Parte 5
Sábado, 13 de junho. Maceió está mais deserta à noite, desde o dia em que um esqueleto começou a caminhar sobre seu chão. Pobres mortais, que não conhecem a face de seu salvador...
Marfim aparece. Mas não onde queria. Está na mesma rua de onde saiu, diante do corpo fulminado pela luz laranja.
"É claro! Não deu certo. Se não sei como é o inimigo, como posso chegar a ele assim? Pelo menos, agora sei que isso funciona. Mas, quem eu devo procurar?" Pensa Marfim e pára pra refletir por algum tempo. "Claro! Áquos!" Ele concentra energia, aponta o braço para seus próprios pés e parte a serpente de energia branca, que o envolve em um casulo. O casulo desaparece e Marfim ressurge no mar.
É dia, e Marfim se vê imerso nas águas do oceano, diante de Áquos, mas não do Áquos que conheceu. Está diante de um Ã?quos ferido, apoiado no tridente. Áquos fez sinal para que o seguisse e saiu. Marfim o acompanhou até a praia. Lá poderiam ter uma comunicação melhor. Áquos parecia estar mal.
- Onde estamos? - pergunta ao enfraquecido Áquos.
- Onde estamos... Não sei. Numa ilha, eu acho.
- E eles? Lunar e Corvo?
- Devem estar recuperando suas energias. Corvo no céu e Lunar em alguma montanha ou algo assim.
- Pode me dizer o que exatamente aconteceu?
- Claro. Vim em busca de zumbis e encontrei um bom punhado de esqueletos miseráveis. ...sem querer ofender.
- E como estão?
- Como deveriam: mortos.
- Não sabe como isso me deixa mais tranqüilo. Disseram-me que havia um novo avatar de Fimiq, pensei que...
- Quem disse isso?
- Um homem misterioso, que disparava raios laranjas...
- Raios laranjas!?! Não pode ser!
- Qual o problema?
- Tem certeza de que eram laranjas?
- Sim, claro.
- Eram poderosos?
- Sim, mas me diga qual é o problema?
- Só conheço um ser que dispara raios laranjas e fortes. Redry, em sua forma humana.
- O deus da vida?!?
- O próprio.
- Isso significa que...
- ...se já houve tempo para se formar um avatar, pode já existir outro.
Eles param e pensam por algum tempo. Por alguns instantes imaginam como seria se Fimiq conseguisse vir à Terra. Sabe-se que raríssimos são os que conseguem sobreviver a um combate contra um avatar. Eles pensam em silêncio, temendo terem que combater alguém assim. E o silêncio permanece, até que Marfim nota quão cansado está seu colega.
- Você recupera energia no mar?
- É.
- Pois é bom ir descansar: você está péssimo.
- Tem razão. - ele se vira e volta ao mar, em passos lentos.
Marfim Cobra está só na praia. A praia está deserta, com certeza por causa desses tantos incidentes envolvendo seres sobrenaturais. Ele resolve caminhar, e caminha pela praia por uma ou duas horas, até ver um ponto se aproximando pelo céu. Marfim parou e esperou que chegasse a ele. O portador do punhal das serpentes cria ser o Corvo, desde o princípio. À medida em que se aproximava, tinha mais certeza disso. Ele chegou e pousou diante de Marfim.
- O que houve com suas roupas? - perguntou.
- O tempo, as batalhas... E você, está melhor?
- Estou, o brigado. E você? O que faz aqui? Passeando?
- Talvez Fimiq tenha conseguido vir à Terra como avatar.
- Sério? Que bom, pois estou com uma vontade de arrebentar a cara dele...
- Não brinca. O caso é sério.
- Como você veio aqui? Não me diga que foi por magia...
- Foi, algum problema?
- Claro! Uma viagem tão longa pode ter deixado seus poderes mágicos no fim do poço. - fala Corvo, mas Marfim não responde. - Você não pode enfrentar Fimiq assim. Tem que reabastecer as forças.
- Não, eu me sinto ótimo.
- Não diga... Tente usar o mesmo poder.
- Em quê?
- Sei lá! Qualquer coisa. - Eles olham em volta e vêem alguns pássaros voando perto. Marfim aponta o braço direito para lá, concentra energia e... nada. Concentra mais, e nada. Na terceira vez a serpente branca sai, para sumir após percorrer apenas três metros, dissolvendo-se no ar como fumaça.
- Não lhe falei?
- É, você está certo. O que faço para carregar?
- Como vou saber? Cada um de nós tem como santuário um tipo de canto diferente. A resposta deve estar no seu passado. A propósito, também preciso recarregar mais minhas energias mágicas. Preciso ir, só passei mesmo pra dizer "oi".
- Tá, obrigado.
- Por nada. - fala o Corvo que, já prestes a decolar, pára e diz - Ah, antes que eu me esqueça: Oi!
E vai embora para o céu.
"Bem, no meu passado... Onde eu poderia recarregar minhas energias?" Marfim reflete por alguns segundos, até chegar a uma conclusão: "o cemitério!" Isso! Todos os problemas estariam resolvidos.
