Parte 7

Quinta-feira, 13 de agosto. O tempo passou e chegou a hora de partir. A única esperança do mundo nas mãos de cinco heróis que já morreram. Chegou o dia.

- Sim, é verdade. Eu li os sinais em meus sonhos. - Marfim confirma a notícia, enquanto os outros se olham.

- Partamos, então.

Eles tomam seu veículo e partem. O quanto antes chegarem melhor, pois Fimiq não precisará de tanto tempo para repor as energias gastas no 'ultimo evento. Durante a viagem, poucas palavras são pronunciadas. É uma viagem triste, longa, e sem Marfim. Sim, pois não tardava o amanhecer e, por bem ou por mal, este guerreiro não luta mais sob a luz do Sol. Em tais circunstâncias ele foge - ou é sugado - para o punhal.

- Estamos prontos?

- Como assim, "estamos prontos"?

- Estava pensando. Na última batalha...

- É. Não conseguimos vencê-la.

- Estaremos, por acaso, prontos para a próxima?

- Corvo, meu amigo Corvo, vencer aquela batalha era missão quase impossível. Tarefa para uma legião de semideuses. Não digo que dessa vez será menos difícil, mas não devemos nos preocupar tanto antes da hora. O tempo dirá se estamos ou não preparados.

- Além do mais, desculpe interromper, não é bom vivermos do passado.

- Tommy! Você disse que tinha descoberto o destino desta viagem enquanto esteve morto... Por acaso esteve com Kin-Rá?

- Não. Uma formiga me mostrou esse lugar sob uma densa neblina.

- Formiga?

- Neblina?

- Devo confessar que não entendi isso tão bem quanto gostaria, mas... Ora! Estamos indo exatamente para lá. Creio que descubramos logo que chegarmos.

Neblina... Marfim poderia ter alguns palpites se lá estivesse. Quanto ao outro mistério, a formiga, o leitor bem sabe como Marfim seria capaz de explicar completamente este detalhe. Sim, todos estes mistérios seriam revelados se ele cá estivesse, mas como esse não era o caso, restava aos heróis apenas esperar.

Logo chegariam ao porto. Estavam perto, a algumas horas. Pisaram o semi-deserto e os poucos que os viram fizeram-no um deserto completo. Com direito até a um pequeno lago em pedras, de onde uma estátua cuspia água, sugerindo um oásis. A primeira leva que deixou o lugar, supõe-se, o fez devido à notícia de que eles viriam. A segunda, pelo fato em si.

- Bom, e agora? O que pretendem fazer? - O Corvo responde a esta pergunta simplesmente levantando vôo. Gesto pouco típico para quem gostava tanto de falar.

- Uma boa idéia, certamente. - E Áquos caminha ao mar. Restam finalmente Lunar e Tommy, para a infelicidade do segundo.

- Bem, sei que você não fala, nem come, mas gostaria de me acompanhar na busca por uma lanchonete, se é que há alguma aberta? - Lunar responde afirmativamente com a cabeça e caminha com ele pelas ruas.

Estão agora em um verdadeiro deserto. O terror não é o que virá à noite, mas passar o dia num deserto de concreto acompanhado apenas por uma muda estátua. Eles realmente não conseguem encontrar uma lanchonete funcionando, o melhor que visitam são três abertas, duas delas destruídas e na terceira eles se acomodam. Na cadeira e no chão, conforme suas massas.

- Mas que lapso! - Aqui está deserto, não há quem atenda ao seu pedido, mas prontamente Tommy corrige o erro se levantando. - Me espera aqui. Não demoro cinco minutos.

Vai à cozinha.

- O que vou querer... Tem pão, tem... Vou preparar um sanduíche. Droga! Sem energia! Só faltava essa... certo, eu como cru mesmo...

Ele volta com seu sanduíche e seu copo de refri, tirado não tão frio do refrigerador. Senta-se na cadeira que reservara, sem muita necessidade. E ele lancha sem dizer uma palavra. Obviamente, sem ouvir também.

