- Mas o que são isso?
- A resposta...
- Aquilo que procuramos...
- Pedaços de metal?
- Não, uma armadura. - Cristian separa uma parte. Uma placa de metal. Todos reconhecem nela um elmo.
- Como vestimos? - Geba tenta colocar algumas placas em seu peito, em seu braço, mas elas caem. Não há, aparentemente, engates.
- São mágicas, Geba. Ei, Lob! Este elmo é a sua cara. Pega! - Cristian entrega um elmo para Lob. Todos parecem iguais. As diferenças são sutis, mas...
- Entendi. - Lob caminha, segurando um dos elmos, e pega outro. - Este aqui deve ser o seu, Algio. - e outro. - Geba!
Lá de baixo das peças Cristian tira o elmo que crê ser o seu.
- E aí? Colocamos? - Algio pergunta, fitando cada um dos seus amigos. Todos têm o elmo na mão.
- Espere... Contemos de um até três. - Sugere Cristian.
- Quatro.
- Eu dei a idéia...
- Tudo bem... Um. - Algio olha para Lob.
- Dois. - Este mira Geba, junto com os outros dois.
- Três!
Os quatro colocam o elmo na cabeça. Cada um deles sente o corpo queimar e os olhos ardem a ponto de não conseguirem mantê-los abertos. Todos caem sobre as mãos. Gradativamente a dor cessa e suas visões retornam. Eles se erguem e vêem uns aos outros. Cada um tem uma armadura vermelha cobrindo seu corpo, mas não totalmente. Além dos olhos e da boca, os braços, joelhos e parte do tronco ficaram à mostra. De qualquer forma, eles se sentem ótimos, tão fortes como nunca se sentirem ou sonharam estar.
- Nossa! Isso é incrível!
- Como está seu ombro, Cristian?
- Como novo!
- Finalmente encontramos, então.
- Agora a gente pode pisar o "monstro de pedra e gelo".
- É, vamos lá.
Eles tomam suas armas sob a luz vermelha que suas armaduras irradiam e deixam a caverna. A floresta está lá, como estava antes. Desta vez, empolgados com suas armaduras, eles partem em fila dupla, guiados por Lob e Algio, os de armas mais cortantes. Na verdade, Lob guia e Algio só tenta permanecer ao seu lado.
Sob a ligeira treva que toma a floresta no fim de tarde suas armaduras continuam a emitir luz.
- Tudo o que eu queria!
Um vale começa a se formar ao redor dos heróis, criando uma nova arena de combate. Do outro lado surgem quatro tigres enormes, com orelhas negras e sem pêlo.
- Tudo bem... afastem-se.
Os quatro se distanciam para garantir o espaço necessário para os combatentes. Os tigres avançam, cada um deles contra um alvo humano.
- O que acha de minha armadura nova, criatura infame? - Cristian fala com seu agressor, enquanto este se aproxima. O herói gesticula e se mostra como quem não se importa nem um pouco com o perigoso monstro. - Ah, quer ela pra você? Não dou! - Ele golpeia o tigre com seu bastão, no pescoço. O animal cai e desliza um pouco no chão de folhas. Pouco depois se levanta, balançando a cabeça e se volta para Cristian.
Agora que a floresta está aberta se pode ver o Sol. É fim de tarde. O céu está avermelhado. Deve ser noite já em algumas partes de Kairot. O grupo prossegue a luta. O tigre atingido por Cristian salta contra este, em novo ataque. O herói gira o bastão no ar, violentamente, golpeando o queixo da criatura. O tigre o derruba, arranhando-lhe o ombro.
- Sai de cima de mim, coisa feia! - o tigre está como que inconsciente. - Alguém pode me ajudar com isso?
- Você é muito desastrado!
- Geba! Ajuda-me!
- A sua estratégia não serve pra tirá-lo daí?!?
- Certo, acabou o tempo da piada! Pode me dar uma força?
- Tá bem, eu ajudo.
Geba pega o tigre e o ergue, tirando-o de cima de Cristian. Joga-o pro lado em seguida.
Assim como Geba, por sua força, Lob já venceu o tigre que o atacava, e Algio desfere agora seu último golpe, abatendo seu oponente com um movimento majestoso.
- Bravo! Belo trabalho, Algio! Ei, Lob! O que fazes?
- Prepare uma fogueira: vamos ver se esse bicho é bom.
- Você está louco!?!
- Não, estou com fome. Já é quase noite.
- E quanto a Uryef?
- Cristian, você acredita mesmo que o melhor mago do mundo precisa realmente de nós? - Algio intervém no diálogo entre Cristian e Geba - Ele se vira...
- Certo. Acho que tens razão. Eu cuido da... Geba!
- Você demorou tanto que resolvi cuidar disso.