"Mas... onde acho um cemitério?" Agora a preocupação retorna. Mas não há muito o que pensar, só há um modo de resolver esse problema: sair à procura de um. Ele sai na esperança de encontrar. Caminha e, só algumas horas depois de iniciar a busca, finalmente encontra um lugar de repouso dos corpos de quem já cumpriu seu papel na Terra. Já era noite quando o encontrou. Mas não estava tudo certo. Havia algo errado e Marfim não tinha certeza de qual era o problema. Havia apenas uma sensação estranha, uma sensação de que o perigo estava próximo. Não estava errado. Quando diante do aterrador prédio, dos dois extremos da rua vinham esqueletos. "Lá estão mais deles..." Eles se aproximam em passos sem pressa, alguns mais rápidos, outros mais lentos, mas sem pressa para chegar.
Marfim Cobra lutou, com seu Punhal das Serpentes, e derrubou os esqueletos, um a um. Terminada a batalha, seu corpo estava exausto, e de novo se viu cansado, e precisando de repouso. Ele caminhou em direção ao cemitério e nele entrou. Uma vez lá, andou até bem próximo de seu centro. Já era noite e Marfim se sentou e tentou relaxar. Conseguiu fazê-lo em poucos minutos. Dormiu. Dormiu sem que chegasse a perceber que alguém o vigiava. Dormiu sem saber que, no instante em que fez isso, todo o seu corpo desaparecia. Dormiu sem perceber que, no centro do cemitério, só havia agora seu punhal: o Punhal das Serpentes. Dormiu sem saber que nele havia agora, no fim do cabo, um pequeno e aparentemente decorativo crânio branco. Dormiu sem perceber que na verdade estava sendo chamado.
E lá estava mais uma vez naquele escuro sem fim. Lá estava Marfim Cobra em uma escuridão iluminada por alguma luz inexistente, com uma névoa branca que lhe alcançava os joelhos. E de novo lhe apareceu aquele ser com seis braços e duas pernas, embora, exceto por esse último detalhe, parecesse totalmente humano. Sim, era mesmo o deus daquela corajosa pilha de ossos. Era aquele de cujo nome Marfim não ousaria esquecer.
- Kin-Rá. - deixa escapar o nome de seu deus, enquanto abaixa a cabeça.
- Levante-se. - fala a voz de Kin-Rá, carregada de justiça e luta. Marfim o faz. O silêncio perdura por longos minutos, enquanto o sobrenatural justiceiro começa a ficar angustiado pela demora. Mas Kin-Rá finalmente recomeça. - Você já sabe que perigo enfrentará. Você já conhece, por palavras e feitos, o inimigo da vida. As batalhas que seguirão não serão fáceis, pois ele é o que promete vida eterna sobre a Terra, e poder. Erguer-se-ão, em pouco tempo, generais mortos-vivos de todas as partes do mundo, liderando exércitos de esqueletos, zumbis e fantasmas. Ele já está, mas não totalmente - pára por alguns segundos, e prossegue. - Nessas batalhas menores vocês não estarão sós, o deus da vida, o da guerra e a dos ventos com certeza farão parte dessa guerra. Mas nas batalhas principais, eles não poderão interferir de forma direta. - Mais uma vez Kin-Rá pára. Desta vez ele se vira, ficando de costas para o esquelético herói. - Pode ir. Mas não se esqueça de apenas uma coisa: siga sempre seu senso de justiça. Ele não te trairá, pois é justo.
- Obrigado. - É a única coisa que Marfim consegue dizer, pois antes mesmo que pensasse em uma forma de sair, já estava despertando. Não era noite ainda, mas também não era dia. O céu estava vermelho e o Sol já não podia ser visto. A noite mais uma vez se aproximava, mas Marfim, que acabara de ressurgir próximo ao punhal - que voltou a ser como era antes - , continuava cansado. Por isso, resolveu não caçar essa noite, mas permanecer no cemitério e só lutar se as circunstâncias pedissem.
Ficou alerta e, quando cansava de ficar parado, caminhava por todo o cemitério, às vezes até checando a rua dos portões. Por azar ou por sorte, a noite de Marfim se resumiu a isso. Com Áquos, submerso em água, e Lunar, em uma montanha qualquer, a noite não foi tão diferente. Mas em alguns pontos da cidade novos esqueletos surgiam e só o Corvo pôde ver. Como uma unidade de justiça, ele não resistiu e desceu para enfrentar tais criaturas. A muito custo ele conseguiu derrotar algumas. Entretanto, são tão poucos vencidos de tantos que invadem o lugar, que alguém acharia que foi apenas um martírio. Ao fim de tão pequena luta, o Corvo se sente cansado. Mas não só isso. Há também felicidade em seus olhos e, ao amanhecer, ele se dirige aos céus esperando se recuperar para as próximas batalhas que hão de vir.
