Não, não se passou um mês desde que eles partiram à cidade fantasma, se me perdoa a ironia. Foi há quase exatamente vinte e seis horas. Como podemos ver, não houve alternativa. Ainda que camuflado, o 13 está presente.
E eis que nas trevas da praça ressurge, de um casulo branco, o bravo herói. Marfim Cobra.
"Está deserto." Ele olha para os lados. "Mas Fimiq está aqui. Meu teleporte não pode ter falhado..."
Uma gargalhada assustadora e, ao contrário da canção dos fantasmas, grave, preenche o escuro lugar. Marfim se volta e vê, do topo de um prédio gótico, a mesma figura encapuzada de antes saltar e cair, com certa suavidade, cinco metros a sua frente.
- Você veio... Saiba que já contava com sua chegada.
- ...
- Sim, gostei de você. Essa aparência esquelética... Desde que soube de você, eu comecei a imaginar: um morto-vivo inteligente como meu braço direito... Será incrível.
- Imaginou? Pois não terá passado de um delírio febril, seu... - Ele corre contra o avatar, mas este simplesmente some.
- Cuidado com suas palavras, discípulo da... Ha! Justiça... Quem aqui pode dizer o que é certo e errado. Vocês se julgam punidores da injustiça, mas não percebem que injustiça é impor as próprias idéias, como "aquilo que é certo". Ora, vamos... Eu odeio isso, você não concorda comigo?
- Acertou em cheio. Agora, por que não aparece aqui diante de mim, pra acabarmos logo com isso?
Ele aparece. Vinte deles, ou mais. Nos topos dos prédios, flutuando, no chão. Eles enchem a paisagem. E ele fala, e a voz vem de lugar nenhum e de todos os cantos.
- Então, você quer acabar logo com isso? Eu lhe ofereço o governo do mundo.
- De um mundo morto.
O silêncio toma a palavra por algum tempo, até que...
- Morto, você diz? Mas o que é a vida? Se eu quisesse um mundo morto não teria a quem ser deus. O que quero é um mundo das minhas criaturas triunfando sobre as demais. E você teria, sim, algumas dessas criaturas humanas a quem governar...
- Não foi isso que quis dizer...
- Vejo que não me xingas mais! - pára um pouco. - Sei que foste um ladrão. Cometeste um grande erro ao crer na justiça em sua posição. Confesso que nunca ouvira falar, antes de você, de alguém que adotasse ideologias tão opostas, e ao mesmo tempo.
- E daí?
- Daí que tu és "diferente". Não percebes? Diferente como eu sou, dentre os deuses! Juntos poderemos...
- Nunca! Nem...
- Marfim?!?
- Corvo?
Ele chega dos céus, com seu traje brilhando, tão majestoso quanto se pudesse imaginar possível.
- Como?
- Avana.
- Sim... - Fimiq interrompe. - A deusa dos ventos. Já esperava isso por parte dela, afinal, todos os deuses estão contra mim.
- Sim, estão. Mas vamos parar com a brincadeira, pois detesto ilusões.
Para a surpresa dos que precederam sua chegada, ao gritar, o Corvo gira a espada em círculo. Estava levitando sobre a cabeça de Marfim. E de sua espada partem chamas que inflamam as árvores, criam paredes amarelo-avermelhadas e quentes, em uma chuva de fogo. E, o mais importante agora, atingem todas as imagens de Fimiq. E todas desaparecem, exceto uma.
- Aah! - Não parece ter sofrido muito, apesar do grito. - Agora você me paga, urubu sem asas!
O Corvo parte, a uma velocidade tão absurdamente alta que só se vê o rastro das potentes chamas de sua espada e de sua armadura brilhante. Em direção a Fimiq, mas enquanto as chamas se mantinham no ar, um corpo se chocava contra o chão, sem cabeça.
Era o Corvo. E Fimiq gargalha enquanto uma foice ao seu lado se torna novamente sua mão.
- Corvo! Você o matou?
- Ha! Ha! Ha! Esqueça seus amigos. São todos uns derrotados. Os outros já devem estar mortos também.
- Miserável! - E ele parte com seu punhal, desferindo milhares de golpes por segundo, cada golpe deixando um rastro verde no ar, criando assim uma teia, em sua fúria.
Mas todos os golpes são aparados por mãos que viraram pequenas lâminas retorcidas, semi-foices.
- Cansou? - Em menos de um segundo, o avatar impulsiona o corpo pra trás, enquanto desaparece. - Que pena. Estava tão bem...
Em um instante, Marfim estava perto da praça, no instante seguinte seu corpo esquelético já quebrara duas árvores e se encontrava no chão, do outro lado da mesma praça.
- Ha! Ha! Isso foi só para mostrar que não podes me vencer. Retirei sua única arma.
Neste instante é que Marfim percebe.
