Parte 2

in

- Estás querendo dizer que és o maior mago do Fogo de Kairot?

- Vejo que entenderam.

- Mas, espera. Tem como provar isso? - "Ô pergunta idiota!"

O suposto Uryef estende a mão, fazendo surgir uma chama alguns dedos acima dela. A chama, respondendo a alguns gestos, flutua, passando perto dos quatro, um de cada vez. Então ela se aproxima da fogueira e, ao alcançar o centro das chamas, o fogo se torna branco. Tudo volta ao normal.

Todos estavam convencidos de que era mesmo Uryef quem estava diante deles.

- Podemos ir agora?

- Aonde pretende nos levar?

- É uma longa história. No caminho eu conto.

Foi assim que Algio, Cristian, Geba e Lob foram convocados à missão mais importante de suas vidas. Aquele que estava diante deles era mesmo Uryef, mas o truque utilizado era simples: pelo menos vinte magos de Kairot sabiam executá-lo, o que o sumo-sacerdote revelou tempos depois.

Próximo ao meio-dia eles pararam. Sim, tinham provavelmente um longo caminho a seguir. Deviam almoçar. Duas coisas eram necessárias: vigiar o visitante e arrumar comida. Seriam dois deles em cada tarefa. Geba se prontificou e chamou Lob. Mas ao invés de responder, voltou-se Lob para Algio, no instante exato em que este começava a falar "Eu vou". Insisto que ocorreram tais ações no mesmo instante, de modo que não foi Lob que forçou Algio a decidir, nem foi a voz do segundo que influenciou o primeiro: os dois agiram ao mesmo tempo.

Enquanto os dois, Geba e Algio, iam à caça, Lob se dirigia a um ponto qualquer um pouco distante de Cristian e Uryef, onde se sentou, voltado para os mesmos dois. De onde estava podia vê-los perfeitamente, além do mais, era só o que pretendia fazer. Cristian se via sozinho responsável por uma difícil tarefa: "entretenimento".

- Você falou que veio nos buscar...

- Tudo será revelado a seu tempo.

- Certo... Vens de onde?

-Autho.

- Como suspeitei. Aliás, que pergunta estúpida, não? É claro que os magos, pelo menos os que podem escolher, moram na "Terra dos Filhos da Terra"...

- Nem tanto.

- Mas não é lá o paraíso dos magos, onde eles aprendem mais sobre a magia e "vendem" seus "produtos"?

- Não exatamente, e magos não são "artesãos".

- Mas só disse o que ouço falar de Autho.

- Vai levar algum tempo até que as pessoas saibam que estão erradas.

- Mora lá?

- Sim e não.

- E isso significa...

- Pode entender como "coisas de mago".

- E o que "faz e não faz" lá?

- Magias.

- Sei, "coisas de mago"...

- Isso! Diga-me, seu amigo é sempre assim?

- Como?

Só então nota que Lob não está mais lá. ele se levantou e começou a golpear violentamente as árvores, tirando-lhes alguma madeira.

- É, precisamos de... fogo.

Após juntar madeira suficiente, Lob a leva a uma sutil clareira e se senta diante da fogueira que fez. Começa a aquecê-la para fazer fogo.

- Lob, espera! Temos ao nosso lado o maior mago de fogo do mundo! Ele pode acendê-la pra nós, não pode?

Lob se levanta e se afasta, sentando-se a certa distância da fogueira, mais ou menos no lugar onde estava antes.

- A magia existe para fazer o que não podemos fazer.

- E aquilo que fizeste lá atrás?

- Às vezes é difícil provar que é mago a um leigo sem usar magia.

- Ah, certo. Lob, pode acender a fogueira.

Ele responde com um sorriso que diz: "A humilhação foi a ti, que pediu".

- Tá, eu vou então.

Enquanto Cristian continua o trabalho de Lob, Uryef se volta para longe, como que a meditar. Lob não pára um instante de vigiá-lo. Sente ele que o visitante não fará nada de errado, mas lembrou-se há pouco tempo das palavras do mestre Fuolha sobre confiar na intuição.

Algum tempo depois de a fogueira estar acesa, chegam Algio e Geba, com um herbívoro de médio porte, abatido.

- Hora do rango!

Reúnem-se então os cinco ao redor da fogueira recém-criada. Os quatro começam a separar o animal em pedaços, começando a queimá-los. Diante da cena, Uryef não tem outra escolha, senão acompanhá-los. Ele o faz, certamente.