Cansado da monotonia, Marfim começa a riscar o chão com seu punhal. Risca signos ilegíveis para pessoas de hoje. Para muitos seriam simplesmente símbolos. Para alguém com mais imaginação (se seu lado psíquico sobreviver à visão de um esqueleto que tem chamas no lugar dos olhos, riscando o chão, com certeza seria enormemente ampliada sua capacidade imaginativa), significariam a execução de um ritual mágico qualquer. Os dois estariam errados. São alguns dos signos da escrita de seu tempo e lugar. Ele não escrevia muito, já que quanto mais voltamos no tempo, mais voltada aos que podem é a escrita. Ele havia aprendido pouco, e agora, cansado de caminhar por todo o cemitério sem resultados, e sem poder sair por não estar recuperado totalmente, escreve só para se lembrar do passado. Embora não tenha propriedades mágicas, os símbolos no chão começam a abrir um portal para o passado. Para o passado das recordações.
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Uma equipe inspirada em super-heróis dos quadrinhos ou séries japonesas invade o cemitério. Os seis membros, vestidos em trajes coloridos, correm contornando a capela, quando chegam os primeiros raios do Sol. Três por cada lado, correndo. Eles se encontram nos fundos e lá só há símbolos antigos, de uma língua morta, desenhados na areia, com um punhal largado em seu centro. Um punhal com um cabo feito de duas serpentes, talvez de metal. As cabeças separam o cabo do gume, como proteção. Suas caldas prendem um crânio em miniatura, imitando um crânio humano. Nem sinal de Marfim Cobra. O marrom do grupo se aproxima e toma o punhal em suas mãos. Ele sinaliza, chamando os outros com a cabeça, enquanto se dirige às pressas ao portão. Os outros cinco o seguem.
Para que possamos tomar fôlego, vamos parar um pouco a cena para que o leitor obtenha mais detalhes sobre essa equipe que entrou de forma tão rápida e inesperada na história.
Faz uma semana que o mundo conheceu a Força Corvo. São seis pessoas, cada uma com o poder de uma das seis pedras mágicas, cristalinas e cada qual com uma cor própria. Uma preta, uma rosa, uma marrom, uma vermelha, uma amarela e uma laranja. Tais pedras estavam em um museu. Em um acidente, uma delas flutuou no ar e começou a girar em torno da cabeça de um visitante. Como se estivesse se desfazendo em pó, começou a descer, mantendo os mesmos movimentos circulares de antes, mas deixando na "vítima" uma estranha roupa colante. Ao chegar aos pés, quando restava apenas um pedaço do tamanho de um giz, subiu e desenhou uma espada no ar, terminando por se desfazer por completo. O visitante ganhava uma roupa cor-de-laranja e uma espada. Ele ficou tão assustado que desmaiou em alguns minutos. Tudo que havia formado desapareceu e ressurgiu a pedra laranja ao lado da cabeça do visitante. Assim se descobriu como ativar e desativar a magia das pedras do Corvo.
Cada pedra trazia o desenho de um capacete, lembrando um corvo, e era perfeitamente lapidada. O capacete surgia idêntico ao desenho, quando o traje era invocado.
As pedras foram recolhidas por uma entidade governamental, e também se procurou aumentar enormemente a segurança dos museus no mundo todo. Seis membros das forças especiais da nação foram convocados para utilizar o equipamento. Nem bem tiveram tempo para treinar o uso dos artefatos, já tiveram que sair à caça de esqueletos, numa trilha que terminou por colocá-los diante do punhal de Marfim e os signos que ele havia deixado na areia - fato descrito na cena anterior. Voltemos à ação.
O sexteto abandona o cemitério correndo. Não é medo. Eles sabem que ainda têm muito o que fazer. Não precisam virar esquinas para encontrar mais um monte de esqueletos. O corvo marrom, que seguia na frente, saca o punhal - o seu, não o de Marfim - e começa a enfrentar os detestáveis rivais. O Punhal das Serpentes ele arremessa para o alto.
- Rose, é com você! - grita, enquanto se abaixa. O corvo rosa pisa em suas costas e salta cerca de seis esqueletos, pegando no caminho o punhal de Marfim Cobra. Mal chega ao chão, saca sua arma. Um bastonete que cria um globo de fogo ligeiramente rosado. Sabe aqueles aparelhos de defesa pessoal, que dão choque elétrico? Ele funciona aproximadamente da mesma forma, só que, como já disse, cria um globo de fogo. Globo esse que pode atingir um metro de raio. Ela rapidamente ativa tal arma e corre, com a arma em sua frente, abrindo caminho entre os esqueletos, que caem em chamas mágicas vindas de tão fantástico artefato. Ela corre dessa forma até avistar a moto, ao lado do carro. Corre e monta. Não há quase nenhum esqueleto por aqui, mas Rose não perde tempo, e acelera em direção ao seu QG.
- Toma isso, seu magrela! - grita o corvo vermelho, ao mesmo tempo em que desce o machado, quebrando o crânio do esqueleto-alvo. Junto com os corvos laranja e negro, lidera a força de ataque, abrindo caminho entre os mortos-vivos, enquanto mais deles se aproximam. Os corvos restantes cuidam da retaguarda.
- Quantas vezes tenho que dizer? Não somos heróis de seriado infantil. - fala o corvo amarelo, lutando cautelosamente com seu bastão.
- Qualé, cara? Vai amarelar agora? - responde prontamente o vermelho, aplicando outro golpe em outro esqueleto.
- Peter... - fala o laranja, em tom interrogativo.
- Só queria saber de onde vem tanto esqueleto... - responde o corvo marrom.