- É, amigo... Ainda é cedo... Que é que a gente faz agora? - como se houvesse de receber uma resposta...

- Temos muito tempo pra ficarmos parados, até a noite. Por isso, acho melhor a gente economizar nossa paciência e dar uma volta por aí, pra conhecer a cidade, o cemitério, sei lá... Que acha?

Dito isso, o último dos corvos responde à resposta afirmativa da estátua de Kin-Rá simplesmente se levantando e saindo do prédio. E passam a andar pelas ruas. No caminho, claro que vêem milhares de prédios, altos e baixos, velhos e novos, belos e feios, vazios e desertos. Todos diferentes, tão diferentes, mas agora são comparáveis. Tão iguais e frios... A beleza de todas as criações está em vê-las cumprindo o seu papel, a razão de terem sido criadas. Exceto as criações feitas somente para contemplação, mas este não é o caso. A graça de se ver prédios é ver uma casa e saber que ali mora alguém, ver um banco e lembrar que há pessoas trabalhando lá dentro. Esse ar de vazio é tão forte que poderiam explicar duas visões negativas do homem: melancolia de domingo e casas mal-assombradas. Lembra-se o leitor de que eu dividira os grupos que deixaram a cidade em duas levas? Talvez tenha havido ainda uma terceira: a dos que ficaram e não suportaram cinco minutos de total solidão.

Mas quem são os loucos que estão aqui agora? São dois heróis! Dois loucos que já venceram a morte e não hão de sair correndo e gritando para fora da cidade. Deixemos isso para os mais sãos...

- O banco está aberto? - Eles se aproximam por curiosidade. - Foi saqueado, talvez depois de abandonado... Até que ponto vão os oportunistas?

- Espere! Está vendo o que eu vejo? - Lunar confirma. - Um homem na praça!?

Eles correm em direção àquele homem que veste roupas tão velhas. Enquanto o primeiro pé de Tommy pisa a calçada da praça, a pedra pressionada em sua mão se desfaz e, em espirais de energia amarelada, veste-o com o uniforme do corvo amarelo, e o arma com o bastão. Em dois saltos eles chegam ao topo da praça, e bastam mais alguns passos para chegarem ao banco. O homem usa algo como um sobretudo com capuz, de aparência velha. Está sentado de cabeça baixa e braços caídos. Os dois heróis se aproximam aos poucos.

- O senhor está bem? - o corvo amarelo toca o ombro, com uma pancada leve. O vulto ergue a cabeça e mostra uma face horrível, parecia um zumbi e, com a voz trêmula...

- Me ajudem... a peste...

- Peste!?!

- O estádio...

"Peste? Que loucura é essa agora? Creio que não se tenha ouvido falar disso há anos... Por quê?" Ele se vira um pouco para a direita, como se procurasse uma resposta na paisagem. As folhas balançam ao vento, mas nada diz algo que o ajude a decidir. O vulto pega seu braço.

- Me ajude...

Ele tira o membro das mãos do velho. Começa a se distanciar, em passos pensativos. Quando, de repente, pára e olha Lunar, ao seu lado.

- Temos que achar um estádio.

E eles correm para uma rua escolhida ao acaso, enquanto o estranho se levanta do banco e mostra um sorriso maquiavélico, pouco antes de desaparecer em uma névoa negra.

Os dois correm sem encontrar nada que se parecesse com um estádio. Então eles param.

- Algo horrível deve ter acontecido nesse estádio do qual ele falou. Algo provocado por Fimiq.

Seu olhar perdido entre os prédios termina por encontrar uma banca de revistas. Lunar aponta para um cartão postal.

- Isso! Deve ser esse o estádio! - olha o verso - Mas de que adianta saber qual a rua, se não tem ninguém pra informar onde fica?

Eles deixam a banca e vão para o meio da rua.

- E agora?

- Ei! Vocês aí? Como vão?

- Corvo? - ele aterrissa.

- É, Corvo.

- Você viu algum...

- Esquece! Você tem que ver o cemitério. É grave.

- Mas, e...

