Zand vasculha as paredes em busca de um caminho até o salão principal do covil de Knova. Pouco atrás vem seu mestre Willen, levando uma tocha que ilumine seus passos e, um pouco ao menos, os de Zand.
Alguns minutos e a tocha apaga. Willen se aproxima de Zand.
- Olha – fala em voz baixa. - Bem curioso esse grupo da sua namorada, sabia?
- Por que diz isso? E fale baixo.
- Eu sei. Estou falando baixo. Você os conhece há pouco tempo, não é?
- É.
- E o que acha deles? Desse Halkond e desse Azkelph?
- Olha, Halkond me parece meio irritado sempre. É como se tivesse ciúmes da Rubi.
“Foi o que também percebi.”
- Não só isso. Algo nele não me cheira bem... Me parece um sujeito muito estranho.
- O que acha exatamente?
- Não acho exatamente nada. Só que devemos ficar de olhos bem abertos nele. Algo me diz que ele está tramando alguma coisa.
Zand baixa a cabeça ao lembrar o plano de matar Knova...
“Não despreze os concelhos de seu mestre, aventureiro... O grupo de sua namorada – como diz seu mestre – não parece um grupo exatamente honesto.”
“Eve, eu sei... Eu sei que posso estar correndo riscos, mas os dois caminhos são arriscados e eu escolhi um. Quando estamos diante de dois caminhos perigosos, não adianta se queixar dos perigos. Só escolher um e contar com a sorte, torcendo para ter sido o caminho mais acertado.”
“Nisso você tem razão.”
- Podemos prosseguir agora? - Pergunta ao seu mestre.
- Por gentileza...
Zand volta a procurar passagens nas paredes.
“Enterrar de vez esse dragão vai te fazer bem.”
“Espero que faça.”
“Pelo que entendi é algo muito doloroso e antigo, aventureiro, esse problema que enfrenta. Melhor mesmo encerrar de uma vez. E te admiro muito.”
“Por quê? Você que sempre foi uma guerreira admirável.”
“Porque sinto perfeitamente a dor que você sente neste exato momento. Sua decisão é difícil, Zand. Mas mesmo assim você segue nesse caminho que escolheu, mesmo sem ter certeza se é ou não o caminho certo, se é mesmo capaz de encarar o dragão de novo, desta vez na posição de inimigo.”
“Obrigado.”
Na escuridão da caverna, somente Eve e Zand sabem que lágrimas passeiam por seu rosto. As lágrimas e o diálogo telepático se passam sem serem notados por Willen.
“Sabe, Zand... Desde que essa tragédia aconteceu em minha vida e eu fui habitar em minha arma, muita coisa mudou. Acho que amadureci muito. Foi um castigo merecido, eu diria...”
“Como assim, Eve?”
Zand continua e o caminho começa a se inclinar para cima, mas uma inclinação pequena, menos de trinta graus. Ele segue, atento, seguido a alguns passos por seu mestre.
“Nem lembro quanto tempo faz. Deve fazer uns dois séculos, presumo... Eu era obcecada demais. Fria demais. E desde que essa maldição me ocorreu, sou obrigada a pensar e sentir mais. Sou obrigada a perceber com clareza o que se passa no coração de quem empunha essa espada. Você é um guerreiro valoroso e tem um coração bom. É o que digo.”
“Obrigado, mais uma vez.”
“Deve estar se perguntando por qual razão estou te falando isso... Nunca comentei essas coisas sobre mim própria com ninguém, mas é algo que eu sempre quis dizer. E sinto como você é uma pessoa confiável.”
“Muito obrigado, Eve. Fico lisongeado.”
“Essa batalha contra o dragão será difícil. Mais pela situação em que você se encontra do que pelo dragão propriamente. Mas não se preocupe, eu estou do seu lado.”







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