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- Aahhh!
Em outro lugar da cidade, uma esquina. Em uma das ruas, nada. Na outra, milhares de esqueletos. No meio um rastro de pneus queimados. No fim do rastro, o corvo rosa em sua moto, quase caída.
- Só faltava essa! - grita nervosa, diante de uma multidão de esqueletos. Ativando sua arma, tenta enfrentar alguns. Até que a chama se apaga. - Que é que eu faço agora...
- Precisa de ajuda, corvinha? - a voz, que é totalmente estranha, vem do céu. Ela olha para cima e vê o Corvo, a unidade de justiça de Kin-Rá.
- Quem é você?
- Eu sou o Corvo. Agora, - ele desce e a segura pelos braços - vamos deixar de conversa que eles estão muito perto.
Ao sentir que já está no ar, e ver os esqueletos alcançando sua moto, ela suspira fundo e deixa ser levada pelo estranho. Ele voa com ela até um edifício próximo.
- Em outra ocasião, eu teria o maior prazer em derrubar esses malditos um a um, mas... Ai, minhas costas! Bem, o que fazia uma avezinha sem asas no meio daquela festa?
Ela ergue a cabeça e encara, pela primeira vez, o Corvo. Ela vê através de dois buracos no elmo, o lugar onde deveriam estar seus olhos.
- Quem... O quê é você? - pergunta, recuando assustada. - Não tem ninguém aí dentro!?!
- Ih! Sabia que tinha esquecido alguma coisa...
- Você está com eles, não é? - pergunta, aos berros, apontando para baixo.
- Eu? Nem em sonho! Eu tô aqui justamente para matá-los.
Ela fica calada. O Corvo dá um passo e ela saca a arma.
- Não se aproxime. - E a ativa, quase atingindo a unidade de justiça de Kin-Rá.
- Hei! Calma aí! - Ela insiste em se manter como estava. O Corvo saca a espada. - Foi você quem pediu. Quer fogo, não é? Eu também tenho. Aoh Eker Joh!
Imediatamente sua espada entra em chamas. Os dois ficam frente a frente por um bom tempo, até que a arma dela apaga. Rose vê o Corvo parado, com a espada em chamas na mão. Eles se encaram novamente, por mais algum tempo. Então o Corvo sacode a espada no ar, como se isso, por si só, fizesse com que as chamas fossem extintas. Mas elas apagam.
- Calma. Se eu fosse seu inimigo teria te matado. - fala o Corvo, então, de forma calma e sugestiva. Ela fica parada por algum tempo, até que finalmente responde.
- Certo. Seus argumentos são convincentes, mas não me convenceram. Quem é você, e o que faz aqui?
- Sou uma unidade de justiça de Kin-Rá...
- Quem?
- Kin-Rá. Nunca ouviu falar do deus da justiça, do deus-aranha?
- Não.
- É, esqueci. Kin-Rá é sempre o primeiro deus a chegar e a sair. Vai ver por isso foi esquecido, mas, continuando...
- O que você é afinal? Um morto-vivo?
- De certa forma. Somos paladinos de Kin-Rá...
- Somos?
- Somos quatro agora. Voltando ao assunto, nós estamos aqui pra acabar com Fimiq, o responsável por esses esqueletos.
- Você sabe quem é o responsável!?!
- Sim. ...e não. É o avatar do deus da destruição. Ele quer destruir toda a vida da Terra, mas não o conhecemos ainda.
- Avatar... É um protegido desse deus?
- Não. É o próprio Fimiq na forma humana.
- Se está na forma humana, o único problema é encontrá-lo, certo?
- Claro que não! Você é maluca? Um deus na forma de avatar tem poderes tão grandes que você jamais sonharia existir. Eu diria mais: localizá-lo é um excelente e inofensivo passa-tempo, comparado à luta que nos espera.
- Mas você tem um deus do seu lado.
- Um deus, simplesmente, não tem grandes poderes, de forma direta. Eles não têm acesso direto a esse mundo de forma fácil. O deus da morte seria uma formiga diante de um avatar da deusa dos ventos. Por isso os deuses se usam de sacerdotes. Eles são o elo entre eles e a Terra, enquanto eles estão na forma de deuses.
- Certo. Isso é problema... - ela pára um pouco, até que se lembra da adaga. - Espere! Tenho que levar isso aqui pra base, com urgência. Você poderia me ajudar?
- De forma alguma! Esse é o Punhal das Serpentes e pertence a Marfim Cobra. O que foi feito dele!?!
- Não sei! Esse punhal estava largado no cemitério, quando chegamos...
- Pouco provável. Marfim Cobra jamais abandonaria sua arma. Entregue-me o punhal.
- Não senhor, sem essa. E se esse punhal for poderoso, você estiver mentindo, e estiver do lado dos esqueletos? Quem sabe até seja o verdadeiro responsável por eles. Agora não dou mesmo! E essa caveira fortalece ainda mais minhas suspeitas.
- Caveira?
- Ela ergue o punhal rapidamente, e o Corvo vê a pequena caveira presa ao punhal como se houvesse sido feito assim.