"O Punhal das Serpentes! Está lá, no meio da praça, cravado no que restou de uma das árvores... Eu não havia percebido. Só agora vejo: está verde, meio dourado. Não tem mais a cor pedra de sempre... Há algo diferente nele. Perdi minha chance. Mas espere, posso me teleportar até ele!"
E o faz. O casulo branco formado pela serpente some, com ele. No instante em que aparece diante do punhal, em menos de um centésimo de segundo, é arremessado. Sobe dez metros e cai exatamente onde estava antes.
"Aaahh! Essa doeu!"
- Pensas que vou deixar que faças isso? Antes sou capaz de te matar.
E, em uma névoa negra, começa a se fazer novamente, dois passos à frente do punhal.
- Não tens escolha, meu caro. Junta-te a mim, ou morre. Talvez pense: prefiro morrer por meu deus, mas eu conheço a Aranha. Estás aqui porque ainda lhe deve. Se morrer agora não vais poder "descansar em paz para sempre". Ah! Havia se esquecido do débito? Se pretendias quitá-lo, podes esquecer também. O descanso eterno só eu posso lhe dar agora. Basta que aceites minha proposta e sejas meu braço direito. Ou também, posso te matar agora caso recuse. E aí viverás no inferno que teu deus promete.
"Por que será que os deuses gostam tanto de falar? E por que será que têm sempre razão? Ai, minha cabeça... Outra queda dessas e eu já era... Bem eu não posso me entregar agora."
- Espero uma resposta.
"Mas eu não tenho saída! O que eu faço... Espere! Meu punhal está brilhando. Isso pode ser bom! Está se mexendo. Saiu da árvore!?!"
Árvore... Uma árvore cai sobre Fimiq. Este a desvia com o braço, mas já é tarde. O Punhal das Serpentes já se encontra nas mãos de seu único e verdadeiro dono.
- Maldição!!!
- Agora, como diria o Corvo, a brincadeira acabou. Inchinmy Ejoda!
O punhal explode em sua mão. Explode em uma energia verde ensurdecedora. Uma esfera de raio um metro, onde eletricidade verde dança, levantando poeira e até algumas pedras do tão resistente calçamento. Dessa esfera parte um dragão de cinco metros de altura, com ar de serpente e patas de aranha. Verde e de energia densa, quase sólida. Seus olhos faíscam como o olho de um ciclone.
- Maldito seja, Kin-Rá!
Em um segundo o dragão ataca. Fimiq se torna uma máquina de guerra, da qual centenas de foices, espadas e machados brotam. No bote do dragão, o avatar tenta, em desespero, usar todas elas, e ainda dispara alguns raios negros em várias direções. Mas mesmo ele sabe quando não há saída nem chance de vencer.
- Nããão...
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Marfim Cobra se vira e vê um rapaz com uma roupa um tanto esquisita. Parecia a do Raio Azul, mas trazia uma pirâmide e era avermelhada.
- Pode me chamar de Delta.
Espere! Nós conhecemos esse rapaz. Mas não é aquele que matou um assaltante e por pouco não foi morto pelas outras três unidades de justiça? Em Maceió?
- Você não é aquele que conseguiu arremessar meus três aliados pra longe?
- Sou, sim. Fui eu quem jogou a árvore nele e lhe deu a faca. Embora tenha tentado me matar, sinto muito pelo seu amigo.
Eles se calam por alguns instantes.
- Parece que tudo acabou...
- O quê? Por onde você tem andado? Em todo canto tem um monstro desse infeliz que você acabou de matar! Ah! A propósito, bela magia!
- Hã! Ah! Obrigado... Mas sinto que meu deus tenha sumido. Ele se esforçou muito pra derrotar seu rival. Acho que vou ficar pelo menos um século sem poder falar com ele.
- É uma pena... Só lembrando... Há generais zumbis, vampiros... Você não acha que a gente tem que fazer alguma coisa?
- Claro!
Eles se levantam e vão andando pela cidade fantasma.
- Ah! E já agradeci por ter me livrado dos seus amigos, cara?
- Não, que eu saiba.
- Tá. Valeu!
- E isso foi o agradecimento, suponho...
- É.
- Certo. Não há de quê.
- Tá tirando onda com a minha cara?
- Não. ...ou melhor, não sei. O que é tirar onda?
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Os dois foram até o estádio e mataram os fantasmas restantes. Graças ao Delta que, ouvindo o depoimento do já fraco Áquos, conseguiu uma "bomba elétrica" ainda naquela noite. Tommy estava morto e Áquos, muito mal, se recolheu ao oceano para recarregar as baterias.
Enquanto isso Marfim Cobra, Lunar e Delta saíram a lutar contra os "monstros" que infestavam a Terra. Desde aquele dia nunca faltaram desafios e lugares a se pregar e impor a verdade e a justiça.
Felizmente eles nunca mais encontraram um combate que não pudessem vencer.
...pelo menos até agora.





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