A fogueira estava quase pronta, só faltava fogo. Geba pegou um graveto e ficou tentando resolver o problema. Logo, no início da noite, tinham uma bela fogueira queimando. em pouco tempo já estão assando pedaços do tigre.
- Que gosto horrível!
- Pelo menos parece... Natural!
- Como assim "Natural"?
- Não parece veneno, ou alguma coisa assim.
- Isso vai me dar uma indigestão...
- Pode comer. Apesar de horrível, está comível.
Eles comem da carne do tigre. Nunca comeram uma carne assim. Tem um gosto estranho. Não como estragada, mas é um gosto meio ácido, amargo. Mesmo assim eles a comem, pois precisam se alimentar para que voltem ao encontro do maior mago de Kairot, que os espera.
Já é noite e, curiosamente, a arena não se fechou. Eles nem sequer tocaram no assunto durante toda a refeição. Como se não tivessem percebido ou acreditassem tudo aquilo ser normal em um lugar tão estranho Suas armaduras irradiavam uma luz vermelha, do mesmo modo que quando estavam na caverna.
- Será que temos chance? - Cristian rompe o silêncio quando se aproxima o fim da refeição.
- Contra o monstro? - Algio responde, parando por algum tempo. - Prefiro acreditar que sim a alimentar a dúvida.
- Com ou sem chance, seremos a última tentativa.
- É, Geba... Infelizmente é o que parece.
- E Uryef? Esquecemo-nos dele!?! Temos que partir imediatamente.
- Ele deve ficar muito feliz ao nos ver com as armaduras.
- O que estamos esperando então? Partamos já.
- Não vai dar...
- Por que, Lob?
- Não sei por que não notei antes, mas a arena não está armada à toa.
- Como assim?
Os quatro caem atingidos bruscamente por uma força misteriosa. Mais ou menos como aconteceu pouco antes de se depararem com aquele a quem chamaram "tarturaço". Mas da vez citada se tratava do referido ser, e ele se apresentara como um raio. Agora, não houve nada além do ataque. Como um raio incolor. Ou mais, invisível. Os quatro vão ao chão após esse ataque, enquanto se perguntam: "O que está acontecendo?".
- Apareça, criatura covarde!
- Cristian... Covarde? Talvez ela não tenha aparecido por ser invisível...
- Não me interessa. Algio!!
O guerreiro portador da lança cai próximo aos dois que discutiam. Parecia até haver algum tipo de ímã que fazia os inimigos tentarem acertá-lo primeiro. Era como se houvesse em suas costas um papel escrito "Chute-me". O que tornava a coisa menos ruim era o fato de Geba ser, muito provavelmente, o mais resistente dos quatro.
- Não se incomodem: estou bem! Vocês viram quem me golpeou? Não vejo ninguém!
- Ah, "ninguém"? - Cristian sinaliza uma idéia, prontamente compreendida pelos outros três.
- Ninguém... Geba, vamos bater em "ninguém"?
- É, acho que "ninguém" vai morrer.
- Aaah!
Algio é arremessado para trás, caindo de costas no chão. No instante em que percebem o ataque, os outros três entram em ação. Geba gira, empregando toda a sua força, o bastão; porém, não atinge o alvo. Lob ataca também, com igual violência, e corta o ar, junto a alguma coisa, com sua espada de duas mãos. Essa coisa grita. Um grito assustador, distorcido, além de bestial. Cristian joga, com as duas mãos, um bocado de areia no monstro invisível. E esta era a sua brilhante idéia. Pretendia, com a areia, tornar o adversário "menos invisível". Uma idéia simples, porém formidável. A areia ficaria suspensa sobre o corpo da criatura. Ainda seria difícil enxergar o oponente, mas pelo menos seria possível. Sim, sem dúvida uma idéia formidável. Formidável, mas não necessariamente eficaz...
- Mas que... - Cristian sequer tem tempo de concluir sua exclamação. Foi realmente uma surpresa o ocorrido: a areia caiu diretamente no chão, como se não houvesse nada ali. ...ou ninguém. Mas nenhum dos três tem tempo para se surpreender muito - e Algio não tem tempo algum, e nem viu a cena -, pois um a um, e rapidamente, todos são arremessados para a fogueira.
- Essa coisa pensa!
- Se não, chega bem perto!
- Interessante a idéia de nos jogar ao fogo, acontece, "ninguém", que você está diante dos "Guerreiros do Fogo". O fogo não nos fere. Se isso é tudo o que você pode fazer, fique sabendo que...
- Ei, Cristian! Está falando com quem?
- Com "ninguém".
- Com ninguém... - Lob, com um sorriso sutil, ergue-se da fogueira.
- Lob, que foi?
- Só você não percebeu? Ele já foi.