- Caveira... - repete o Corvo, dando as costas e caminhando em passos lentos, pensativo.
- Que foi agora? Outro truque?
- Não. Só acho que meu amigo ainda vive. Bem, aonde você precisava ir mesmo?
- À minha base, mas... Será que posso confiar em você?
- E você tem escolha? Quem mandou não ter asas? Um corvo sem asas... A propósito, qual é o seu nome?
- Pode me chamar de Rose. Vamos logo que tenho muito o que fazer hoje.
O Corvo pega Rose e a leva para os céus, através dos quais, a partir de informações da passageira, chega à base dos corvos.
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- Senhor. Há algo estranho se aproximando, pelo céu.
- Deixa ver... Hmmm... Deixe se aproximar, traz Rose. Reúna os cinco outros corvos.
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- É ali. - diz Rose, apontando para a base. O Corvo a leva até lá.
- Já chegaram? - pergunta, ao chegar.
- Parece que não adiantou muito ter vindo na frente. Mas isso não importa agora. Quem é ele?
- Deixe-me contar toda a história. Eu vinha de moto até aqui, mas no caminho, justo numa esquina, apareceram milhares de esqueletos. Eu lutei o quanto pude, até minha arma falhar. Foi quando ele apareceu e me salvou. Levou-me para o topo de um edifício... - E contou toda a história que o leitor acabou de acompanhar.
- Obrigado pela ajuda, mas, se quiser ficar por aqui, terá que entregar a espada. - diz o homem vestido de terno azul.
- Ficar eu quero, mas não é justo que eu fique aqui desarmado. Todos vocês estão armados, menos eu. A espada não entrego.
- Você está em nosso território.
- Aí! Mais uma prova de que estou sendo injustiçado. Essa área é toda de vocês. E quem garante que vocês não trabalham pra Fimiq?
- Tudo bem, não temos tempo a perder. - ele se vira para o corvo amarelo. - Hoje você cuida da imprensa.
- Imprensa? - pergunta o Corvo.
- Vê se não amarela de novo. - ironiza o corvo vermelho.
- John e Rose. Vocês acompanham a visita aonde ela for, enquanto estiver aqui dentro. Os outros podem descansar. - o autoritário homem de terno estende a mão para Rose e pega o Punhal das Serpentes.
- Cuidado com isso. - recomenda o Corvo.
- Eu sei cuidar dos meus assuntos. - responde, antes de sair.
Quatro corvos e os homens de terno vão embora. De modo que, no topo do prédio dos corvos, restam apenas o Corvo; Rose, o corvo rosa, e John, o corvo laranja.
- Não quer entrar? - convida Rose.
- Não, prefiro ficar aqui, ao vento. - responde o Corvo, e passa a fitar o horizonte. - Vocês falam com a Imprensa?
- É, por quê? Algum problema?
- Disseram coisas péssimas dela.
- Nós...
- É um mal necessário. - John interrompe.
Eles conversam até o fim da tarde, lá em cima. Claro que os corvos humanos, durante esse tempo, alimentam-se, entre outras coisas. Mas há algo mais importante.
- Já é quase noite! - grita o Corvo, interrompendo uma construtiva conversa sobre magia.
- E daí? - pergunta Rose.
- Daí que o Marfim deve despertar e eu tenho que estar por perto ou ele vai causar o maior estrago!
- Quem é Marfim?
- Marfim Cobra, outra unidade de justiça... Onde está o punhal?
- Com os cientistas, mas você não pode entrar lá.
- Vocês vão precisar desses cientistas depois?
Os dois membros da Força Corvo se olham, pasmos diante do desespero do visitante.
- Onde está? Não temos tempo a perder!
- Bem, - começa John. - nós podemos fazer um acordo... Você deixa a espada conosco, por enquanto, e pode ir ver o punhal. Que acha?
- Isso não é acordo, isso é chantagem.
- São quase seis...
- Está certo. Você venceu. Onde está o punhal? Rápido! - o Corvo entrega a espada.
- Siga-me. - depois John entrega a espada a um funcionário e desce todos os andares de escada, seguido pelo Corvo e por Rose, nesta ordem.
John caminha pelo corredor (os dois o acompanham). Caminha até achar uma porta. Segura a maçaneta e espera que os outros cheguem.
- Ele está aqui.
Abre a porta. Um brilho verde majestoso, tão definido e belo quanto o de um raio, preenche todo lugar. Eles caminham apressados por entre as prateleiras da enorme sala, e chegam em tempo de ver uma magnífica cena. O punhal, flutuando a mais de um metro do chão, dispara alguns relâmpagos verdes para as lâmpadas, o chão e as paredes, ao mesmo tempo em que brilha uma luz não-natural, nem artificial. Simplesmente uma luz mágica, também verde. Do nada aparece, segurando o punhal, Marfim Cobra, com seus olhos em chamas vermelhas no meio da luz verde, com ar imponente.
Quando o Corvo olha em volta, os dois corvos estão se deslocando lentamente. Um pela esquerda, outro pela direita, para cercarem Marfim. Quando estão quase lá, Marfim Cobra percebe suas presenças e, num movimento rápido, segura o punhal com o gume para baixo, mas antes que possa gritar as palavras mágicas...