- Vocês comem sempre só carne?

- Às vezes Grinter dava cereais à aldeia.

- Grinter?

- Um homem que tinha negócios. Em Autho, acho; mas que morava em Motron.

Uryef come da carne caçada, sem nada mais a dizer. Note que, embora estivesse acostumado a comidas mais diversas em suas refeições, expôs ele o estranhamento mais como curiosidade que como reclamação.

Enfim, terminaram e partiram. Como da primeira caça, havia sobrado carne, embora menos desta vez, não bastante para uma refeição (de cinco pessoas). De novo saíram, seguindo o grande mago.

"Ele não perguntou nada sobre Motron. Até que ponto ele conhece a nossa história?" Lob se preocupava. Como sempre, ele. Ele e Geba permaneciam calados. Algio mal falava.

- Bem, amigo de chamas, poderia nos dizer agora aonde nos leva, ou ainda "não está em tempo"?

"Muito boa, Cristian!" De alguma forma, pensava cada um dos três outros.

- Acho que agora já posso dizer algo.

Faz uma pausa, como que para se certificar de que podia mesmo dizer. Daí, continua.

- Ele me enviou para buscá-los.

- Ele?

- O Fogo. - os quatro se entreolham, pasmos. - O motivo é precisamente o monstro de pedra e gelo que aterroriza toda Kairot.

- Menos mau. Não mudamos de meta com sua chegada.

- E você está nos levando a ele, certo?

- De modo algum.

- Mas, então...

- Vocês não podem vencê-lo.

- Como pode saber?

- Por que não o enfrenta você mesmo?

- Espere. Ele pode já tê-lo enfrentado, não é mesmo?

- ...afinal é o maior...

- ...mas se não está...

Só quando o viram parado perceberam o caos que haviam criado. Imediatamente, eles param. Para uma melhor compreensão, aqui vão as idéias e seus criadores: Algio se indignava por terem sido considerados "incapazes"; Geba, por ter o mago os procurado, ao invés de encarar por conta própria o monstro, na posição de maior mago do fogo de Kairot; e Cristian, superestimando-o, acreditava que Uryef conhecia profundamente o monstro.

- Pronto? Pararam? Posso falar agora? Pois bem, primeiramente, eu nunca enfrentei esse monstro. Eu mesmo seria incapaz de vencê-lo...

- Como o sabe, se nunca o enfrentou...

- Eu sei, ora!

- Ah, não! Isso não! Lob, parente seu? Só trocamos um guia às cegas por outro do mesmo nível! Droga!

- Senhor, desculpe-nos, mas, com tal resposta está abalando sua credibilidade. Se é o que quer, bem, mas...

- Deixe-o, Algio. Voltemos ao que seguíamos antes. Continuaremos a seguir Lob. Se é pra seguir caminhos cegos, vamos ao menos guiados por um dos nossos.

- Ele não disse que não tinha um caminho. - Lob afirma, para a surpresa de todos, e encara Uryef, como que esperando alguma coisa.

- Estás absolutamente correto. - Uryef se pronuncia. - Tenho um caminho e um objetivo.

- Sendo assim, poderia expô-lo a nós?

- Em parte. As forças do Fogo criaram a única coisa capaz de vencer tal monstro. O Fogo a escondeu, e só os predestinados a isso conseguirão encontrá-la. É pra lá que vamos.

Os quatro se entreolham, surpresos. Se bem que Lob parecesse já saber disso. Coisa estranha, mas pareciam seus instintos estarem bem mais aguçados que o normal.

De qualquer modo a notícia era extasiante: "Vocês não conseguirão fazer isso desse modo, mas sei como podem conseguir." Claro que acreditaram em suas palavras, não apenas por virem do maior mago de Kairot, mas também por quererem acreditar nisso. Tudo parecia perfeitamente aceitável: a idéia de eles não serem capazes de vencer o monstro. Além do mais, se tudo fosse verdade, eles seriam predestinados ao heroísmo. Pensar nisso os deixava sem fôlego.

- Tudo bem, amigo, sendo assim, prossigamos.

E eles continuam a caminhada. Estavam mais alegres que antes, dada a notícia. Fazem uma viagem tranqüila, com alguns pequenos contratempos, como rios a atravessar, animais que surgem do nada. À noite eles param mais uma vez. Agora já tinham carne e frutas suficientes, pois pegaram-nas no caminho. Bastou fazerem uma fogueira à clássica e se sentarem para a última refeição do dia.

