Mensagens de Amor

Garrafa

Você consegue ver que armadilhas?
São grilhões que eu mesmo construí
Feitos sob a mais perfeita medida
Pra proteger meu coração de ti

E como um náufrago, só, numa ilha
Muito além de onde se podia ouvir
Viveu meu coração (se é que isso é vida)
Numa prisão sem meios pra fugir

Assim meu coração, que naufragou
Sem barco viu como única opção
Encher o mar de mensagens de amor

Garrafas e garrafas à exaustão
E o sonho que uma chegue, uma que for!
À ilh' onde vive, só, teu coração

-- Cárlisson Galdino

P.S.: Imagem original de markflemingphoto

Jasmim #22 - Salvador

Jasmim #22

Os primeiros raios do Sol começam a diluir o que havia de noite. No centro da pequena cidade de Sunek, na Turquia, as árvores na praça são iluminadas aos poucos. Uma praça pequena e sem gente. E ali, logo em frente, um templo abandonado. Ou quase isso...

Entre escombros, uma mulher se levanta. Seu corpo tão bonito coberto por farrapos, poeira e hematomas. Ofegante, com seu longo cabelo loiro quase castanho a essa altura, ainda segura furiosa sua única companheira nesta batalha: um bastão que termina em uma bola de aço com pontas. Uma arma conhecida como Morningstar.

- Maldito Klaitu!

Mas Klaitu não é o nome daquele monstro de seis metros de altura feito apenas de pedra com quem ela luta desde quando ainda era noite. Nem se sabe se seu adversário tem mesmo um nome. Independente disso, ele agora se aproxima em investida. Jasmim simplesmente pula e coloca o Morningstar firme na frente, posicionando-se para receber melhor o golpe inevitável.

Estraçalha-se o portão principal num estrondo. É Jasmim que é arremessada de dentro do templo e cai de mal jeito mais uma vez, rolando no chão pela rua até a calçada.

- Maldito Klaitu...


Jasmim caminha diante do templo à noite, guiada por aquela estranha voz a que já se acostumou. Faz frio, mas ela está bem agasalhada. A voz é quase aguda, porém intensa. Fala de algo importante que o templo guarda, que a ajudará em sua missão. É a voz de Klaitu no sonho de Jasmim. Esse que tem aparecido cada vez mais em seus sonhos, mas sem mostrar nunca o rosto. Todas essas buscas sempre começam assim. Klaitu lhe diz como chegar onde precisa, desde que o mundo virou esse caos... Mas há uma parte em seu sonho que Jasmim esqueceu hoje. Nada muito importante... Apenas a parte em que Klaitu fala como derrotar a tal criatura de pedra.

Seu corpo todo dói, mas Jasmim não vai desistir agora. Sua mente analítica procura um ponto fraco na maldita criatura há mais de três horas. Já tentou de tudo: nenhum sucesso até o momento.

Sente a aproximação de um cavalo, ainda distante. Enquanto isso, lá dentro do templo continua o barulho de passos que lembra algo como uma montanha caminhando.

Ergue a cabeça e vê as árvores da praça. Já se pode ver a brita espalhada e os bancos verdes enferrujados com mais clareza a essa hora da manhã. A Morningstar é colocado de pé e, com a mão direita, Jasmim a utiliza como apoio para se erguer também. Suas pernas sem jeito procuram uma base firme, mas não tremem. Todo o corpo dói.

Um cavaleiro se aproxima pelo outro lado da praça. Vem contornando a calçada rapidamente, parando entre Jasmim e o templo. Desce do cavalo em uma armadura de samurai e com um conjunto de espadas.

- Não tema, senhorita, eu vim salvá-la!

Jasmim aproveita o raro momento distante do monstro para se certificar de que nenhuma daquelas tantas dores se deve a ossos quebrados.

Talvez em outra ocasião ela ficasse com raiva desse estranho cavaleiro com tanta prepotência. Não que seja de falar muito, mesmo em discussões. Mas hoje simplesmente olha o cavaleiro, que já caminha em direção ao templo, com desdém e um leve sorriso irônico no rosto, quase sádico. "Salvador..."

Mal empunha o morningstar com as duas mãos, já se preparando para mais uma tentativa, um estrondo vem de lá de dentro. O tal cavaleiro voa quebrando uma janela e subindo pelo menos oito metros antes de cair sobre um dos poucos bancos da praça. Ficou quase sem armadura atingido por uma única pancada e arremessado como se fosse um boneco...

- É isso!

Com um brilho nos olhos, Jasmim corre decidida para dentro do templo. Desvia de um soco da criatura e continua em direção à única escada que restou.

Sobe a saltos largos e vai em direção à segunda sala, onde tem uma grande escrivaninha, umas estantes próximas à janela e cadeiras espalhadas pela sala.

Em uma das estantes, Jasmim encontra um baú servindo de apoio lateral para os livros de uma enciclopédia. Corre com ele até a escrivaninha.

Uma parede cai. É o monstro, que tentou segui-la.

Do baú, Jasmim pega uma pequena estatueta. Uma miniatura do mesmo monstro que acabou de chegar.