- Parem todos! - o Corvo interrompe. Os dois parecem não se incomodarem tanto com o grito. Simplesmente param, mas continuam de armas em mão e a postos. - Parem! Ele é meu amigo! A outra unidade de justiça de que falei!
- Que bom te ver! Amigos seus? - pergunta Marfim, fingindo não dar mais atenção aos quase agressores. Ele sai andando em direção ao Corvo e o cumprimenta.
- Quê? - pergunta finalmente Rose, com expressão de quem não entende mais nada.
- Não há o que entender. Ele está com os mortos! - Do meio das estantes vem o corvo vermelho, correndo com o machado na mão, seguido pelos corvos restantes. Os dois paladinos de Kin-Rá saltam habilmente para trás.
Os corvos vermelho e negro continuam em disparada, quando se ouve um estrondo do outro lado da sala. A parede caiu. - um pedaço dela, pelo menos.
- Encontramos. Agora, vamos à luta. Não temeis: a cavalaria chegou! - é Áquos, com Lunar, que acaba de abrir caminho no meio da parede.
Aproveitando-se da surpresa dos presentes, eles partem e tomam de Marfim e Corvo seus dois adversários. O Corvo aproveita e voa para perto de Rose (entenda por perto uma distância segura). Antes que Marfim pudesse pensar no que fazer, alcança-o o corvo marrom, e os dois passam a lutar com seus punhais.
- Você mentiu - grita Rose, com raiva, segurando fortemente a arma.
- Não! Eles são unidades de justiça, como eu.
O corvo amarelo, antes de entrar na luta, olha toda a cena e vê dois do seu time conversando com o estranho. Corre pra perto para saber melhor o que acontece.
- Eles invadiram nossa base!
- Não! Marfim entrou aqui através do punhal. Já os outros, ao chegarem, nos viram em perigo e resolveram ajudar!
- Parem! - John resolve finalmente gritar para todos, mas eles não param.
- Parem! - fortalece o Corvo. Um líder não faz parar um exército que já está em combate, mas representantes dos dois lados, juntos, podem fazer os dois exércitos pararem.
O resultado é que eles cessam a agressividade.
- Suponho que houve um mau-entendido. - grita John. - Peço que todos os invasores se identifiquem.
- Invasores!?! - grita Marfim.
- Esqueça isso. - intervém o Corvo. - Vamos, identifiquem-se logo para que isso termine o quanto antes.
- Sou Marfim Cobra, unidade de justiça de Kin-Rá, e não faço a menor idéia do que possa estar fazendo aqui.
- Sou Áquos, unidade de justiça de Kin-Rá. Eu e Lunar estamos aqui porque nosso deus assim nos ordenou.
- Lunar.
- Ele é outra unidade de justiça. - completa o Corvo. - Não estranhem o seu mutismo: ele não é de falar muito. ...agora, chegou a vez de se apresentarem a nós. Julgo termos esse direito.
- Certamente. Nós somos a Força Corvo, uma equipe a mando do governo, com o objetivo de salvar o mundo.
- Rose... não diria melhor. - elogia o corvo amarelo.
- Eu sou Rose, o corvo rosa; estes são John, o corvo laranja, e Tommy, o amarelo. Esses três são Stevie, o corvo negro; Peter, o marrom e Gilbert, o vermelho.
Por alguns instantes mais os grupos permanecem calados. Eles se fitam, como se inseguros quanto às palavras dos outros. Até que Áquos resolve se aproximar do Corvo.
- Os sinais de Kin-Rá nos trouxeram aqui. Creio que não sem um motivo forte.
- Tem razão. Temos que partir e lutar contra os esqueletos o quanto antes.
- Temos? Você não pode ir: parece muito fraco.
- E daí? Não vai ser por falta da minha participação que Fimiq vai vencer. Eu vou lutar.
- Tudo bem.
Neste instante Lunar se volta para o buraco na parede - que ele mesmo havia feito - , grunhe e corre em direção a ele. Sai da base enquanto todos se olham com estranheza. Por olhares decidem o óbvio: resolvem sair atrás dele. Marfim Cobra, estando mais próximo da passagem, é o primeiro a alcançar a rua, em busca de Lunar, que rapidamente vira uma esquina. Ouve-se então várias pancadas, rápidas e sucessivas, como uma bala de canhão atravessando várias paredes finas de gesso: Lunar encontrou seu objetivo.
Os últimos integrantes do grupo formado pela aliança entre as unidades de justiça e a Força Corvo chegam.
- Seu amigo tem um ótimo faro! - comenta Gilbert, o corvo vermelho. - Vamos lá, galera! Tão esperando o quê? Madeira!
- Corvo, poupe-se tanto quanto puder. - recomenda Áquos, pouco antes de todos correrem ao encontro dos esqueletos, com os quais o Lunar já começara uma batalha violenta.
Seguindo a recomendação do colega e amigo, o Corvo fica um tanto pra trás. Felizmente não tanto que o prive do prazer de derrubar alguns dos inimigos. Tommy, o corvo amarelo, encontra-se com ele. Não por pedido dos amigos, mas por ter um certo temor quanto à guerra. Embora já mortos, os esqueletos não são fáceis de serem derrotados, pois lutam como homens primitivos e sem emoções - jogando violentamente os membros contra os oponentes, ou tentando lhes prender para machucar enquanto os outros acertam os golpes com maior facilidade - , com a vantagem de, como esqueletos, serem mais duros e machucarem mais.