- E aí, falta muito?

- Estamos cada vez mais perto.

- Isso era de se esperar. Queremos saber quão perto.

- Vocês saberão. A propósito, esta refeição está bem melhor que a anterior. Estas frutas...

- Agradeça à Natureza.

Eles se calam e comem. A comida estava mesmo melhor e todos comeram o quanto puderam. O silêncio se fez. Haviam já preparado os leitos - de novo não haveria chuva, houve em meados da tarde. Era ainda cedo da noite e ninguém falava.

- Vocês podem conversar à vontade. Não quero que minha presença intimide vocês.

- Gostaria de ouvir umas histórias?

- Cristian, esqueça.

- Uryef?

- Claro. Adoraria ouví-las.

- Bem, vamos lá. Uma vez estávamos voltando de um treino, quando uma luz branca cruzou o céu. Eu a segui e encontrei... O "macaco luminoso"!

- O quê?

- Eu disse que não devia contar... Logo a do "macaco luminoso"?!

- O que é "macaco luminoso"?

- Não ligue: é uma invenção dele.

- Ah, vocês estragaram...

- Ele sempre nos obrigava a ouvir suas histórias malucas.

- Também não é assim.

- Querem ouvir uma história? Algo que realmente aconteceu? - Uryef intervém.

- Se estiver disposto...

- Há muitos anos, havia uma bela senhorita, que morava perto de um vulcão. Ela era tão bonita que o céu era rosa e lilás, dia e noite. Ela transformava o mundo a sua volta. Tudo era feliz até que um dia saiu do vulcão um monstro horrível, atraído por sua canção. Ele era como se fosse todo de lava, e tinha dois diamantes no lugar dos olhos. Logo os dois ficaram muito amigos, mesmo ela sendo tão bonita e ele tão feio. Desde aquele dia passaram a andar juntos e o mais bonito era vê-los assim. Porém, as pessoas que moravam perto não viam as coisas desse modo.

"Pra elas, ele continuava sendo um monstro. Decidiram então atacar o lar dos dois e matá-lo de uma vez. Mas a flor do vulcão não permitiu, pondo-se entre o monstro de magma e a multidão. Eles a pisotearam, matando-a mesmo. Foi aí que aquela criatura inofensiva, embora horrenda, se tornou verdadeiramente um monstro. Naquele instante o céu ficou mais negro e se fez noite pela primeira vez. Os relâmpagos gritavam pelo nome dela enquanto nuvens escuras, cinzentas, cobriam o céu. Logo elas descarregaram frio e fúria sobre todo o planeta. O monstro matou todos e saiu matando, e matando, e... Ah, vou dormir... Estou com sono."

- Não! Como acabou a história?

- Será que é o monstro que procuramos?

- Claro!

- Calma, jovens, é só uma lenda.

- Mas você disse que tinha acontecido...

- Pra vocês prestarem mais atenção. Agora, se me permitem...

- Mas como acabou?

- Ele percebeu o monstro em que havia se tornado e se jogou no vulcão, e nunca mais foi visto. Agora vou dormir, posso?

- Será que ele diz a verdade?

- Por que pergunta?

- Ele disse que estava com sono. Se o fim da história fosse aquele mesmo ele teria contado de uma vez, não acha?

- Talvez... Talvez a história ainda não tenha fim.

- ...e o monstro de lava seja o nosso monstro.

- Mas lava é quente.

- E a chuva...

- ...pode tê-lo transformado.

- ...em pedra e gelo.

- Claro! Ele aproveitou a ocasião e contou a verdadeira história do monstro camuflada por um título de lenda!

- Eis onde queria chegar.

- Não vamos dizer que sabemos. Se disser a Lob ou Geba, passe também esta recomendação.

- Pode deixar.

Após algum tempo todos estão dormindo. Ao despertar, seguem por entre as árvores, guiados ainda pelo grande mago Uryef. Não mais falaram sobre o final da história contada por tão ilustre personagem. Apenas para que não se chame tal jornada de "tranqüila", pôs-se diante deles um inimigo. Um quadrúpede com chifres que vive nessa região mais "sombria" de Kairot. Não era um grande desafio. Um dos guerreiros bastaria para abater tal criatura, que sequer tinha atributos mágicos. Após o saudável passatempo, a viagem seguiu. ...até que os cinco se encontraram em terreno estéril, pétreo, de onde já se via o oceano. Andando mais, perceberam que estavam em rochedos. Nem ao menos praias. Era uma manhã fria.

