Parte 4
Quarta-feira, 13 de maio. As datas mais uma vez lembram que a força está nos números. Para Marfim Cobra, parece só mais uma noite, mas nem tudo acontece como se espera...
Marfim Cobra já acordou. Já fez suas ações de hoje e agora volta ao mar. Claro que não volta só. Atrás dele vêm carros da imprensa. E um helicóptero, só para variar. O que fazer? O de sempre. Despistar todos e correr para o mar. Impossível despistar carros e um helicóptero em Maceió? Bem, você deve estar se esquecendo de que Maceió é cercada por água: praia de todos os lados, além das lagoas... Além do que, Marfim Cobra fora um ladrão experiente, vivendo em tempos difíceis. Acho que impossível seria exagero.
Contrariando mais uma vez todas as expectativas dos repórteres e policiais, Marfim consegue retornar ao grande oceano atlântico. Mas alguém o observa. Cada movimento é capturado. Marfim cumpriu sua missão, por hoje. Quanto ao amanhã, ninguém pode garantir.
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Mais uma noite chega. Mais um dia tedioso acabou e Marfim Cobra sai do oceano. Ele não poderia esconder a verdade para sempre. No momento em que coloca o rosto sobre a água, vê uma multidão enorme por ali. "Já me descobriram." Alguns o vêem e correm apavorados, outros procuram ao redor até encontrá-lo e fugirem como os primeiros. Alguns ficam, mesmo sabendo quem está vindo. Ficam por excesso de medo ou coragem. Mas alguns, mais do que isso, se preparam para uma batalha. Uma batalha que Marfim não esperava, nem queria. Mas as armas já apontam para ele.
Marfim não quer lutar. Põe seu punhal com o gume para baixo e grita: "Inchinmy Ejoda!" E o efeito já visto se repete. Ele não quer lutar, isso é verdade. Invocou o poder do punhal apenas na tentativa de assustá-los. E as serpentes energéticas partem furiosas ao meio do grupo armado. Alguns já fogem, em pânico. Como que por reação em cadeia, mais pessoas vão embora, de modo que as serpentes tocam a água quando há apenas dois na resistência. Após alguns disparos ineficazes, eles se olham e partem em disparada. Tudo calmo novamente. Ou melhor, quase tudo. Um helicóptero sobrevoa a área - talvez o mesmo de ontem. E ainda há pessoas na praia. O grupo armado se foi, mas há alguns curiosos e amedrontados. Marfim arranca os trajes já tão danificados pela água salina e sai. As pessoas correm desesperadas e até o helicóptero perde alguma altitude antes de voar para longe. Caminho livre, finalmente. Certas vezes é preciso apelar. Marfim segue em direção à cidade. "Já me descobriram. Já sabem onde fico durante o dia, já sabem quem sou. Será difícil. Daqui pra frente cumprir minha missão será bem mais difícil..." Marfim chega ao solo da praia. Mas há algo errado, e ele sente isso. Olhando mais à frente percebe melhor o problema.
Um corpo na praia, rasgado. Em pedaços. "Será que eles pensam que fui eu quem fez esse absurdo? Isso talvez explicasse um incômodo tão grande. Mas, e quem terá feito algo tão hediondo? Membros arrancados do tronco, assim como a cabeça. O peito traz cortes horríveis, parecem feitos por garras de seres que nunca vi desde meu regresso ao mundo. Eu uso uma adaga... Será que eles pensam mesmo que fui eu?" Marfim Cobra segue pelas ruas de Maceió, procurando criminosos, mas encontra apenas um caso, de assalto na rua, e isso logo no começo de sua jornada da noite. Sem mais o que fazer, Marfim retorna ao oceano atlântico. E o assunto de hoje não sai de sua cabeça. Marfim volta ao mar. Vê-se Marfim Cobra entrando na água até que sua cabeça esquelética seja totalmente coberta. Cena que não passa desapercebida por olhos atentos a qualquer movimento do paladino de Kin-Rá.
E assim, mais uma noite dá lugar ao dia. E do dia, um dia normal, brota nova noite...