No entanto, esqueletos estão longe da perfeição. A eles não voltam os espíritos de quando vivos. São simples ferramentas de quem os conjura, e da vida só trazem a chance de morrer. Embora não sintam dor, a força que os mantém de pé - a que alguns associam a pequenos demônios - se esvai após alguns golpes, talvez a quantidade de que necessitavam para morrer, quando o fizeram. As unidades de justiça já estavam acostumadas a isso. Até Marfim Cobra, antes de morrer, já enfrentou alguns. Quanto aos humanos, parecia que aprendiam rápido.
Dessa forma a luta prosseguia: muitos golpes violentos e certeiros do lado de Marfim, enquanto poucos dos desferidos pelas criações de Fimiq atingiam alguém. Os esqueletos no começo somavam mais de cinqüenta, mas quem pararia no meio de uma guerra pra contar os inimigos? O fato é que, pouco a pouco, fosse qual fosse o número inicial, ele baixava, mais e mais, até que só havia um duelo. Dois esqueletos. E num golpe voraz o Punhal das Serpentes executou o último inimigo.
- Você ficou aí atrás o tempo todo? - ironiza Gilbert, dirigindo-se ao Tommy.
- Não enche.
- Foi rápido, não? E agora, o que a gente faz? - Rose perguntava, convencida de que haviam feito um excelente trabalho. Mas antes que o Corvo começasse a expor sua opinião de que não estava tudo acabado, os olhares do grupo viam, dos lados opostos, Stevie e Lunar fitando extensões opostas da rua, faiscando de ódio. Simples: dois grupos de esqueletos se aproximavam. Dessa vez cada lado deve ter muito mais que o exército que foi derrotado.
- Esperem. - fala Áquos, com a mão no ombro de Lunar, que estava prestes a correr para lutar. - Vamos esperar que venham até nós.
- Com todos nós juntos, eles não poderão nos cercar individualmente. - completa Peter. - Não quero que ninguém se distancie.
- Além do mais, eles não pararão antes de chegar até nós.
Desta forma, o heróico grupo se põe em forma de um círculo, voltado para fora. Os esqueletos se aproximavam, e não se via o fim de nenhum dos dois exércitos. Uma certa inquietude tomava conta dos guerreiros, quando repentinamente todas as armas saem de suas mãos, com uma força de tal forma inesperada que ninguém pôde oferecer resistência. Até a do Corvo, que ainda estava na base.
- Que...
- Minha arma!
Todas as armas se reúnem no centro do círculo que eles haviam formado. Do céu vem um brilho de aço inexplicável, e uma espada enorme surge e aponta para as armas. Marfim se recorda então o que Kin-Rá dissera: "o deus da vida, o da guerra e a do vento".
- Calma! É para o bem! - grita Marfim, antes que alguns pusessem em ação seus planos de correr e retomar as armas. - É o deus da guerra. Kin-Rá garantiu que ele está do nosso lado.
Mal Marfim Cobra acabava de pronunciar estas palavras, quando um raio parte da espada ao chão, atingindo todas as armas, com o mesmo brilho metálico, numa ofuscante explosão prateada. Quando todos começam a enxergar, vêem que já estão com as armas nas mãos, e que os esqueletos já estão a alguns passos. As armas estão mais poderosas, e todos percebem.
John é o primeiro a lutar, salta com sua espada e, com dois giros, cinco esqueletos vão ao chão, enquanto um rastro prateado que a espada deixou se desfaz no ar.
- À luta!
Todos saltam com igual fúria, e começam a destruir os esqueletos aos milhares, mas milhares de novos esqueletos surgem no alcance de suas visões.
Quanto ao fortalecimento das armas, as modificações mais interessantes foram na arma de Rose, que era capaz de criar globos de fogo e agora disparava os globos criados, de fogo prateado; a do Corvo que ganhou um maravilhoso fogo prateado ao grito "Aoh Eker Joh" e a de Marfim, que agora deixa um rastro mesclado, meio verde, meio metálico.
A essa altura, o círculo já se expandira a um raio de pelo menos três vezes o original. Se antes eram pouco atingidos, agora eram praticamente intocáveis. Voltemos nossos olhos ao corvo amarelo, de cujo bastão ganhara agora a fúria e consistência de um martelo. Com golpes precisos e cautelosos, Tommy começava a fortalecer sua auto-confiança. Alguns crânios quebrados lhe mostravam que não era ele menos capaz que os outros.
Quando quebrava mais um crânio, viu, de relance, o Corvo começando a se deslocar de forma mais lenta.
- Ele está fraco! - gritou, no mesmo instante, John, do outro lado da batalha.
Desde o início Tommy era o mais próximo do Corvo. Os esqueletos começam a cercar o paladino voador. Alguns golpes, o Corvo cai de joelhos.