- Vá por ali e achará a praia. De lá, vão pra esquerda. Espero-vos lá. Até mais!

Levanta vôo bruscamente e some por entre as pilhas de concreto.

- E essa agora...

O calor é imenso, e ele só nota que já passou do meio-dia porque a luz refletida pelas paredes teima em ofuscar sua vista. Mas ele corre mesmo assim.

- Lá está a praia. - fala, ofegante. Pára um pouco pra descansar e volta a correr para a esquerda, procurando contato visual com o cemitério.

Uma vez localizado o alvo, eles procuram seus portões, e lá são localizados pelos outros dois. A visão é horripilante. Há vários corpos dilacerados, cheios de furos, pregos, arames. O solo está vermelho. E a luz do Sol só aumenta o terror. Pois mostra que o sobrenatural não está restrito à noite. Se bem que ninguém precisasse provar isso, pois há três criaturas, que há tempo acompanhamos, que não podem ser consideradas naturais...

A dupla de heróis recém-chegada da urbe entra. O corvo amarelo só não entra em estado de terror por ter sido alertado com antecedência pelo Corvo.

- Que tragédia...

Não há resposta para essas palavras. Alguns talvez nem encontrassem palavras para se expressar sobre a cena, quão horrível era. Apenas o silêncio é suficientemente expressivo em certos casos. Enquanto Tommy senta para se recuperar do choque, ouve-se grunhidos de Lunar. Alguns dotados de mais imaginação diriam até que sua pétrea pele ficara vermelha, tamanho o seu ódio.

- Está melhor?

- Estou. Obrigado.

A visão é tão dura que queima a alma ao adentrar os olhos. Tommy fecha os olhos e respira fundo. Volta a abrí-los, como se esperasse que tudo fosse só uma visão, uma ilusão, uma miragem. Mas não era, e o ato não parece ter produzido tão excepcional efeito quanto ele desejaria que o tivesse.

- Quem fez isso? - só depois de perguntar ele se dá conta de quão estúpida fôra a pergunta. Primeiro porque, se ele quer saber por alto, a resposta será Fimiq. Segundo que provavelmente os agentes de tão detestáveis atos ainda estão anônimos.

- Fimiq. - Áquos responde, prontamente. Após alguns segundos, quando percebe quão vaga fôra a resposta concedida, completa. - Ainda não sabemos...

Eles ficam a se olhar, e a olhar os restos humanos tão maltratados, por muito tempo. Tempo suficiente para decidirem o que fazer.

- Vamos pensar um pouco: quem poderia ter feito isso? - o Corvo anda de um lado para o outro, sobre a estrada calçada do cemitério, pensativo.

- Fimiq-avatar. - sugere Tommy.

- Não. - Áquos se ergue, intervindo. - Ele não se rebaixaria, se tem tanto poder.

- Quem então?

- Não acho que seja um outro mal.

- E quem seria?

- Servos de Fimiq.

- Servos?

- Sim, servos.

- Que tipo de servos?

- Mortos-vivos, talvez?

- Não. Provavelmente não.

- E quem?

- Sacerdotes, seguidores. Talvez pouquíssimos mortos-vivos. Mortos-vivos são burros, em geral. Há muito poucas espécies inteligentes.

- Como vocês?

- Não somos mortos-vivos. Somos ressurgidos. Ressuscitados.

Já está perto do final da tarde.

- O que fazemos agora?

- Só podemos esperar.

- Já que é assim, vou procurar algo pra comer. Nós somos todos "ressurgidos", mas eu ainda tenho meus órgãos. Acompanham-me?

- Vamos, pelo menos não veremos mais essa "tragédia".

Eles caminham até acharem outra lanchonete. Invadem-na. Tommy entra e seleciona o que será seu lanche. Volta então para se alimentar na presença dos outros. Afinal, quer ver que rumos a conversa vai tomar.

- Estamos chegando perto...

- Nos outros casos Fimiq não havia tido ações diferentes da de invocar mortos.

- O que é isso?

- Quê?

- O Punhal das Serpentes!

- Que tem... Está de outra cor!?!