Com passos firmes e ar triunfante, aproxima-se do monstro com a miniatura na mão. Enquanto o monstro se prepara para um golpe com o braço esquerdo, Jasmim arranca o braço esquerdo da estatueta. O braço esquerdo do monstro cai.

Sob seu rosto frio, a alegria e o alívio de essa demorada missão estar chegando ao fim. E Jasmim arranca o outro braço, as pernas e a cabeça. O monstro se desfaz como se nunca tivesse passado de um amontoado de pedras. O tronco da estatueta cai no chão.

Jasmim entra numa sala pouco iluminada e lá encontra, encostada num canto, uma roupa própria para batalhas, feita de couro e algumas penas mescladas, quase como escamas.

Jasmim sorri e se vai com o novo artefato, deixando a praça vazia, o templo quase todo destruído e um cavalo que ainda não se deu conta de que agora é um animal livre...

Jasmim #21 - Diálogos de Rodoviária

Jasmim #21

No mesmo banco da rodoviária está Jasmim, sentada, de calça jeans e camisa azul com algumas linhas amarelas.

- Mulher, a Cindy é uma víbora! Aquilo não presta! - Duas mulheres no banco ao lado.

- Ah, mas ela deve estar falando a verdade agora.

- Está nada, mulher. Aquilo não tem coração! Uma mulher assim que não obedece ninguém... Não sei como o Paul ainda acredita nela...

- Mulher, será?

- É sim! Você vai ver se ela não vai trair o Paul.

- Por Alá... Será que a gente chega a tempo?

- Chega sim, já chequei isso. A gente vai chegar cinco horas, dá tempo de chegar e ver a novela.


Jasmim está sentada pela manhã no mesmo banco na rodoviária, de calça jeans azul e uma camisa cinza, com o desenho de dois pinheiros verdes.

- Você viu o Tayyp? - Um motorista do ônibus fala com um funcionário da mesma empresa. - Ele chegou há dois dias em Erzurum ou devia ter chegado... Devia estar aqui hoje, não é?

- Você não soube?

- Não me diga que sumiu o ônibus como o de Leonid e o de Recefa!

- Não, ele foi atacado por alguma coisa perto de Erzurum. Dizem que o ônibus foi todo fatiado e depois pegou fogo.

- Nossa! Quer dizer que...

- É, não sobrou um pra contar a história.

- Que terrível! Dá medo dirigir esses dias... Mas se não trabalhar não boto comida em casa.


Jasmim no mesmo banco. De jeans e uma camisa azul escura com o desenho estilizado de uma cabeça careca, concentrando-se apoiando a testa sobre os dedos.

- Tenho que ver a Beatrice.

- Ela está doente?

- Tive um sonho inquietante e preciso ver se ela está bem.

- Deve estar. Dê lembranças minhas a ela.

- E você? Por que viaja?

- Estou desempregado, você sabe. Antes que eu morra de fome, tenho que sair daqui.

- A situação está tão feia assim?

- Você não vê os noticiários? A culpa deve ser desse povo infiel americano que fica brincando com coisas sérias.

- É mesmo.

- Por isso o mundo está do jeito que está.


Jasmim desperta de repente.

- Sunak! - Deixa escapar, com expressão séria e um brilho nos olhos que nem parece que são onze horas e que ela estava dormindo desde as oito.


Jasmim chega à rodoviária de calça jeans e camisa turquesa, com a imagem de um lagarto preto e branco. Ainda é noite.

Caminha direto ao balcão de informações.

- Onde consigo passagem para Sunak?

- Olha, infelizmente não temos. A linha foi descontinuada há um mês.

- E como chego lá?

- Você não é daqui, certo? Bem, Sunak é pertinho. A senhora pode tentar um táxi, mas é melhor ir de dia que sai mais barato. Lá é perto mas dá umas horas de viagem.

- Obrigada.


- Boa noite. - Jasmim se aproxima do banco onde ficam os taxistas, do outro lado da rodoviária. - Preciso ir a Sunak.

- Fazer o quê? Lá está perigoso pra uma moça. - Um taxista idoso e de barbas longas responde.

- Ora, se vou pagar, então... Algum de vocês me leva lá?

- Muito perigoso.

- Eu preciso ir.

- Por que não espera amanhecer? Syoko deve estar aqui logo cedo e ele poderia...

- Olha, eu preciso mesmo ir lá. Eu sou uma cliente que está aqui querendo serviço de vocês, não conselhos. Vamos agir como pessoas de comércio, por favor!

- Tudo bem então. A verdade é que lá não entro. Não depois do que os jornais publicaram domingo. Você não leu? Tem demônios lá em todo canto.

- Eu preciso ir lá. Tenho algo importante a resolver.

- Você devia esperar o Syoko, já disse... Mas você não quer conselhos... - O mais velho se afasta.

- Olha, a dona precisa mesmo ir lá agora?

Jasmim responde ao taxista mais jovem com ar irritado de quem diz "Óbvio!".

- Também não entro lá não. Tenho toda a vida pela frente. Mas se não se importar, posso te levar até a entrada da cidade.