"Chega!" O corvo amarelo se prepara, enquanto, com um só golpe, derruba quatro esqueletos que dele se aproximavam. Isso lhe dá espaço para a manobra pretendida. Ele corre em direção ao espancamento e, uma vez que se vê próximo o suficiente, rola no chão por entre os esqueletos, parando a quatro passos do Corvo, que estava cercado e já deitado no chão. Com alguns golpes, alguns como um batedor profissional de baseball, outros como se empunhando uma lança, ele se livra dos agressores e dos que estavam mais próximos. O Corvo está caído no chão, ainda se move, mas de forma muito lenta. Só então ele vê: estão longe demais do círculo inicial. Empolgavam-se tanto com a luta que nem perceberam. Além do mais, um utilizava o outro como referência para não se afastar. Os esqueletos já se aproximam, por todos os lados. Ele resolve tomar uma atitude estranha. Ergue o Corvo, passa o bastão entre seus braços, pelas costas e apoia o ferido nas próprias costas. Reunindo toda sua força, ele impulsiona o bastão para cima. Como um canhão, no momento exato em que o Corvo é arremessado, tanto o bastão quanto o uniforme de corvo se desfazem no ar, juntando-se em uma pedra preciosa que cai no chão. Não há mais corvo amarelo, há Tommy apenas. Enquanto o Corvo cai nos braços de Áquos, que se dirigiu ao lugar da queda, dentro do círculo, Tommy se abaixa e pega a espada do Corvo. Ela é pesada agora que está sem armadura, mas ele não pretende se entregar. Ergue a espada e consegue desferir uns dois golpes antes de ser atingido pelas costas por um golpe violento. O golpe o leva ao chão e o faz largar a espada. O herói desaparece no mar de ossos.
- Não! - Gilbert grita ao ver seu amigo sumir nesse oceano branco-amarelado, que parece não ter fim. - Tommy!!!
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Já é quase dia. O último esqueleto cai por um machado, mas não com fúria e coração como lutava há algumas horas. Agora, com frieza e ódio. Concluída a batalha, ele corre para junto dos ossos onde deveria estar Tommy. A rua está repleta de ossos, mas ele gravou bem o lugar. Lá chegando, pôde ver um homem estendido no chão, numa poça de sangue, já semi-coagulado. Estava irreconhecível: uma assombrosa figura estraçalhada. Ele se abaixa e toma em suas mãos a pedra do corvo amarelo e a espada do Corvo. Os outros corvos se aproximam. Do outro lado da rua, as três unidades de justiça se reúnem ao redor do Corvo. Só agora suas forças começaram a voltar.
- Você está melhor? - pergunta Marfim.
- Sim. Não muito, mas... Onde está o corvo amarelo? Lembro que ele me salvou...
Os outros abrem espaço e ele pode ver, do outro lado, os corvos reunidos. Com passos difíceis pelo cansaço, ele chega lá, seguido pelas outras unidades.
- O que houve?
- Ele usou todo o poder da pedra para conseguir salvar sua vida. Não teve tempo para se transformar de novo e se foi. - responde John.
Antes que o Corvo pudesse assimilar totalmente a notícia, o corvo vermelho se levanta, entrega-lhe a espada e segue em direção à base. Cinco metros atrás, segue-o o corvo negro. Os outros dois ficam mais um pouco até que resolvem ir também.
- Rose, é esse seu nome? - pergunta Marfim, que ajuda o Corvo a andar.
- É.
- Pedir-lhe-ei uma coisa: você poderia, assim que houver tempo, levar o Corvo para o topo do prédio de vocês para que se recupere?
- Claro, mas...
- Desculpe, não tenho muito tempo. - Ele lhe entrega o Corvo e segue até Áquos. - Até a noite.
- ...
Os primeiros raios do Sol chegam e Marfim Cobra desaparece, alterando seu punhal da forma que já foi dita. Áquos se abaixa, pega o punhal e entende o pedido do colega. Guarda-o.
- Você está melhor? - pergunta Rose ao Corvo.
- Estou sim.
Eles seguem. São os últimos a entrar na sala e ver sobre a mesa três pedras: uma amarela, uma vermelha e outra negra. Da janela, Peter via o carro partir.
- Somos três por enquanto. Se alguém mais resolveu desistir, aproveite a ocasião. - pede, virando-se para os presentes.
- Não, ainda estou aqui. - responde Rose.
- Estou contigo. - e John.
- Tudo bem, dispensados.
- Desculpe, mas - Áquos se dirige a Peter - entendo porque o vermelho desistiu, mas, e o outro?
- Os dois disseram que não podiam mais se enganar. Que não eram heróis e o único herói que havia aqui acabara de partir.
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Do topo do prédio, Rose e o Corvo vêem o céu. Olham as nuvens, lembram-se da batalha. Praticamente venceram todos os esqueletos que havia na cidade. Eles olham o céu. O Corvo já está bem melhor. Os dois sabem que não acabou. Isso é óbvio até, há um avatar que precisa ser vencido. Mas será que conseguirão encontrar força suficiente para vencê-lo? Depois de ontem... Tudo bem, não importa, eles pretendem lutar mesmo assim. A única coisa que não querem é ter que enfrentar esqueletos de novo.





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