- Será um sinal?

- Quer dizer que estamos perto.

- Ou que o punhal está sem força.

- Ou repleto dela.

- Ou que Marfim não vem.

- Ou que já está por aí.

- Sabe de uma coisa? Áquos, meu amigo, vamos parar com isso. Chega de querermos prever o futuro.

- Tens razão, mas o que não me conforma é tudo aquilo ter sido feito...

- No cemitério?

- Justo. E que não deixaram nenhuma pista.

Nesse instante, Tommy, que tomava um refrigerante, cospe tudo o que tinha na boca, a quase se engasgar.

- O estádio!

- Qual estádio?

- Um velho doente me disse que havia algo lá.

- Por que não disse antes?

- Tentei, mas o Corvo não deixou.

- Eu não deixei? Como assim eu não...

- Deixa pra lá, você viu algum estádio por aí?

- Sim, eu vi.

- Leve-nos lá agora!

- Tudo bem, se é o que querem... Sigam-me.

E foram em busca do estádio, onde algo horrível poderia estar ocorrendo.

- É ali.

O céu já estava escurecendo. As nuvens já estavam avermelhadas. Vermelho de sangue, de ódio. Eles corriam em direção ao estádio, que estava aberto. Corriam prontos pra enfrentar qualquer coisa, exceto talvez o que estaria por vir. A cinco passos da entrada, Corvo levanta vôo, a um metro do chão e parte na frente dos outros. Numa explosão o Corvo entrava no campo aberto do lugar, seguido pelos três outros, que não diminuíram a velocidade.

- Aahhh!

Uma pancada abafada. Os três chegam ao mesmo tempo ao inferno. Vêem a pior paisagem que já viram e verão em todas as suas vidas. O Corvo se levanta e se afasta da pilha de carne e ossos humanos.

"Céus! Por Kin-Rá! O que houve aqui!?! Morros de corpos em decomposição? Como? É indescritível! É como estar no inferno. Cabeças esverdeadas, com olhos caindo. É terrível! E olha como está o lugar onde eu bati! Braços se soltaram. Não dá pra ver isso... Não! É maligno demais! Fimiq, Fimiq, eu vou te achar, seu miserável. E quando eu te pegar, você vai pagar caro por cada gota de sangue que derramou. As chamas da justiça queimarão seus malévolos ossos divinos..."

"Isso é ainda pior que o cemitério. Morros de corpos jogados, em decomposição. Mas há algo a se ver por aqui. Primeiro, que ainda penso que Fimiq não se rebaixaria ao ponto de matar pessoas uma a uma. Ainda que seja o deus da desunião, da destruição, da morte e de tudo o que há de negativo, ele é um deus. Deuses são orgulhosos desde que o mundo é mundo. Deve haver seguidores dele por aqui. Segundo, os corpos não podem estar aqui há tanto tempo ou a cidade tomaria noção disso. Fimiq tem sugado suas essências vitais. É, caro amigo, parece que agora pegamos você..."

"Isso é horrível! É como se todos esses corpos pedissem socorro, ou nos culpasse por não termos resolvido isso antes... Isso parece uma casa do terror. Um labirinto. Mas não vou abandonar meus amigos justo agora. Meu bastão lutará incansavelmente até o fim."

"Grrrrr!"

"É, Fimiq... Não esperava menos de você..." - Vamos nessa.

- Marfim?

Ele pega no ar o punhal jogado pelo Corvo, enquanto abre caminho entre as outras unidades de justiça e o corvo amarelo. Eles o seguem, desviando os morros mortos, até o centro do estádio, quando, dentre os mortos, ressurge um vulto. O mesmo visto por Tommy, se o leitor se recorda. Ele ergue a cabeça, com ar de desafio, gargalha e se divide em cinco, que correm em cinco direções.

- Rápido! Separem-se!

Eles correm em várias direções. Cada um no rastro de um vulto do avatar de Fimiq.

O Corvo descola os pés do chão para ir mais rápido. E alcança seu vulto.

- São imagens!!!