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Marfim se prepara pra abandonar as águas salgadas. Kin-Rá o encontrou ao dia. Marfim recebeu um sinal. Uma direção, um sentido. Indícios de que a praga de Fimiq ainda não chegou ao fim. Marfim Cobra sai da água e encontra o lugar totalmente deserto. Não há pessoas, nem muitas luzes acesas. É como se nada houvesse acontecido. Marfim não acredita muito no que presencia, mas vai em frente...
Ele caminha por algumas ruas. Repentinamente, um click. E Marfim é atingido por um feixe de água... E ele sente seu corpo "formigar". Um pequeno incômodo.
- Ele não caiu! Mais água benta! - alguém grita de algum lugar.
"Água benta!?!" Claro que é de se estranhar. Marfim quase morreu por causa deste fino e eficaz fluido, em outras horas. Mas não há tempo para auto-questionamentos. Eles mandam mais água benta...
- Parem a água benta! Não está funcionando! Plano B!
"Plano B?!?" Marfim Cobra pensa e, antes que possa pensar em qualquer outra coisa a mais, é atingido por metralhadoras. Certamente são balas de prata... Quem inventou essa? Parece que pegou mesmo.
- Parem as metralhadoras! Plano C! - os gritos vêm de trás de um caminhão estacionado a alguns metros. As balas e o jato, do prédio em frente.
"Chega por hoje!" Marfim rola no chão, para a direita, sem se importar com o que viria do "plano C".
- Inchinmy Ejoda!
- Quê!?!
Em segundos as serpentes alcançam o prédio e fazem seu estrago. Pode-se ouvir gritos da calçada onde Marfim está. O caminhão acelera e entra na cidade rapidamente. Fim da batalha. Mais uma vitória de Marfim Cobra. Mas a noite ainda não acabou. Há o lugar indicado. Ainda há Fimiq. E Marfim Cobra sabe que, se ele e as outras unidades de justiça não acabarem de uma vez por todas com a alegria de Fimiq, as conseqüências serão gravíssimas. Marfim sabe como essa batalha é importante. É como combater um vírus isolado dentro de um organismo. Vencê-lo é fundamental. Se houver outros, devem ser vencidos o mais rápido possível. Uma vitória é quase insignificante, mas uma derrota pode ser fatal.
Marfim percorre algumas ruas e...
"Oh, não! Não de novo..." Outro corpo é encontrado nas mesmas condições que o de ontem. Marfim corre com mais pressa e fúria. Crê estar perto do criminoso. "Deve ser coisa dos malditos seguidores do maldito Fimiq." Chega ao lugar. Marfim tem certeza disso. Com o tempo, os sinais fluem com naturalidade em um seguidor constante desta forma de mensagens.
"É aqui." Uma área abandonada. Bem no estilo Fimiq. Marfim ouve barulhos dentro e se apressa. Abrir a porta? Pra quê? Eles podem fugir por ela. Marfim pula o muro rapidamente, próximo à porta, e encontra um grupo de dez adolescentes sentados ao redor de uma fogueira, cortando os próprios pulsos.
"São eles. É o ritual de conversão."
- Parem! - grita Marfim, enérgico, enquanto os integrantes do grupo se levantam surpresos. Marfim Cobra corre em direção a eles, com seu Punhal das Serpentes. Em alguns golpes rápidos, deixando um belo rastro verde-luminoso, metade do grupo cai. "Se eles não se importam em cortar os próprios pulsos, não devem se importar por eu ter cortado o resto. ...não." Dois golpes derrubam mais dois. "Uma morte feliz é a última coisa que eu daria a esse lixo." Marfim apara um bastão, enquanto esviscera seu empunhador. "Não" - um morre com um golpe no pescoço - "ouvirão" - e lá se vai o último deles - "nada!".
Mais um trabalho concluído. Marfim se sente feliz por ter realizado mais uma vez algo tão digno. "Mas, e quanto aos homens que morreram por eles? As pessoas ainda devem pensar que eu sou o culpado por suas mortes. Pelo que conheço sobre eles, mais mortes não resolveriam o caso, portanto está fora de cogitação entregar os verdadeiros culpados. É melhor esquecer isso. Amanhã, quando não houver mais mortes, perceberão que não foram mortos por mim. É melhor ir embora e amanhã ver o que acontece."