- Vamos agora?

Ninguém responde a Uryef. Com o silêncio, concordam em partir.

- Todos juntos agora.

Logo depois de todos se aproximarem, o maior mago de Kairot faz inúmeros gestos. seus olhos brilhavam em duas chamas vermelhas quando chamas surgiram do nada e começaram a dançar a três metros de Uryef. Ao prestarem mais atenção notaram os quatro que tais chamas, de altura um metro, formavam um círculo ao redor do mago. Subitamente um tremor, como se fosse um terremoto. Agora eles estavam voando. Sim, voando sobre um disco de pedra. Sobre esse disco e seguindo aos comandos gestuais do mago, em algumas horas eles chegaram a uma ilha. O guia arcano estava exausto.

- Pode nos dizer agora onde estamos!?

- Afinal, não disseste que era fora de Kairot.

- Ainda estamos em Kairot. Estamos em uma das ilhas do arquipélago Caji.

- Onde?!

- As ilhas dos monstro?

- O que você sabe sobre isso, Cristian?

- O mestre Fuolha me contou um dia.

- Por que só a você?

- Geba estava lá. Lob parece que também estava.

- Você estava com Keuda, esqueceu?

- Tá, esquece! E que ilha é esta?

- Não sei, ele...

- A maior delas. - Uryef retoma a palavra. - Agora, vão.

- Como assim "agora vão"? Você não vem conosco?

- Não.

- Como acharemos a... a coisa do fogo?!

- Tu mesmo disseste que preferia ser guiado por seu companheiro...

- Como é? ... Eu o disse, sim, mas estava nervoso. Como vamos conseguir sem sua ajuda?

- Estou exausto. E, mesmo que não o estivesse, não poderia ajudá-los. Daqui pra frente é com vocês. Confio em Lob: ele os guiará.

- Mas...

- Vão, agora. Não podemos perder mais tempo.

Lob escolhe uma direção e começa a andar. Nos primeiros passos ouve uma voz distante "você ficará bem?" e uma resposta "sim, mas vão". Ele continua andando e os outros o seguem. Parecem nem pensar na possibilidade de ser uma armadilha, mas creio que pelo menos um deles pensara nesta hipótese. A confiança em Lob eliminava tal possibilidade. Eles partiram de fato, deixando seu maior aliado só. Apesar de ser o único aliado, era provavelmente o maior que poderiam encontrar, portanto dificilmente estaria indefeso.

O cenário era no mínimo estranho. Tinham chegado em rochedos, como aqueles de onde partiram. Logo mais havia uma floresta de vegetação alta e fechada, irradiando qualquer coisa de mal. O quarteto entrou por essa floresta com imensa cautela. Lob, na frente, abria caminho, cortando os bizarros galhos de tão sombria vegetação. E nenhum deles percebia que os mesmos galhos cortados se fechavam alguns segundos depois da passagem do último do grupo, Cristian.

- Sabe?

- O quê?

- Pra um lugar tremendamente perigoso, até que está bem calmo...

- Cristian, não subestime as forças do além...

- ...ou talvez encontre um "macaco luminoso"!

- Geba!

- O que eu quis dizer é que talvez a floresta já soubesse da nossa vinda.

- E por isso preparou uma recepção bem pacífica...

- Pense um pouco. Em toda floresta há barulho, a qualquer hora. Você tem ouvido algum por aqui?

- Fora a espada de Lob... E os nossos passos... Não.

- Será que é desse modo gratuitamente, absolutamente normal?

- O que quer dizer, Algio?

- Quero dizer, Cristian, que o silêncio tem motivo e esse motivo não deve ser algo bom.

- Talvez um motivo que tenha dentes...

- Exatamente, Geba.

- Mas sigamos mesmo assim. Nós estamos prontos pra tudo.

- Será?

Neste exato instante um urro bestial rompe o silêncio. O mais aterrorizante é que vem de perto.

- Que animal será esse?

- Não sei, mas descobriremos.

- Como assim "descobriremos"?

- Ora, vamos derrotá-lo!

- Acha que é tão fácil?

- Você nem viu a criatura!

- Mas pude ouvir seu grito.

- Nunca ouviram que o que não nos mata nos fortalece?

