Parte 2

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Dia: sexta-feira, 13 de março. Hora: 01:37. Lugar: Maceió, Alagoas. Está tudo em penumbra e sem movimento. Dia e hora perfeitos para algo fora do comum acontecer.

A cidade dorme. Alguns poucos permanecem acordados, mas as ruas descansam. O oceano morno parece mais calmo. Suas praias descansam. Tudo parece normal visto daqui. Tudo parece repousar. Mas nem tudo descansa. As ondas: começam a se movimentar e algo surge de suas águas. Vestes encharcadas. Um pé esquelético pisa a areia seca. Marfim está aqui. Olha a cidade. Aonde ir hoje?

Marfim Cobra prefere as ruas desertas. E ele segue por algumas destas até que encontra alguma atividade anormal. É alguém saindo de casa. Uma garota. Qualquer coisa é anormal a essa hora da noite. Marfim resolve discretamente seguí-la. Anda atrás dela, a uma distância segura. Ela o percebe se apressa. Anda rápido por ruas escuras. Marfim a segue. Na sua frente está um rapaz, em pé, encostado em um muro. Ela corre em sua direção. Marfim vai atrás. Ao se aproximar o rapaz grita, já com ela ao lado.

- Deixe ela em paz.

Talvez Marfim tenha ido mesmo longe demais. Seguir alguém desse jeito não parece certo. Decide ir embora. Rostos surgem na casa atrás deles enquanto o nosso herói anda para o outro lado da rua.

- Espere! Isso não vai ficar assim, não. - O rapaz corre em direção a Marfim Cobra. Claro que alguém em circunstâncias normais não faria algo assim, mesmo por haver a possibilidade de se tratar de um mal-entendido. Mas, convenhamos, alguém que fica à madrugada na calçada, de pé, esperando nada, tem boas chances de já não estar em fase de sã consciência.

Ele se joga no ombro de Marfim e o puxa, pronto para socá-lo no rosto. Marfim se esquiva e segura o braço do agressor. Aperta, com força, e vai embora após largá-lo no chão.

O rapaz se levanta e salta contra Marfim, abraçando seu pescoço. Marfim não tomba. Seu capuz cai. Marfim dá um soco no estômago do incômodo rapaz, cobre novamente o rosto e vai embora. Agora, sem problemas.

Segue por ruas desertas e nada mais encontra. Como sempre, ele volta para as águas antes do amanhecer.

"Nada de errado hoje... Não sabia que os ladrões de hoje eram tão supersticiosos." Na verdade, sempre foram, mas ele vivia numa classe ladina mais importante. Entre os mais ousados.

Mais uma noite. Mais uma vez Marfim abandona as mornas águas oceânicas para agir, lutando pela justiça, pela própria liberdade.

De repente, Marfim ouve um barulho de motor, automóvel. Um carro se aproxima e reduz a velocidade ao ver um vulto com roupas velhas e molhadas. Marfim tenta imaginar o que eles querem. São três adolescentes no tal carro. Eles sacam pistolas automáticas e começam a disparar contra Marfim Cobra, que, claro, não sofre com isso. ...pelo menos não fisicamente.

"Será que eles me reconheceram? Ou pretendiam matar um mendigo? Pois matarei três miseráveis de uma só vez." Marfim concentra energia para seu poderoso golpe, aponta o braço direito para o automóvel. Parte uma serpente energética branca, que enrola todo o carro em um casulo, e desaparece. "Melhor me apressar. Como ontem não houve muita coisa errada, há boas chances de que eu hoje tenha uma noite cheia."

Marfim Cobra olha as opções e escolhe uma rua. Não porque veja crime, não por ser deserta, por escolher. Ele anda por tal rua quando outra lhe chama a atenção, por chamar. E ele altera sua trajetória, quando passa por uma loja, e algo parece anormal. Dessa vez nitidamente anormal. Há pessoas tentando arrombá-la. Marfim, sem pensar, dispara outra serpente energética branca e um dos cinco homens que havia ali some. Corre então contra eles, que ficam imóveis, surpresos.

- Hei, quem é você? O que pensa estar fazendo?

Marfim se vira. É um homem vestido como guarda e empunhando um revólver. Belo truque, mas não bom o bastante para enganar o velho ladino, que saca seu punhal e grita, entre os tiros do fardado: "Inchinmy Ejoda". Uma serpente ataca o tal fardado e a outra um dos quatro homens restantes. Marfim se aproxima com passos frios.

