Opiniões de um Gnú Chato sobre o Xiitismo Linuxista

O tempo passou e o GNU/Linux continua sendo chamado só de Linux... Mas evoluiu bastante! E está brigando pelo Desktop também. O problema é que para essa briga há um número muito grande de pessoas que ouvem falar do negócio. E o efeito telefone sem fio termina por distorcer, truncar ou anexar informações a respeito dos conceitos de Software Livre, GNU/Linux e etc.

Vi ontem um post do Monthiel sobre uma análise do Ubuntu pelo 1/2 Bit. O problema? O título: Não! a divulgação negativa. Isso não seria censura?

Hoje vejo no Contraditorium, do Cardoso, um post em defesa da Bia, Garota Sem Fio. Uma defesa mais do que justa, pelo que consta, mas um tanto generalizada.

Tá bem, pára tudo! Vamos por partes! Tem muita coisa mal compreendida nessa história toda.

Conceitos e Definições

Primeiro, os termos.

Linux é um Núcleo de um Sistema Operacional tipo Unix. É quem se comunica com os dispositivos internamentes. Não é o Sistema Operacional. É um Software Livre.

GNU é um Sistema Operacional mínimo Unix, sem núcleo. Combina-se com o Linux quase sempre, gerando o Sistema Operacional GNU/Linux, mas pode se combinar com um núcleo chamado Hurd ou mesmo o núcleo do BSD (gerando o GNU/Hurd e o GNU/kBSD, respectivamente). Note que não se incluem interface gráfica e outros softwares na definição do Projeto GNU, mas eles podem ser utilizados e distribuídos junto com o GNU/Linux (ou GNU/outro-núcleo).

Software Livre é um pouco mais complexo. Vamos lá... Pode se referir ao programa de computador que dá certos direitos a todos os usuários. Ou pode se referir ao Movimento pelo Software Livre, do qual tratarei mais adiante.

Open Source pode ser um semi-sinônimo de Software Livre ao se referir ao programa de computador, mas pode ser também o Movimento direcionado a empresas, que foi criado a partir do Movimento pelo Software Livre, ignorando sua carga ideológica e ressaltando seus valores práticos na tentativa de despertar interesse no Mercado.

Devido à grande semelhança entre Software Livre e Open source quando software e diferença quando ideologias, é preferível hoje - embora ainda pouco praticado - o uso de termos como FLOSS (Free/Libre/Open-Source Software) ou FOSS para se referir ao programa de computador que, coitado, pouco tem a ver com as disputas entre os dois movimentos. Se todos fizermos isso, os termos "Software Livre" e "Open Source" sobrarão para os Movimentos propriamente, evitando-se confusões.

Conhecimento Livre

Os ideais do Software Livre têm a ver com Liberdade do Conhecimento, não "liberdade individual completa". Isso é um tanto confuso, é verdade. Por isso, pararei um pouco para um exemplo simples:

João é livre. José é livre. Juliana é livre. José vê os dois e mata ambos por ciúmes de Juliana. Ele é livre para fazer isso?

Não, não é. Por quê? Em um ambiente 100% livre ele poderia fazer isso, oras! Mas ninguém em sã consciência prega um ambiente 100% livre. A nossa liberdade individual deve ser limitada em função do "Bem Social", em favorecimento da "Humanidade" como um todo. É como aquele velho ditado popular: "Nossa liberdade termina onde começa a do próximo".

"Legal, mas o que isso tem a ver com Software Livre?" Software Livre é um Movimento que tem "sã consciência" e, assim sendo, não prega nossa liberdade completa no âmbito de que trata, restringindo-a em nome da nossa Liberdade Coletiva.

"Como?!" Software Livre é liberdade para o Conhecimento. Liberdade nossa total é Domínio Público. Por que a diferença? Bem, as duas liberdades se chocam em um momento: quando alguém tenta exercer sua liberdade individual para privar os outros de direitos sobre aquele conhecimento.

Para o Movimento pelo Software Livre, software é conhecimento e, como o tal, deve estar disponível para toda a Humanidade, para que todos possamos nos beneficiar dele. Mais que uma opção interessante, o Software Livre é o software ético. E isso não é uma decisão arbitrária. Nós o consideramos assim porque ele zela pela disponibilidade do conhecimento para que assim a Humanidade possa evoluir.