E Marfim Cobra retorna ao lar, o oceano, tranqüilo e sedento por mais justiça. Ele está feliz com tudo o que fez hoje, bem como os olhos que o observam e observaram por toda a noite.
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Marfim Cobra se ergue para mais uma noite. Sai do mar, espera que seja uma noite melhor. Mas nem sempre as coisas acontecem como se espera. Tudo parecia normal de novo, mas na praia havia um outro corpo estraçalhado. Dessa vez, um corpo feminino. O problema não foi resolvido. Os discípulos de Fimiq são cruéis, mas não eram eles. Um terceiro corpo transforma três em treze. Sim, pois além de a polícia achar que o culpado pelas três mortes é Marfim Cobra, há os dez corpos que foram realmente por ele eliminados. Tudo fica ainda pior do que estava. Marfim anda, preocupado, até encontrar a rua em frente. E nela, alguém de pé. Tem cabelos castanhos, usa roupas em tons de azul e ciano e traz duas armas nas mãos. Está de cabeça baixa e olhos fechados, quando fala.
- Sinto muito, amigo, mas terei que te matar. - Ele ergue a cabeça e abre os olhos. - Na verdade não sinto, esqueleto. Foi só para deixar a cena mais dramática.
O estranho começa então a atirar contra Marfim Cobra. As balas não o ferem, como nas outras vezes.
- Sinto, "amigo", mas já morri uma vez e agora VOCÊ é a bola da vez.
- Ora, o esqueleto fala!
- Mais que isso, imbecil! - Marfim põe seu punhal com o gume voltado para baixo e grita. - Inchinmy Ejoda! - As duas serpentes partem como flechas em direção ao alvo.
O alvo calmamente guarda as armas, ergue os dois braços e as serpentes se dissolvem no ar. Em seguida, empurra o braço direito para a frente com violência, como em um soco. Um raio parte e acerta Marfim Cobra.
A Unidade de Justiça é impulsionada para trás.
- Magia? Mas tão cedo?
- Eu aprendo rápido. - Diz o estranho, pouco antes de mais uma rajada de balas, mais uma vez inúteis em Marfim.
- Pelo que vejo isso vai demorar bem mais do que eu esperava. Deixe que me apresente. Sou Raio Azul, trabalho para o Governo. Não precisa se apresentar, você é o assassino dos treze.
- Então, pensas como todos?
- Exato, não sou cego. Agora, voltando a nós... - Dispara outro raio. Marfim sente uma dor pequena e é jogado um pouco para trás, mas, como da outra vez, sem cair.
Recuperado do choque, começa a correr em direção ao Raio Azul. Aproxima-se aos poucos, até que... Outro raio. Dessa vez, Marfim vai ao chão. Uma gargalhada satisfeita preenche o silêncio.
- Finalmente as coisas começam a dar realmente certo.
- Agora chega! - Marfim se levanta, corre e salta pouco antes de outro raio passar próximo ao chão. Marfim cai pronto para o golpe, mas é inesperadamente tocado e tomado por uma corrente elétrica. Uma descarga bem maior que a de um daqueles simples raios. E o seguidor de Kin-Rá cai perante tão imenso poder.
"Ah... Agora chegou ao limite." Todo o seu corpo ósseo é preenchido por uma dor imensa. Com Marfim ainda no chão, tentando se erguer, o agressor elétrico o acerta com o cabo de sua bizarra arma automática. Marfim Cobra é jogado para trás, caindo de costas na rua.
- Miserável. - Ele revida com uma rasteira, ainda do chão. Raio Azul cai com uma forte dor na perna. Marfim se prepara para mais um golpe, ergue o punhal e...
- Aahhh... - Um grito vem de uma rua próxima. Marfim Cobra prontamente se põe de pé e corre em direção ao grito, deixando seu adversário jogado no chão.
- Espere! Ai. - Com alguma dificuldade, Raio Azul se levanta, para sair, quase que mancando, logo atrás de Marfim Cobra.