- Não tenho dinheiro, esqueci a chave na loja. Pode levar tudo mas me deixe viver - desespera-se um deles.

"Mas não pode ser. Será? Se for assim eu terei matado três inocentes. Não pode ser." Marfim recua e parte rapidamente. Parece estar se dirigindo à praia. Sim, ele está. Atravessou a rua. Está na areia, indo ao oceano. Certamente o fato de ter errado o aterroriza e provavelmente não mais agirá esta noite. Terá de lutar contra o fantasma de seu erro. E, nessas batalhas, normalmente só há um vencedor...

Marfim se levanta das águas. Prometeu para si que nunca cometeria algum erro como aquele. Ele pisa o chão firme. Olha para os lados (como era de se esperar, talvez, as ruas estão desertas). Ele atravessa, segue por caminhos sombrios e consegue impedir dois crimes. Enquanto anda pelas ruas é surpreendido por um grupo que surge como que do nada, e se alinha à calçada. Estão armados. Estranhamente armados. Alguns empunham pistolas, outros armas de brinquedo. Alguns usam crucifixos e dentes de alho.

"Palhaçada..." Pensa Marfim ao ver a estranha cena. E quem seria capaz de lhe tirar a razão sobre tão estranho fato?

- Fogo! - grita um deles.

Marfim começa a concentrar as estranhas energias quando seus inimigos abrem fogo. "Água?" É o que parte das armas de brinquedo, enquanto as balas o atingem tendo a reação costumeira. A água impede a conclusão do ritual.

Um grito sinistro preenche o silêncio da noite. O grito de um justiceiro, o grito de Marfim Cobra. Os atiradores dão um passo à frente. Os mais impulsivos correm. Mais balas são disparadas e os que iam na frente vão ao chão. Uma nova figura acaba de entrar em cena.

"Formiga!?" Marfim pensa, caído no chão.

Uma guerra começa. Tiros de um lado, tiros do outro. O homem que acabou de entrar atira poucas vezes. A cada tiro, um inimigo vai ao chão. Os outros desistem de lutar e resolvem fugir. "Covardes." O pistoleiro se aproxima do sub-consciente Marfim Cobra. Usa uma farda. É um tira. Abaixa-se.

- Então você existe de verdade? - Fala, surpreso ao ver o rosto esquelético de Marfim. Mostra uma certa serenidade para alguém que vê um esqueleto vivo. Ele o pega e se vai. A partir daí, Marfim, além de não ver nada, também nada ouve...

Marfim abre os olhos e, aos poucos, vê o céu, as nuvens. Ergue-se para ver um homem fardado na sua frente, então entre árvores.

- Calma. Não se preocupe. Estou do seu lado. Seu deus falou comigo. Nem sei como pude acreditar em outro deus, mas cá estou. E vou te ajudar. Você foi acidentalmente o responsável pelas mortes de uns dias atrás, não foi? - Marfim responde com a cabeça. - Eu posso tentar ajudá-lo para que não cometa mais esse erro. Posso tentar descobrir onde haverá crimes e dizer a você. O que acha?

- Bom. Você, por acaso, tem alguma "bola de cristal"?

- Não, mas posso tentar conseguir alguns informantes. Como você foi ladrão, deve entender do que estou falando.

- Kin-Rá também lhe disse isso?

- Disse.

- Bom. O que posso fazer? Aceito tua proposta, mas... e como entrarás em contato comigo?

- Onde você vive?

- Kin-Rá não lhe contou isso?

- Não.

- Eu passo todo o dia e parte da noite sob as águas.

- Complicou um pouco, mas daremos um jeito. Tenho que ir, é tarde. Me encontre amanhã aqui, ao amanhecer, certo?

- Tudo bem, mas... Como chegarei ao mar?

- O mar é ali. É só seguir pela lagoa. - Ele aponta para um lado e se vai.

Marfim se vira para o lugar indicado pelo policial e segue. Ele anda, sendo coberto pelas águas. Anda por bastante tempo. Anda e agradece a Kin-Rá por ter lhe enviado outro guia, pois sem ele seria muito mais difícil cumprir sua promessa.

----

Amanhece o dia: alguns raios de luz chegam a Marfim. Ele se ergue e segue em direção à terra. Chega ao local de ontem.

Chegando lá, Marfim encontra o tira em pé, a esperar.

- Isso são horas?

- São.

- Está tarde, por isso procurarei ser breve. Depois de pensar um pouco sobre as nossas futuras comunicações, cheguei à conclusão óbvia: nos encontramos aqui, todas as manhãs, por essa mesma hora, que acha?

