uma bala veloz
Enquanto escuta a voz
De um guarda do Brasil
E passa de raspão
Por um pobre rapaz
Um que não robou, mas
Chamaram de ladrão
Atravessa a vidraça
Da loja do culpado
Que acusou o coitado
Mas pela loja passa
Por pouco, muito pouco
Não fica em um drogado
E num aposentado
E em um velho louco
Terminou enterrada
Em um trabalhador
Que hoje não trabalhou
Por causa do horóscopo
-- Cárlisson Galdino
Escarlate #45 - Zand e Eve
O caminho inclina para baixo, onde Zand e Willen passam por algumas poças de água morna, depois volta a inclinar para cima. Deve fazer quase meia hora que eles andam, a passos muito lentos, por essa caverna da Serra do Fogo.
“Será que estamos no caminho certo?”
“Estamos, aventureiro.”
“Temo, Eve, que talvez tenhamos subido demais...”
“É verdade, mas não tanto assim. Eu tenho um bom senso de direção. Ainda estamos à altura da caverna principal, ao menos da altura que ela tinha lá atrás.”
“Que bom. Vamos continuar então.”
“Zand, tenho algo a dizer. Trata-se de uma sugestão, na verdade. Talvez seja meio cruel para você, mas você deve estar pronto para ouvir isso a essa altura.”
“E o que é?”
“Já ouviu falar em armaduras de escamas de dragão?”
“Já...”
“São muito provavelmente as melhores armaduras não mágicas que se pode forjar. E elas também recebem muita magia, para aqueles que desejam torná-la ainda mais eficiente.”
“Eu sei disso... Mas não tem sentido...”
“Eu sei que não. Você quer esquecê-la, no final das contas...
“Exatamente...”
“Não fique triste, trata-se apenas de uma informação que julguei importante. Além do mais, eu detenho o conhecimento necessário para se fabricar uma armadura dessas...”
A tocha se apaga mais uma vez. Zand para e espera a aproximação de seu mestre.
- Estamos no caminho certo?
- Sim, devemos estar. - Zand lhe responde.
- Espero que sim. É que já andamos muito por aqui e a qualquer momento o grupo da Rubi encontra a passagem do outro lado e entra. Temos que estar preparados.
- Eu sei disso.
- Sabe o bastante? Se eles entrarem em ação exatamente agora, nós levaríamos pelo menos três minutos para aparecer. Três minutos podem ser cruciais num momento assim.
“Se eles entrarem agora, eu dou um jeito de colocar vocês no corredor principal.”
- Calma, velho mestre. Eu sei o que faço. Não estamos sós aqui. O grupo foi dividido de maneira igual...
- Como assim?
- Ora, que gafe a minha... Não te apresentei Eve.
- Quem é Eve?
- Nunca ouviu falar de Eve-64? Ou de Eve?
- Não.
- Era uma grande guerreira de tempos antigos.
- Hmmm...
- Ela terminou ficando presa em uma arma mágica, a Eve-64. E ela...
- E ela está com você?
- Está.
- E você fala com ela?
- Falo sim.
- Que história mais estranha! Dá minhas lembranças a ela então! Quer dizer que no fim das contas, a equipe foi dividida em três pra lá e três pra cá...
- É o que estou dizendo.
- Mas como...
- Eve sabe o que fazer para nos colocar dentro do salão principal se não conseguirmos encontrar uma passagem antes de Rubi entrar em ação.
- Nesse caso, Zand e Eve, vamos em frente! - Dá um passo e comenta baixo. - Zand e suas fêmeas... Espero que não se apaixone pela espada também...