- Ok, vamos negociar os valores.

Jasmim #20 - Duas Maças

Jasmim #20

Por "só uma mulher" aquela estranha queria dizer "apenas humana". Seus olhos mostram a surpresa. A invasora está vindo? Correndo com olhos raivosos e uma arma na mão!?

Um barulho alto de madeira. A rival fôra atingida no ombro e se afastou um passo de onde estava. Seu ombro forma uma estranha visão. Um braço humano rachado e machucado qual madeira seca.

- Você é forte, tenho que admitir e...

Com a maça, ela bloqueia um novo ataque de Jasmim.

- O que quer afinal? Você é louca? Acha que pode nos derrotar. Que pode...

A frase é cortada no instante em que a morningstar lhe acerta o abdomen, fazendo-a recuar mais um passo.

- Agora chega.

- Aghhhh...

Jasmim cai a três metros de onde estava, rolando no chão, após o golpe acertar seu ombro.

- Você não sabe com o que está lidando. Parecemos mulheres porque quisemos assim.

De repente aquelas figuras femininas começam a inchar e se deformar, transformando-se em árvores. Somente a rival permanece em sua forma humana.

Jasmim se levanta, determinada, apesar da dor no ombro esquerdo. Será que quebrou alguma coisa? Não importa. Um leve e cruel sorriso se forma em seu rosto ao ver o sangue branco começar a sair do braço daquela estranha senhora da floresta. Sorri também porque não há mais uma multidão.

Jasmim salta, golpeando a rival que, desviando um pouco recebe o golpe no mesmo ombro já atingido, salvando-se por pouco de ser atingida na cabeça.

Dois estrondos rápidos. São dois golpes bloqueados pela morningstar de Jasmim.

Mais um barulho de madeira quebrando. Num golpe de baixo para cima, Jasmim acertou o rosto da outra, agora jogada no chão, com a face deformada e sangrando sangue vegetal.

"O quê é você?! Não pode ser o que parece... Só uma mulher..."

"Telepatia? Não vai mais falar comigo? Me chamar de louca?"

Jasmim dá dois passos na direção dela, tentando esconder o quanto dói seu ombro.

"O que você quer?"

"Essa arma." Lentamente empunha a morningstar, de modo hostil, como quem convida para mais uma rodada de batalha.

A outra se levanta com dificuldade e só então Jasmim percebe que o golpe chegou a tirar parte da cabeça dela. Há um buraco verde tomando quase metade do rosto.

"Vamos fazer um acordo. Deixe a gente em paz e pode levar a arma."


É noite. Num canto do quarto o guarda-roupas pequeno, próximo à porta. A cama fica encostada do outro lado, perto da janela de onde também se vê o banheiro. Entre a porta do quarto e a do banheiro, que ficam na mesma parede, uma escrivaninha. Bem ao lado, um frigobar. Na cama, é Jasmim que se senta aplicando compressa improvisada com gelo no ombro machucado.

"Se o Pietro estivesse aqui... É um idiota, mas é enfermeiro. Saberia dizer se eu quebrei alguma coisa."

"Por que aquelas árvores não lutaram? Será que a mulher era a mais forte delas e por isso tiveram medo de mim? Pelo menos a arma está aqui."

"Mas o que é que eu estou pensando? Se o Pietro... Ninguém precisa daquele idiota e claro que eu posso muito bem me virar sozinha!"

Jasmim deposita os panos molhados ao lado da cama, enxuga-se com um dos lençóis e se deita.


O vento vem e encontra Jasmim deitada na areia. A mesma praia e Jasmim sabe que está em mais um sonho.

- Oi, Jasmim! Que bom, viu só? Sua sorte está voltando!

- Klaitu...

- Tá, não vim dizer só isso não. Você vai precisar ir pra aqui perto, certo?

- Certo, fazer o quê?

- Depois dou mais detalhes. Ah, que bom que deu tudo certo, né? É sempre bom quando dá certo. Olha, estou estudando como é que faço um Sol, depois mostro o resultado.

- É só isso?

- Jasmim! É assim que trata um velho amigo? Eu tinha que dizer dessa outra viagem senão você ia embora pra Erzurum amanhã, né?

- Tá, mas faz um favor.

- O quê?

- Esses sonhos idiotas. Já cansei. Não sou retardada, me passe esses sonhos uma vez só.

- Mas é que você precisa...

- Klaitu! Uma vez só!

- Tá, tudo bem, se é o que quer...

We are Plurk Creatures (!?)

Curiosidade rápida. Plurk, serviço de microblogging, está em manutenção. Lá eles colocaram uma paródia da música We are the World. Coisas de Web 2.0, né?

Logo, logo, o sistema volta a funcionar. Então, aqui está a imagem que eles fizeram (e quem quiser me acompanhar no Plurk, estou lá também):

We are Plurk creatures

Bardo

BR AL Arr
Sou Cárlisson Galdino, da Terra dos Marechais. Seja bem-vindo ao meu lar. Aqui você encontra Opinião e Arte. Use o menu no topo da página.

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