- Isso só vale para lendas, homem. A verdade é mais cruel.

- Shhh... Façam silêncio.

- Algum problema, Lob?

- Por que devo fazer? Faço tanto barulho quanto quiser. Ta-ra-ram!!! Não é mesmo, Geba?

- Não, Cristian. Cale-se de uma vez.

- O que há com vocês? É só um... um tigre! Ou um coelho, sei lá! Por que tudo isso?

Os outros três não se viram para o repreenderem, pois estão muito preocupados com o urro que ouviram. Era algo estranho e assustador. Era grave e rouco, não lembrando nenhum animal, e preencheu a floresta como o próprio ar. Ao invés de darem a Cristian uma resposta só se pode ouvir Lob dizer: "É tarde demais..." Num estrondo ensurdecedor - mais pelo silêncio completo que o precedeu que por ele próprio - um raio, vindo da frente deles, atravessa o grupo. Lob salta para o lado enquanto tenta posicionar a espada para aparar os golpes da fera. Da indistinguível fera que se fez passar por raio, tão rápido vinha. Lob, de alguma forma, já sabia que era o monstro que urrou agora há pouco. Os outros três, pelo susto e sem uma compreensão tão clara do que acontecia, jogavam-se tentando sair da linha de ataque. Cristian é pego de raspão em seu ombro esquerdo.

- Aahhh!

- Está todo mundo bem? - Algio pergunta.

- Sim. - respondem Lob e Geba, enquanto Cristian grita "Ao menos vivo!".

Este leva a mão ao ombro esquerdo, que sangra, enquanto se levanta. Algio, o mais próximo, encontra-o e traz uma tira de seu velho manto arrancada. Com ela tenta prender o ferimento de seu amigo. Enquanto isso Geba e Lob se aproximam, já de armas em punho. Diante dos quatro está aquele ser, escondido pelas árvores.

- Algio, só me diga uma coisa: "O que era aquilo?"

- Não se mexa muito.

A vegetação se afasta, formando uma clareira, atingida pela luz do Sol. O monstro se encontra no centro dela e os heróis avançam em passos lentos e cautelosos, porém decididos, à medida em que a clareira se expande, formando uma espécie de arena natural.

- O que é isso...

Cristian pergunta mais uma vez ao ver a fera. Um monstro horrível, como que montado por partes. Tem quase dois metros de altura. Seu tronco parece uma tartaruga, protegido por um casco. Suas patas dianteiras são patas de um quadrúpede, de um cavalo, só que muito mais robustas. Suas patas traseiras são como as de um imenso sapo, e sua cabeça lembra a de um crocodilo. Toda a sua pele não tinha pêlo, além de parecer muito resistente. Seu rabo era como o de um tubarão. De uma cor verde-musgo, ele encara os quatro, com seu olhar quase maluco, sobrenatural. Após uma rápida entreolhada do grupo que busca a salvação para Kairot, Geba e Lob partem como flashs em direção ao rival frankenstainiano.

Com ira bestial os três lutam. Lob faz sua espada de duas mãos dançar, cortando o ar com incrível velocidade. Geba faz o mesmo, dando vida à sua lança, mas a fera, além de ágil é bastante resistente. Embora já fosse esperada tal agilidade por parte do monstro, tal foi sua entrada na cena, mesmo assim ela impressiona. Aquele ser tão estranho e sobrenatural parece muito pesado. Os dois homens se saem bem, mas a batalha é de empate.

- O que estamos fazendo aqui? Vamos ajudá-los!

- Você não está em condições, Cristian.

- Mas não posso ficar só assistindo. - Ele tenta se levantar, mas Algio o impede.

- Não! Você não está em condições!

- Está bem, está bem, entendi. - Ele pára um pouco. - Mas por que você não vai lá? Eles precisam de ajuda.

- Você...

- Sim.

- Está bem.

Algio pega sua espada e corre para a área de combate, e chega no instante em que Geba é arremessado para trás - uma mordida aparada pela lança - e cai de costas no chão.

- Como estão?

- Mal. Ele é de ferro.

- Como?!

Os dois lutam, e logo Geba está de volta ao combate. De fato os golpes que acertavam produziam um barulho metálico característico. Geba cai mais uma vez, mas se ergue e retorna logo em seguida.

- Estás bem?

- É preciso mais que isso pra me derrotar.