Algo está errado. Deve ser o verdadeiro assassino. Marfim corre como um predador ao identificar a caça entre as folhagens. Com fúria, chega ao fim da rua, de onde vê mais um corpo naquele estado. Parece um vigilante noturno, mas isso é irrelevante. O mais importante é que um vulto passou, no momento da chegada de Marfim Cobra, no fim da rua, entrando em uma perpendicular a essa. Marfim não pensa duas vezes, continua correndo e seus longos saltos logo o deixam na esquina. Uma praça. Uma praça cheia de árvores. Nem sinal do alvo. Uma praça e árvores... Isso é tudo para quem quer fugir. Se quiser tomar uma das muitas ruas que a cercam, é uma opção imperdível, ou você pode se esconder na própria praça. Mas algo diz ao seguidor de Kin-Rá que o assassino ainda está aqui.
- Hei, espere! Aonde você pensa que vai? Ainda não acabei com você! - Marfim se volta para trás e vê Raio Azul, incansável e mancando.
O esquelético paladino já estava no meio da praça nesse momento. Seus instintos o alertaram contra uma aproximação sorrateira mas, antes que pudesse ver do que se tratava, o nosso bravo herói é atingido por um golpe brutal e arremessado para frente. Cai a cerca de quatro metro do lugar onde estava. O agressor, em questão de segundos, desaparece novamente.
- O que está acontecendo aqui? - Raio Azul pergunta.
- Não percebe? - responde Marfim, enquanto se põe de pé. - Foi ele quem matou aquelas pessoas.
E sai em direção ao centro da praça. Atrás dele, movimentando-se tão rapidamente que não se pode saber de onde veio, surge um ser monstruoso, peludo e alto. Forte. Ele corre em direção ao Raio Azul. Este, apavorado, dispara um raio, mas o agressor salta e atinge com suas garras o Raio. Dois gritos ecoam na noite. Um humano e outro sobrenatural. Marfim foi atingido pelo relâmpago no mesmo instante em que seu disparador era atingido por garras mortais.
O seguidor de Kin-Rá se apoia e levanta, para ver mais um corpo destroçado. Desta vez o de Raio Azul. O agressor sumido espera alguns segundos e...
- Enfim, sós. - Marfim ouve uma voz bestial, lembra a Marfim uma voz de ogro, grave, rouca e intensa. A voz de alguém que quer ser ouvido. - Agora podemos conversar em paz.
- Não acredito. Como pode um monstro como você falar?
- Sem ironias, maldito. Como você pode falar isso depois do que fez comigo?
- O que fiz?
Marfim não tem resposta. Somente o silêncio da noite, e essa resposta parece ecoar infinitas vezes em seu crânio vazio...
Navegando em pensamentos, tentando encontrar uma resposta para sua própria pergunta, Marfim nem percebe o tempo passar. Quando menos espera, ouve um barulho de automóvel, vindo rápido. Rapidamente o carro da imprensa pára em frente à praça enquanto seus passageiros descem, começando a filmar o corpo de Raio Azul.
"Mais um corpo encontrado, vítima de uma criatura sobrenatural que tem nos aterrorizado há tantas noites. E lá está ele."
O cinegrafista ergue rapidamente a câmera para focalizar o local onde estava Marfim Cobra. Onde "estava", pois nada é registrado. A câmera treme um pouco enquanto seu portador tira da frente para ver com os próprios olhos. Ele não está mais lá. O repórter sinaliza o fim da gravação. O cinegrafista desliza a câmera e, segurando-a, esfrega os olhos enquanto se dirige ao carro. Antes de entrar, uma última olhada para confirmar o que já sabe. O carro vai embora.
Marfim corre para a praia. "Sorte que não me pegaram. Eles já acham que eu matei todo mundo até pouco tempo. Se me gravassem perto de Raio Azul, iriam ter certeza. Mais certeza do que já têm..." Pensa, enquanto corre. Já faz algum tempo que deixou a praça. Quando está a um passo da segurança...
- Olha ele aí! Filma!