- Bom. Pode ser assim. Alguma novidade?

- Não, nenhuma.

- Então, até amanhã.

- Até. E tome cuidado.

Marfim Cobra segue por algum tempo. Em passos lentos e concentrados, sem perceber os poucos olhos que o fitam. Chega ao mar, ao seu lugar de descanso. Agora ele esperará as horas mais desertas da noite para agir.

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A hora chegou. É tarde da noite. Marfim se levanta e segue em direção à terra firme. A praia está deserta. Ele se vai para mais uma noite de trabalho.

Marfim está agora andando por uma rua desconhecida, de vários pontos comerciais e um reduzido tráfego de automóveis. Marfim Cobra anda pela calçada. Não há mais ninguém nas ruas a essa altura e um vulto coberto de panos andando sozinho por uma rua deserta realmente chama a atenção de qualquer um. Isso inclui uma viatura policial que acaba de passar por aqui. Não se contacta a central por mendigos, nem se carrega armas. Quanto ao contato, tudo bem, mas quantos às armas... As armas deveriam estar carregadas, não pelo mendigo, mas por precaução, para uma reação mais rápida.

- Ei, você... - Fala o mais próximo de Marfim, os dois já fora da viatura, vindo em sua direção. - Pare.

"Não tenho porque correr, posso derrotá-los facilmente." - Pensa Marfim. - "Mas não posso ferir inocentes. O que farei então? Tenho que pensar rápido, eles estão se aproximando. O que farei?"

- Atenção! Todas as viaturas disponíveis. Assalto no Shopping. Dirijam-se para lá imediatamente." - O rádio avisa.

Os dois voltam apressados, entram no carro, ligam a sirene e se vão.

"Salvo por pouco." - pensa Marfim. - "Mas o que será isso? Shopping? E onde fica? Seja o que for parece ficar longe daqui, pois o carro está com pressa, e se distanciando. Mas espere! Se toda a força policial vai pra lá, como fica o litoral? É melhor me apressar e ir ver como estão as praias."

Marfim corre pelas ruas. Seu destino: o litoral. Seu punhal em punho. Se seu corpo fosse visitado por ciclos sangüíneos, poderia dizer que estariam circulando mais rápido, quentes, com a iminência de uma nova batalha. Após bastantes passos, Marfim Cobra chega ao local e, para sua surpresa, não encontra nada de estranho. Pista falsa. ...será? Minutos depois de chegar, nosso esquelético herói ouve um ruído de automóvel. Ergue-se prontamente. O carro branco corre veloz. Nele, inscrições: a Imprensa. Eles viram e somem de vista. Parece que o caso lá é mesmo grave. Mas, se for até lá, será que conseguirá chegar em tempo? Essa foi a pergunta que ecoou na mente de Marfim. A decisão foi a que lhe pareceu mais lógica: melhor perder a viagem do que sequer tentar.

Segue em direção ao outro lado da cidade. Mas é tarde! E, além do mais, deve haver muitos lá. Melhor voltar e se ocultar nas águas salgadas. Ele volta e se esconde pouco antes do nascer do Sol. Melhor deixar para agir amanhã. Talvez seja uma noite melhor.

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"Que memória a minha... Esqueci-me de contactar aquele policial hoje de manhã. Não tem problema. A noite espera os criminosos. E adivinha quem também o faz..."

Mais uma noite em Maceió. Mais um turno de trabalho do vigilante Marfim Cobra, ansioso por quitar sua dívida com o deus Kin-Rá. Caminhando por ruas desertas e sombrias, o bizarro paladino finalmente encontra algo que pareça ilegal. Marfim vê homens armados passarem discretamente até um carro. Eles entram e partem antes que o enviado de Kin-Rá possa agir.

"Hora da caça!" Marfim corre perseguindo o carro. Os viajantes parecem temer sua presença. Suas faces expressam terror. É quando o vento, os movimentos do corpo e a velocidade fazem o capuz de Marfim Cobra cair. O que ocorre então chega a ser cômico. Os prováveis assaltantes simplesmente entram em pânico ao verem quem os persegue. O motorista perde o controle, por pouco escapa do primeiro poste, mas fica no segundo. Praticamente todos sofrem o impacto despreparados, de modo que, no mínimo, perdem a consciência.

"Se agora só precisam olhar pra mim, daqui a alguns dias não vou precisar nem sair do mar para completar minha missão." Pensa, sem desconfiar que é vítima do olhar frio e preciso de uma trêmula câmera na janela de um prédio. No mais, a noite transcorre sem problemas.