"Bem, ele parece de metal, mas... Por que não querem que eu lute? É só um arranhão! Mas se aquilo é o que parece... Cristian se levanta e toma seu bastão. "Uma tartaruga, não é? Uma tartaruga de ferro..." Ele se aproxima e quando os três percebem já é tarde: ele veio mesmo.

- Saquei, Tarturaço!

- Cristian, não! - os três gritam surpresos enquanto Cristian salta e golpeia com seu bastão o pescoço da criatura, tão perto do casco quanto pode.

Geba salta. O monstro vira a cabeça bruscamente, com a boca aberta, procurando Cristian. Mas encontra a lança de Geba mais uma vez em pé. A força do golpe joga Geba contra Cristian e os dois vão ao chão, enquanto Lob e Algio se aproximam. A besta corre.

- Você está louco?!

- O que deu em você?

- Ha! Ha! Essa não ia terminar sem mim.

- Convencido!

- Vamos.

Os quatro voltam ao caminho que seguiam enquanto...

- Olha! A floresta está se fechando de novo!

- Ela se reconstrói!

- Isso significa que... nossos rastros...

- ...são sempre apagados...

Eles voltam a caminhar, quase na mesma formação de antes. Lob e Geba na frente, nesta ordem; mas desta vez Cristian, ferido, vem em terceiro enquanto Algio cuida da retaguarda. Depois da batalha, dos barulhos do aço, todo o silêncio cai sobre a floresta. Um silêncio que, supõe-se, não se encontra em nenhuma outra floresta. Um silêncio estranho e assustador.

- Ei, Geba! - Este se volta para Cristian. - Obrigado por ter salvo minha vida.

- De nada.

Eles andam por mais algum tempo.

- Algio...

- O que é?

- Será que ela ainda volta?

- Ela quem? O "Tarturaço"? Não sei... Talvez...

- O silêncio ainda não se foi...

- É. A propósito, foi muito corajosa a sua atitude.

- Obrigado.

Eles caminham mais e mais, quase sem conversar. O medo estava presente, como antes. Dessa vez, no entanto, eles não conversavam e discutiam por esse medo. Pelo contrário, o medo os calava, principalmente depois de tal encontro.

- Como estás, Cristian?

- Já estive bem melhor.

- Dói muito?

- Não. Só quando movo o braço.

A jornada seguia. Lob cortava os galhos, mas agora todos tinham certeza de que estes galhos se fechariam pouco depois da passagem de Algio.

- Por que será?

- O quê?

- Por que essa floresta é tão estranha?

- Falas do silêncio?

- Não apenas dele, mas... Os cortes se fecham quando passamos e... A floresta criou uma arena de combate, naturalmente. Nunca ouvi falar de algo assim.

- Também não.

Eles se calam por algum tempo.

- Mas ora, Cristian! Quanto do mundo já ouvimos falar, se vivíamos isolados em... Motron...

- E quantas pessoas estiveram aqui?! Estamos na terra perdida, no arquipélago Caji, e... o que foi agora? Por que a tristeza repentina? - Algio não responde - Ah, Algio... Você gostava mesmo dela, não? Não se preocupe, vamos vingá-la. Vamos vingar por toda Kairot!

- Ei, Cristian...

- Fala, amigo.

- O que ela estava tentando dizer?

- Como assim?

- Seu rosto expressava alguma coisa...

- Pra mim era dor.

- Sim, mas não uma dor qualquer. Parecia até ser uma dor sem qualquer ligação com aquele momento.

- Não sei... Mas esqueça isso, Algio. Tente se lembrar dela nos momentos felizes. Aposto que ela preferia ser lembrada assim.

- Talvez você tenha razão...

- Silêncio aí atrás...

Os dois se voltam para Lob. Um grito rude de Geba reforça o pedido de silêncio.

- O que está havendo? - Cristian pergunta aos dois da frente, em voz baixa.

- Estamos passando por uma região perigosa. - Lob responde, em igual tom.

Em outra ocasião Cristian perguntaria: "Como sabes?", mas tudo o que viveram até aqui, em tão curto tempo, fez com que confiasse no instinto e na forma tão estranha de Lob agir.

- De novo não...

Lob fala, no instante em que ao redor deles começa a se fazer uma nova arena. Os quatro param e ficam de costas uns para os outros, formando um quadrado defensivo. Nesta posição eles esperam a arena concluir sua formação, para descobrirem o próximo inimigo. E eis que ele surge.