O cinegrafista liga a máquina enquanto a coloca no ombro, e ajusta o foco. A imagem começa a se formar e ele vê a praia, as estrelas, e o lugar onde deveria estar Marfim Cobra. Mais um fracasso. Ele desliga a câmera e a tira do ombro.
- É. Isso mesmo... - o repórter está fora do carro, apoiado nele com um braço, enquanto sustenta o celular com a outra mão. - Não, não se preocupe, eu garanto. - Ele desliga.
- O que...
- Vamos ficar aqui. Cedo ou tarde ele vai aparecer. Eu negociei com o chefe: não precisamos trabalhar amanhã.
- E minha mulher e meus filhos? Estão me esperando, e... - o repórter estende a mão com o celular. - O que...
- Ligue e avise. É só esse o problema?
E a luz das estrelas contempla o silêncio: não há lua esta noite.
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Mais uma noite. Marfim desperta. Segue em direção à cidade, e a encontra mais uma vez vazia. Caro leitor, será que a equipe de jornalismo resistiria cerca de vinte horas de espera? Certamente amanheceu e eles ainda estavam lá. Provavelmente só conseguiram uma boa bronca do chefe, por um dia de trabalho perdido.
Mesmo assim, algo estava errado, e Marfim sabia disso. Olhos o observavam, de vários lugares. Olhos ocultos nas trevas de Maceió.
Marfim parou por alguns segundos e olhou em seu redor. ...Não parecia haver nada que o pudesse vigiar. Nada além das estrelas. Mas havia algo mais. O bravo herói ignorou o que quer que o estivesse vigiando e foi em busca de bandidos para aumentar seu "escore". Corre pelas ruas da cidade. Parece uma noite normal. Assim pensa, até ver mais um assalto. Já estava longe do litoral e raramente costumava se distanciar tanto. Era um rapaz de boné vermelho e roupas sujas e rasgadas, como se quisesse parecer mais ameaçador, mas ele conhecia bem esse tipo.
Ele estava com uma faca, ameaçando um homem já de certa idade. Marfim Cobra vira cenas assim tantas vezes que não seria capaz de calcular seu número. Na época em que era apenas "Cobra". "É, certas coisas nunca mudam..." Para esse tipo, intimidação e medo é o que melhor funciona.
- Solte-o. - fala Marfim, em tom de voz grave. Nem seria preciso, pois sua voz já tem um tom sobrenatural, por natureza.
Ele empurra o velho contra o chão e corre sem sequer ver quem havia falado. Sorte dele, pois pelo que Marfim conhece desse tipo, ele se assustaria tanto que não conseguiria sequer fugir. Tudo normal: o assaltante fugiu.
- Obrigado. - fala o senhor em calças desbotadas e camisa de mangas compridas, com naturalidade. Cabelos brancos e por volta de sessenta anos.
"Que tipo de pessoa nos dias de hoje agradeceria a um esqueleto?!? Se nem antes achava isso possível, imagine agora. Há algo errado aqui." Pensa Marfim, e não deixa de ter razão.
- Desculpe-me, estou sem óculos. Poderia me ajudar a encontrar a porta?
Estaria explicado. Marfim toca cuidadosamente suas costas (para que não perceba que são de ossos suas mãos) e o dirige à porta da casa da qual estavam próximos.
- Aquele pirralho me quebrou os óculos. Vou ter que comprar outro par amanhã... - resmunga ele, o senhor de idade, enquanto abre o ferrolho da porta. - Obrigado mais uma vez.
- Não há de quê.
Marfim parte em busca de mais trabalho. Passa algumas casas, mas quando vira a primeira esquina ouve uma rápida seqüência de barulhos, parecendo golpes. Golpes bestiais. Vem da rua onde ele estava. Parecia vir de perto da casa do homem que estava sendo assaltado. Marfim volta para lá rapidamente. Enquanto se aproxima, ouve um barulho de pegadas. Rápido e baixo. Quando diante da casa, é então surpreendido pelo monstro da noite anterior, e das anteriores àquela. Ele saltou de dentro do jardim como um cavalo salta obstáculos. Ele saltou um muro de pouco mais de três metros, caindo bem em cima do paladino de Kin-Rá.