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- Marfim Cobra? Por que não veio ontem?

- Não pude, pois não me lembrei.

- Tá. Não perdeu muito mesmo. Ontem e hoje não trago nenhuma notícia. Então, até amanhã.

- Até.

E Marfim volta para o mar, pois mais um dia vem e um vigilante deve esperar a hora certa de agir.

O manto negro da noite cobre o estado. Como em todas as noites, Marfim se ergue do mar e caminha em direção à terra. Como em todas as noites, Marfim segue com uma vontade imensa de promover a justiça. Como em todas as noites, ele espera vencer.

Seguindo por ruas desertas, seguindo seus instintos, Marfim Cobra procura um crime para combater, pontos positivos para quitar sua dívida com um deus. Passa por uma rua deserta, sem iluminação... "Passos! Sim, posso ouví-los. Há algo errado aqui."

- Quem está aí?

- Os carrascos que selarão sua existência. - Uma voz abafada vem de trás.

Marfim Cobra, ao se virar, vê-se diante de cinco homens, com coletes e capacetes. Eles trazem armas estranhas. Alguns deles empunham armas usadas em jogos de guerra. Aquelas armas de tinta. Todos usam microfones nos capacetes e óculos especiais. O do meio retira o capacete.

- Você?

- Sim, eu. E você pagará caro pela morte dos meus amigos. - Ele é um dos sobreviventes do antigo grupo que usava armas de fogo e de água. ...benta. - Você não passará de hoje. Ataquem!

Todos disparam. Marfim tenta se desviar, mas não consegue se mover mais rápido que os projéteis. Projéteis que, ao impacto, liberam seu conteúdo para todos os lados: água benta. Marfim Cobra cai de joelhos. Será o fim de seus dias?

Um trovão ecoa na cidade. Para a maior parte da população, um trovão normal. Para outros, esse trovão marca o início de uma nova era. E esses não ficam seguros diante do que sentem.

Um espírito é visto por milionésimo de segundo nas ruas da Inglaterra. Ninguém consegue tirar fotos, mas os que vêem se surpreendem. Claro, com o tempo se esquecerão desse desagradável fato, ou se deixarão levar por teorias malucas e inconsistentes.

Marinheiros juram ter visto uma sereia passar sob suas embarcações. Não há provas. Não há crença. Mesmo contada com a maior das convicções, ainda é tida como mais uma "história de pescador".

"Sempre tive a iniciativa perante os outros deuses. Fui o primeiro a vir a este mundo. E o primeiro a ser esquecido. Se já estou aqui, certamente logo os outros chegarão. Espero ter tido um bom começo com Marfim Cobra. E espero que ele esteja preparado, pois logo seus problemas deixarão de ser um mero frasco de água e passarão a proporções maiores. Logo virão os outros deuses, os outros seres, e a magia. Tudo será contra Marfim Cobra. Tudo que estiver errado. E suas falhas podem ser fatais. Como isso aconteceu?"

"A magia é uma forma etérea de energia, que pode ser consumida e convertida. Ela parece ter consciência própria, vagando de planeta em planeta, conforme seus caprichos. Deuses são aqueles que encontraram o centro da aura mágica, sendo por ela assimilados. Nós consumimos esta energia e somos capazes de coisas extraordinárias. Infelizmente, nos tornamos também etéreos, mas isso não é problema. Podemos assumir forma humana, como avatares. Esse processo é exaustivo e, além de requerer uma quantidade singular de energia, costuma nos enfraquecer por alguns séculos. Mas voltemos ao assunto inicial: magia."

"Em mundos onde vivem seres inteligentes ao lado da magia há os magos, que têm tendência ao uso da magia, precisando apenas conhecer palavras mágicas e gestos para usá-la. Aqui na Terra também existem essas pessoas. É hereditário e, mesmo que a magia não exista, está no sangue."

"Eu, como já disse, sempre agi antes dos outros. Sempre apareço e desapareço primeiro. Então, uma vez de volta à Terra, imaginei que, em pouco tempo, a magia retornaria. Ela o fez. Neste exato momento, ela retorna como um relâmpago a este planeta que esqueceu seu uso. A essa altura ela deve estar se instalando no centro do planeta. E eu já não devo estar só."

"Espero apenas que Marfim Cobra esteja preparado: ele terá muitos perigos pela frente."

-- Kin-Rá


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