Estas são as bases do Software Livre. E não me falem de comercial... Software Livre pode muito bem ser utilizado para gerar receita, só muda a fórmula. Mas isso é outra história. O importante é que Software Livre se refere à acessibilidade do Conhecimento por qualquer de seus usuários, não nossa liberdade irrestrita.

Comunidade

A Comunidade do Software Livre é heterogênea, como é comum em comunidades extensas. Aqui nós temos diversas categorias de indivíduos, desde usuários até desenvolvedores de Softwares Livres.

Uma categoria que tem se destacado - mais pelo tipo de seus atos que pela quantidade - são os chamados "radicais livres". Porém, radicais não no sentido de "seguir o movimento muito à linha" e sim no sentido de "querer impor seu ponto de vista a todos, de forma intransigente e mal-educada em muitas ocasiões". Estes em geral são levados por entusiasmos e não são raras as vezes em que seus argumentos "não batem".

Muitos me considerariam radical, mas creio que não neste sentido e sim por seguir à risca nossa Ideologia. Aproveito a ocasião para, em nome de minha casta, me separar dos ditos xiitas. Chamem-nos - esse tido de radical que é idealista e educado - de Gnús Chatos! Que tal?

Já escrevi muito até aqui, mas meu objetivo era deixar claras as motivações ideológicas dos Gnús Chatos e mostrar que, algumas vezes apenas, os xiitas têm razão em seus argumentos (e na maioria delas estão equivocados).

Ainda que tenham razão em seus argumentos, como Gnú Chato considero importante:

  • explicar educadamente aquilo em que acreditamos, os conceitos, sempre que notarmos má compreenção;
  • tratar bem os usuários novatos, tirando suas dúvidas quando não-triviais e possíveis, e indicando documentação adequada e dicas de como conseguir informações de que precisa sem depender de ninguém. Claro, sempre de maneira educada. Nada de RTFM ou coisas do tipo. Listas de discussão e fóruns não fazem parte do dia-a-dia dos leigos e a Netiqueta infelizmente não é conhecida. Puní-los por isso soa muito mal.

Em suma é isso. Posso falar por mim e por alguns poucos que conheço, mas creio que este quadro retrate com certa aproximação o perfil Gnú Chato, que seriam os verdadeiros idealistas, não os xiitas que se revoltam quando um Software Livre não é gratuito ou com uma crítica negativa qualquer.

Parabéns ao 1/2 Bit e à Bia por suas análises, mesmo apontando erros. Não temam xiitas. Qualquer participante de projeto livre sabe muito bem que não dá pra corrigir um erro quando ele não é conhecido.

--Cárlisson Galdino


Comentários

gnu e etc...

Mais didático do que isso só fazendo implante ;-) Show de bola este texto!

Sérgio Lima (não verificado) | Quinta, 01/06/2006 - 21:32

Gnu Chato

Dos muitos textos que tenho lido, o seu demonstra uma clareza de explicação, de equilíbrio e bom senso, que falta a muitos. Meus parabens pelo exemplo de como devem ser tratados os novatos nesse assunto.

Anônimo Walter (não verificado) | Sexta, 02/06/2006 - 08:26

Liberdade

Caro Cárlisson,

Realmente muito bom, um dos melhores artigos que já li sobre o assunto.

Gostaria somente de fazer um adendo ao uso da palavra «livre».

No texto a palavra está sendo usada - corretamente, diga-se - com sentido aproximado ao usado em inglês, ou seja, relacionando-se com o conceito americano de «liberty», que entende liberdade por liberdade absoluta.

É impossível dissociar, visto que o Software Livre nasceu dentro da cultura norte-americana, portanto está vinculada de alguma forma a esta e exclarecimentos refentes a «liberdade consciente» são desejáveis e até necessários.

Mas em português há (mesmo que a americanização de nossa cultura nos faça às vezes esquecer disso) duas palavras diferentes: «liberdade» (adjetivo «livre») e «libertinagem» (adjetivo «libertino»). A diferença é que «livre» e «liberdade» já pressupõem consciência enquanto «libertino» e «libertinagem» sugerem a falta de consciência.

Só isso.

[]'s

Rodrigo Cacilhas (não verificado) | Sexta, 02/06/2006 - 09:26

pmwiki.php

Opa, bom saber...vou atualizar minha instalação (2 instalações).

Sérgio Lima (não verificado) | Sexta, 02/06/2006 - 09:41

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