Uma rajada de pensamentos piora a reação de Marfim. "O velho estará bem?" "O que eu teria feito a este monstro?" "Por que ele viria a me seguir?"
Recebendo o forte golpe, Marfim vai ao chão, batendo o crânio. Enquanto no chão, o bravo justiceiro recebe vários golpes sucessivos. E não parece que voltará a si tão cedo. Uma rajada laranja-energia corta o ar e atinge a besta em cheio. Ela foge. Marfim, antes surpreso, agora fica ainda mais. Não sabe de onde poderia ter vindo aquilo.
Barulho e confusão que começaram há oito minutos. Um carro se aproxima rápido como um quadrúpede sedento ao avistar um oásis. A imprensa. Eles já souberam e estão vindo. O barulho do motor convida Marfim a voltar à Terra. A deixar para pensar mais tarde, na solidão do mar. Marfim se levanta quando o carro está próximo, e corre. Ele corre por algumas ruas quando percebe quão distante está do mar. Será muito mais difícil deixar o carro para trás. Então ele se vira e...
- Inchinmy Ejoda! - invoca as serpentes de energia e, logo após rápidos gestos para direcioná-las, Marfim corre.
As serpentes atravessam a distância que as separava do carro, como duas flechas, acertando em cheio os pneus.
Os "tripulantes" resmungam, enquanto o carro é obrigado a parar. Mas Marfim está muito distante para ouvir isso. Fisicamente, e mentalmente ainda mais.
"Como se não bastasse a besta me acusar de alguma coisa, ela me ataca e surge uma força que me ajuda." Ele corre: já está próximo da praia. "O que fiz a este monstro para que tenha tanto ódio de mim? E o senhor? Estará bem? Espere. E se..." Diante do mar ele pára, subitamente. "Não, não pode ser." Pensa e espera alguns instantes, como se precisasse se certificar de que era mesmo essa sua opinião. Marfim se vai, retorna às águas para esperar mais um anoitecer.
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A noite caiu e já se vê o movimento reduzido. Não que sempre tenha sido assim, mas, depois dos "boatos", as pessoas se tornaram mais cautelosas. Passa um automóvel branco a uma velocidade talvez acima do permitido. Ultrapassa o sinal vermelho e segue em um estreito zigue-zague. Passa tão rápido que não nota a presença de alguém ali na praia. De um corpo branco-envelhecido, de um corpo que se aproxima mais da cidade. De um corpo ósseo, de Marfim Cobra. O motorista não o viu, ainda bem. O susto o faria bater e perder o pouco da vida que lhe restava. Mas o alguém da praia parece ignorar o carro, e corre em busca de ação.
"Sangue?" Sim. Um rastro de sangue. Gotas e gotas que sujam ruas em uma trilha-armadilha. Marfim a segue e já suspeita de alguém: aquele monstro que insiste ter sido vítima do justiceiro e assim diz que graças a ele é quem é. Marfim Cobra continua a seguir a trilha de sangue. Segue até encontrar um corpo no meio de uma praça. Um repórter. Com o pescoço cuidadosamente cortado, como uma galinha abatida. Ao seu redor, uma poça de sangue.
O céu e as estrelas iluminam o corpo, e ao seu redor as árvores se ocultam em suas próprias sombras. De repente um ser monstruoso pula de trás de uma delas. Um ser peludo, aterrorizante, mas que parece não ter surpreendido o paladino de Kin-Rá.
- Então vieste mesmo... - fala a horrenda besta.
- Então notaste...
- Sem brincadeiras, pilha de ossos, pois hoje não estou de bom humor.
- Certo, então... Por que fizeste isso?
- Não lhe parece óbvio? Eu quero você.
- Mas por que tem me perseguido?
- Ora, hoje estás pra conversa?
- Eu quero respostas.
- Tudo bem, eu já disse, mas vou repetir. Você me tornou o monstro que hoje sou. Mais alguma coisa antes que possamos fazer nosso duelo definitivo?