O grito ecoa por todo o estádio. Todos param, mas já era tarde. Eles tentam voltar, mas notam que não estão sós. Alguns dos corpos se levantam, com punhais de aura negra e vazia. São seus sacerdotes. Bem sabemos das habilidades de combate de tão dedicados heróis. Desnecessário dizer que, após alguns golpes, eles já estavam livres desses incômodos. Mas, como já disse, era tarde. No instante em que se livraram totalmente dos incômodos sacerdotes, os últimos raios do Sol deixavam de tocar a cidade.

"Ele conseguiu de novo. Por que deixei isso acontecer? Como o mais sensato, deveria ter evitado a separação. Era tudo o que ele queria. Marfim tomou a frente, mas não. Não devo culpá-lo agora. Não adianta nada escolher um bode expiatório..."

"Era ele... E eu estive tão perto naquela praça... Nem pensei nessa possibilidade. Acabei nos trazendo à armadilha que o monstro preparara. Bom aliado eu sou, não?"

"Droga! Droga de novo! E de novo! Ninguém voltou pra cá! Claro, eles não voam... Mas, só pra confirmar, que droga!"

"Escapaste de novo... Não importa. Eu te procurarei até encontrá-lo. Mas espere! Que canção é essa?"

Sim, uma canção. Suave e aguda. Em Mi ou Lá, pouco importará depois que eles descobrirem de onde vem. Uma canção que toca a alma, não no sentido de emocionar, mas no de que é como se a canção fosse destinada aos espíritos, deixando estes angustiados. E eis que dos morros de corpos inertes se erguem seus inimigos para esta noite. A Lua brilha e mostra as translúcidas criaturas.

- Espectros.

Espectros. Erguiam-se translúcidos, em seus trajes brancos, brilhantes a vencerem a Lua. Com seus cabelos a dançar. A canção vinha não se sabe de onde. O efeito causado por tudo isso é certo como dois e dois são quatro.

Cercados por morros de mortos, a princípio. Daí sozinhos sob o manto negro da noite. Agora, ouvindo uma canção do além, diante de um verdadeiro exército de fantasmas. De longe, se pudessem ser vistos, certamente seria um enxame, ou uma nuvem. ...ou neblina. E o ataque começa.

Um homem não tão velho. Um homem do campo, ou seu fantasma, com seu facão quase transparente, desfere um golpe contra Áquos. Este se esquiva a tempo, com um curto salto pra trás - ele tem que se lembrar de que está cercado - . Mas logo após a esquiva, era sua vez de agir, e ele devolve o golpe usando o tridente. Por pouco a arma não bate nos corpos abandonados. Isso não por descuido de seu manejador, mas por ter o tridente atravessado seu alvo principal. O típico homem do campo faz expressão de dor apenas para que Áquos possa comprovar o que já suspeitava.

"Minha arma atravessa esses monstros mas, por ser mágica, lhes fere. Hora do segundo teste." E ele gira o tridente no ar para ferir os que tentavam se aproximar. Pára.

- Ketitaie Memi! - e ataca seu inimigo inicial desta batalha. O homem some. Sua alegria quase o faz esquecer que há mais inúmeros fantasmas ao seu redor. E eles não lhe darão tempo para fazer isso de novo...

Lunar desfere seus golpes, mas não parecem fazer efeito, o que é uma pena, tamanhas força e determinação o movem. Não se sabe ainda se a bem ou a mal, os golpes dos fantasmas também não parecem fazer efeito. Mas, ao contrário de atravessarem o oponente, como ocorre a Lunar, eles param ao encontro de sua pele tão rígida quanto a do Leão da Neméia.

Em pontos diferentes, mas incrivelmente próximos - nem imaginam quanto - , Marfim Cobra e o corvo amarelo lutam. Tommy, sob seu uniforme, gira periodicamente o bastão com ferocidade, mantendo-se sempre dentro de um círculo mais ou menos seguro. Marfim teve a mesma idéia e, compensando o alcance de sua arma com sua extrema agilidade, consegue o mesmo efeito.