Um touro de três metros surge adiante. Um touro com aspecto muito bom. Robusto e de chifres provavelmente afiados. Ao perceber a arena, tal adversário faz alguns passos para fugir, até que vê quem está com ele na arena. Então, com um brilho vermelho nos olhos, nota que nesta não dará de caça, mas de caçador. Ele se prepara e parte em ataque voraz de encontro aos quatro.

Cristian salta para trás e quase cai. Lob salta de lado, golpeando com sua espada de duas mãos o chifre do agressor, num estrondo. Algio, neste instante, rola no chão para o outro lado e fere uma das patas traseiras do animal. Isso enquanto Geba permanece na frente. Nesta posição, ele golpeia com ferocidade o pescoço do touro.

- Sua pele é muito dura! - Grita Algio, e o monstro arremessa Geba para longe.

Lob golpeia o pescoço do touro, que contra-ataca com ferocidade. Mas o herói consegue se esquivar a tempo. Do outro lado Algio luta com pequenos saltos e vários golpes, em posição de guerra. O touro se volta para Algio e... cai. De um lado, muitos golpes fracos, do outro poucos golpes fortes. Ele não resistiu.

- Geba?

- Estou ótimo! Não se preocupem.

- E você, Cristian?

- Eu... Aghh! ...estou bem.

- Então... - Algio nota a arena se fechando. - Continuemos. Lob, por gentileza...

Os guerreiros vão em frente. Ele continua a cortar os galhos com sua espada, e o seguem Geba, Cristian e Algio, nesta mesma ordem. O grupo avança pela floresta até que, dentre as árvores, surge uma caverna.

- Lob... Bela pontaria. Acertou em cheio.

- Vamos lá.

Eles entram. Uma luz vem de lá de dentro. Eles caminham, preocupados, checando tudo em todas as direções, Eles continuam. Chegando à área iluminada, eles encontram uma pedra, com um metro de altura. No seu topo há um cristal. Eles se aproximam. Todos menos Cristian.

- Será essa a arma?

Lob e Geba caem, atingidos por um raio de luz. Em pouco tempo se descobre que, mais uma vez, não se trata de raio. Uma figura humanóide feita de luz salta para proteger o cristal.

- Cristian?! - Algio grita, virando o rosto parcialmente para seu aliado, enquanto saca a espada.

- Não! Foi só um sonho!

Os outros também recordam a história do tal "macaco luminoso". A questão é...

- Hááá... - Algio golpeia o macaco, mas a espada o atravessa. No entanto, o macaco soca. Sua mão de luz atravessa o corpo de Algio e parece queimar na região atingida. Ele cai de dor. Lob se aproxima de Cristian.

- Como a gente o derrota?

- Não sei! Eu sempre esqueço o fim do sonho!

- Droga!

Quando Lob está prestes a atacar o macaco...

- Espere! Havia uma vela...

- Como? Vela? Como a que está ali?

- Exato! - grita Cristian ao ver a vela que aparecia em seus sonhos, logo após a primeira vez que se lembrou de sua existência.

A vela era como uma vela normal, nova. Mas queimava uma chama negra, sombria.

- Vou apagá-la. - Lob salta na tentativa de alcançar tal vela, mas é interceptado pela estranha criatura de luz. Seu corpo inteiro arde.

- E eu que tenho que fazer tudo sozinho... - Cristian se senta, pega umas pedras e começa a atirá-las na vela. - Errei... Uhhh! Quase! ... Essa passou perto.

O macaco grita e parte rumo a Cristian.

- Deixa comigo! - Geba pega sua lança e arremessa. Ela atinge a vela.

- Lindo! Bem na vela! O alvo era a chama!!

O pedaço de cima gira no ar. Sua chama oscila, bem como a figura do macaco. Até que a semivela atinge o chão, extinguindo sua chama negra. O macaco some e tudo agora são trevas.

- Bom trabalho, Geba.

- Agora acho que podemos ficar com isso...

- Algio!?

Um feixe de luz explode onde estava o cristal, arremessando Algio para trás e cegando todos.

- Era mentira! - Algio grita, referindo-se ao cristal que desapareceu, ao contato com a sua mão, dando lugar à luz, mas quando a visão dos quatro retorna eles podem ver um amontoado de metais descendo do teto da caverna. Parecem trazer um brilho metálico e são vermelhos.

- Não, encontramos...


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