- Sim. Eu não andei a enfrentar horrores no meu passado, pelo menos não de forma direta. Como podes me acusar de alguma coisa? Diga-me ao menos o que lhe aconteceu.
- Então queres mesmo saber? - fala o monstro. Ele faz silêncio por um curto intervalo de tempo, e prossegue. - O problema é que estás procurando no tempo errado.
Marfim fica surpreso, e ele prossegue.
- Por acaso te lembras de um automóvel perto de um certo cemitério? Enviaste-me a uma caverna, onde havia apenas um pouco de água e ratos. Tivemos que fazer fogueira com os bancos do carro e comer ratos para sobrevivermos. Bebíamos daquela água. Até que ela me tornou assim e, em pânico, matei meus capangas. Mas consegui fugir.
- Como é que é?
- Agora, a única coisa que quero na vida é o seu fim!
Ele salta contra o atordoado Marfim Cobra. E o ataca. Marfim só agora entende o motivo de sua ira. Após alguns golpes, o esquelético defensor é arremessado para longe. A monstruosidade corre velozmente para o lugar onde Marfim caiu, mas M. Cobra consegue reunir forças suficientes para se pôr de pé antes que a besta chegue.
- Ainda vai resistir? Ótimo, pois isso torna mais saborosa a minha vingança.
- Inchinmy Ejoda!
Marfim está com o punhal mantendo a folha voltada para baixo, enquanto a besta vem correndo em sua direção. Mas Marfim aponta para cima, no instante em que o monstro salta, como se previsse os movimentos do oponente. As serpentes o atingem e ele cai no chão.
- Bom, está melhorando. Vamos ver o que acha disso...
O monstro salta em Marfim, derrubando-o e o pressionando contra o chão. A dor é imensa.
Mesmo sob tanta dor, Marfim consegue lutar. Empurra. com as pernas, o monstro para trás, e se levanta. Mas o monstruoso adversário cai de pé e salta novamente sobre Marfim. M. Cobra rasga o ar com o seu punhal, deixando um rastro verde luminoso e um corte no agressor. A luta segue, golpe a golpe, a besta e o justiceiro alternam acertos e danos, até que ambos parecem fracos. A besta já está muito ferida, após um golpe brutal desferido contra seu ombro por Marfim Cobra. A peluda criatura sobrenatural pára - está a uma certa distância de seu adversário - , leva a mão direita ao seu ombro esquerdo, de onde sai sangue, e mais sangue. Ela então se vira e corre. Foge a uma velocidade inumana. Marfim apenas assiste à cena. Ele vê a besta fugir como louca a galope e desaparecer ao virar uma esquina. Um enorme e maravilhoso feixe laranja-energia preenche a rua optada pelo monstro como trajeto de fuga, iluminando toda a praça com um laranja-outono. Da mesma forma que surgiu, a luz desaparece.
Marfim, embora cansado, vê-se na obrigação de analisar o fato, afinal, o inimigo era seu, e a luz foi a mesma que o salvou do mesmo inimigo. Ele corre para a rua-alvo e vê um homem caído no chão, com queimaduras e pêlos ao seu redor. Atrás do cadáver, que tem um ferimento no ombro esquerdo, um vulto encapuzado. Ele começa a falar, com uma voz que parece estremecer a terra.
- Fimiq triunfou, mas não pode alcançar o próximo degrau de seus planos. Ele veio à Terra, na pele de um sueco, e está destruindo as cidades, aliado a seus servos zumbis. Você deve se juntar às outras forças de seu deus.
- Mas, onde ele está? Como chegarei lá?
- O segredo está em você. No que você pode, no que você quer.
Depois disso, o vulto simplesmente desaparece no ar como fumaça. "Bem, o que eu posso? Correr... não. A serpente energética! A serpente branca! O monstro disse que eu mandei o carro para uma caverna. Eu não pensava em nada. Talvez, se eu pensar no inimigo..." Ele concentra energia, ergue o braço e dispara a serpente. Ele corre, mas a serpente é mais rápida.
Frustrado, concentra energia novamente e dispara. Dessa vez mirando os próprios pés. Logo a serpente faz nele um casulo e some, deixando a rua deserta.





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