Por incrível que pareça, eles vencem os fantasmas. Como na maioria do combate, deslocam-se a uma velocidade baixa e instável. Se estavam tão perto quanto o leitor está informado, o certo é que, mais cedo ou mais tarde, caso não se afastassem, eles ao menos notassem a proximidade. Isso se deu quando um morro deixou de ficar entre eles.

- Precisa de ajuda?

- Creio que esteja me virando bem... Mas qualquer ajuda é bem-vinda.

- Chego já.

E a unidade de justiça em questão luta contra os fantasmas, enquanto atravessa o corredor.

- Interessante como a luta fortalece...

- Mesmo? Por que diz isso?

- Já havia até esquecido de que estávamos cercados por tantos cadáveres...

- Mesmo...

Neste instante o Corvo decola e passa por cima dos dois. Ao avistá-los, volta. De lá de cima, começa a falar.

- Precisamos arrumar um jeito de encontrar Fimiq. Esta batalha está perdida...

- Não. Não está, amigo. Estamos nos saindo bem...

- Confie em mim. Eu sei o que digo. Você acha que tem chance porque não viu quantos espectros temos aqui.

Misteriosamente os fantasmas começam a subir.

- Ah, não! Até aqui? Eu odeio espectros! Aoh Eker Joh!

Podem ser vistos milhares de fantasmas subindo de todos os cantos do estádio. O Corvo luta no céu, com sua espada em chamas, mas os fantasmas não param de subir. E o pior é que isso não prejudica nem um pouco a formação deles em terra, o que dá uma idéia de seu número.

- Droga!

Ele não está conseguindo se livrar de todos, pois vêm por todos os lados, e ainda por baixo e nas diagonais.

- Droga!

O Corvo sobe, querendo escapar. Os fantasmas que estão no alto param todos. Um grito extremamente agudo e alto é executado pela legião superior. O Corvo, que parecia salvo, mais acreditavelmente pela potência do grito em coro que por suas próprias forças, é arremessado para o alto até desaparecer. Fato que ninguém dentre os heróis vê, já que se ocupavam em resistir a tal grito. O grito se foi.

Após levarem alguns golpes, caídos eles se erguem e se reestruturam. Foram feridos e o grito ainda ecoa em suas mentes. Para piorar, os fantasmas que estão no nível acima resolvem por ali mesmo ficar e dali atacar os inimigos de Fimiq.

- O Corvo tava certo.

- Mais do que certo, é triste ter que admitir.

- E o que vai fazer agora?

- Não faço a mínima idéia.

- É, se houvesse um jeito de chegar lá...

- Hã, mas... Não.

- O quê?

- Pensei em me teleportar, mas já tentei isso e a chegada foi a mesma origem.

- Você havia visto o inimigo antes de tentar?

- Não, claro! Agora eu conheço... sua face!

Ele aplica mais alguns golpes nos que vêm por terra, enquanto Tommy cuida dos que vêm por cima. Marfim segura o ombro do corvo amarelo.

- Saiba que você é grande, meu amigo. Mesmo no meu tempo eram raros homens corajosos como você. Se cuida, vou enfrentar o dragão.

- So...

Não pôde completar a exclamação. "Sozinho!?!" Iria perguntar. Uma pergunta que tem razão de existir. Este é o segundo combate que eles não venceriam, juntos. Como Marfim poderia derrotar Fimiq sozinho?

A batalha continuará e todos já sabem que não podem vencê-la. Maior é a aflição de Lunar, que não poderá vencer sua luta, nem perder. Há pior terror que o de querer lutar e lutar, e nunca fazer a menor diferença pra ninguém?

Mas a luta prossegue, sem Marfim, porque foi enfrentar sozinho o avatar, por excesso de coragem, estupidez ou nem um, nem outro. E sem o Corvo, pois este foi derrotado.

Mas a luta continuará, até que termine. Signifique isso a morte dos heróis ou dos vilões. Eles lutarão, enquanto toda a esperança é depositada em um homem - ou unidade de justiça, o que seria mais apropriado - , Marfim Cobra.


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