O Soldado
Voltou o soldado
Ao campo minado
Na nova batalha
De novo metralha
Pela catarata
Do topo da mata
Mata quem tentou
Lutar e fracassou
As bombas explodem
Acertá-lo podem
Mas ele não pára
Na tropa dispara
Metia a cara
De coragem rara
Mas a morte lhe riu
Por seu próprio fuzil
-- Cárlisson Galdino
Escarlate #44 - Mestre e Aprendiz
Zand vasculha as paredes em busca de um caminho até o salão principal do covil de Knova. Pouco atrás vem seu mestre Willen, levando uma tocha que ilumine seus passos e, um pouco ao menos, os de Zand.
Alguns minutos e a tocha apaga. Willen se aproxima de Zand.
- Olha – fala em voz baixa. - Bem curioso esse grupo da sua namorada, sabia?
- Por que diz isso? E fale baixo.
- Eu sei. Estou falando baixo. Você os conhece há pouco tempo, não é?
- É.
- E o que acha deles? Desse Halkond e desse Azkelph?
- Olha, Halkond me parece meio irritado sempre. É como se tivesse ciúmes da Rubi.
“Foi o que também percebi.”
- Não só isso. Algo nele não me cheira bem... Me parece um sujeito muito estranho.
- O que acha exatamente?
- Não acho exatamente nada. Só que devemos ficar de olhos bem abertos nele. Algo me diz que ele está tramando alguma coisa.
Zand baixa a cabeça ao lembrar o plano de matar Knova...
“Não despreze os concelhos de seu mestre, aventureiro... O grupo de sua namorada – como diz seu mestre – não parece um grupo exatamente honesto.”
“Eve, eu sei... Eu sei que posso estar correndo riscos, mas os dois caminhos são arriscados e eu escolhi um. Quando estamos diante de dois caminhos perigosos, não adianta se queixar dos perigos. Só escolher um e contar com a sorte, torcendo para ter sido o caminho mais acertado.”
“Nisso você tem razão.”
- Podemos prosseguir agora? - Pergunta ao seu mestre.
- Por gentileza...
Zand volta a procurar passagens nas paredes.
“Enterrar de vez esse dragão vai te fazer bem.”
“Espero que faça.”
“Pelo que entendi é algo muito doloroso e antigo, aventureiro, esse problema que enfrenta. Melhor mesmo encerrar de uma vez. E te admiro muito.”
“Por quê? Você que sempre foi uma guerreira admirável.”
“Porque sinto perfeitamente a dor que você sente neste exato momento. Sua decisão é difícil, Zand. Mas mesmo assim você segue nesse caminho que escolheu, mesmo sem ter certeza se é ou não o caminho certo, se é mesmo capaz de encarar o dragão de novo, desta vez na posição de inimigo.”
“Obrigado.”
Na escuridão da caverna, somente Eve e Zand sabem que lágrimas passeiam por seu rosto. As lágrimas e o diálogo telepático se passam sem serem notados por Willen.
“Sabe, Zand... Desde que essa tragédia aconteceu em minha vida e eu fui habitar em minha arma, muita coisa mudou. Acho que amadureci muito. Foi um castigo merecido, eu diria...”
“Como assim, Eve?”
Zand continua e o caminho começa a se inclinar para cima, mas uma inclinação pequena, menos de trinta graus. Ele segue, atento, seguido a alguns passos por seu mestre.
“Nem lembro quanto tempo faz. Deve fazer meio século, presumo... Eu era obcecada demais. Fria demais. E desde que essa maldição me ocorreu, sou obrigada a pensar e sentir mais. Sou obrigada a perceber com clareza o que se passa no coração de quem empunha essa espada. Você é um guerreiro valoroso e tem um coração bom. É o que digo.”
“Obrigado, mais uma vez.”
“Deve estar se perguntando por qual razão estou te falando isso... Nunca comentei essas coisas sobre mim própria com ninguém, mas é algo que eu sempre quis dizer. E sinto como você é uma pessoa confiável.”
“Muito obrigado, Eve. Fico lisongeado.”
“Essa batalha contra o dragão será difícil. Mais pela situação em que você se encontra do que pelo dragão propriamente. Mas não se preocupe, eu estou do seu lado.”








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