Agora Cristian pode ver, prestando um mínimo de atenção ao seu redor, que a arena já começou a se fechar.
- Bem, vamos embora então.
Todos estão de pé. Lob pega um pouco da carne que sobrou e guarda na mochila. "É para Uryef". Depois ele gesticula e segue uma direção. Os outros vão atrás.
- Era melhor sem essas porcarias...
- De que falas?
- Essa armadura ridícula! Olha só: não pára de brilhar!
- Ora, Cristian, pelo menos podemos ver o caminho...
- É, à noite na floresta com uma armadura que pensa que é uma vela!
- Calma, de que você tem medo?
- Medo!?!
As árvores mais uma vez começam a se recolher, formando outra arena. Somente com gramas, à luz da Lua. ...e das "armaduras que pensam que são velas". A arena circular avança, revelando o próximo adversário.
- É...
- ...uma árvore!
- O que essa árvore faz aí? Devia ter recuado também...
- Era disso que tinhas medo, Cristian? De uma árvore?! - Algio se aproxima da tal árvore, ligeiramente mais grossa que as outras.
- Algio, tome cuidado!
- Então vocês têm medo disso?
Os três se olham, preocupados, enquanto Algio se aproxima cada vez mais da criatura vegetal que, embora pareça uma árvore normal, dela os três esperam alguma coisa.
- Olha só... - E o impulsivo guerreiro bate a espada na árvore. Os outros acompanham atentos cada movimento. - É só uma árvore! - A árvore não responde.
Vendo confirmadas suas suspeitas de que aquilo era só um vegetal, um estúpido vegetal, Algio, com sua espada, faz um risco no tronco. Em um segundo ele está de cabeça para baixo, pendurado e sem a espada.
- Algio!
Os três correm e Geba chega primeiro. Cravando com força sua lança no tal tronco ele consegue libertar seu parceiro. Lob termina, cortando a árvore em duas. A clareira começa a se fechar.
- Você está bem?
- Obrigado, Geba. Estou. Desculpem, não sei o que deu em mim...
- Pois eu sei. Foi esse silêncio de morte que este lugar irradia. Ou essas armaduras brilhando. Ou saudades da...
- Ou tudo junto. Acho que estou melhor agora.
- Não, você parece muito triste... Desculpe ter-lhe recordado a...
- Não diga o nome dela! É por demais sagrado para ser dito em lugar tão... Profano!
- Mais uma vez, desculpe-me.
- Tudo bem. Vamos embora.
Eles partem. Lob, na frente, abre caminho. Geba, Cristian e Algio seguem nesta mesma ordem.
- Será que ele está mesmo bem? - Geba pergunta discretamente a Lob.
- Não sei. Espero que esteja.
- Não parece bom.
- Certo. Vamos ficar de olho nele. ...de novo!
- O que...
Mais uma vez. É a terceira vez na volta da caverna. A quinta vez ao todo. As árvores se afastam, dando lugar a uma clareira, que será arena do próximo combate. Diante dos heróis ressurge um ser ainda mais estranho que o anterior. Como se fosse feito de cipós. Como um emaranhado de cipós de altura um metro, cipós estes que se estendem pelo chão. De novo não parece um oponente tão perigoso, mas depois da árvore eles não querem subestimar nenhum oponente. Geba arremessa a lança contra o novo adversário. Ele deforma, esquivando-se da arma, saltando logo em seguida, como um raio suave, inesperadamente atingindo o desarmado Geba.
- Geba! - Lob joga suas mãos pra trás e dela sua espada desce em um salto, num golpe tão mortífero quanto belo. Mas o monstro se esquiva.
Em um salto ágil para trás, a estranha criatura, que tem cipós como tentáculos fortes e flexíveis, desvia o golpe. Era exatamente o momento que Cristian esperava. Ele desce o bastão violentamente, mas o que parecia impossível aconteceu. Mesmo após um salto tão brusco, o ser consegue amortecer o impacto e saltar de volta em um tempo mínimo, com magnífica agilidade, como se seu corpo renegasse as leis físicas que regem o mundo. E assim, em bem menos de um segundo, Lob é atingido e também arremessado ao chão. Cristian prepara um novo golpe e o desfere no instante em que é atacado. Logo vai ao chão também, mas atingindo também os cipós-tentáculos do agressor.
- Geba? Toma. - Traz a lança.
- O quê? Algio!?!
- Devias estar lutando! - Tenta outro golpe, Lob, desta vez sem empregar tanta força para não "baixar muito a guarda". O monstro quase não se move, como se sorrisse, zombando da resolução do guerreiro.
Cristian, após se erguer apressadamente, dirige-se a Geba e Algio.
- Há uma pedra no meio desses... dessas coisas! Uma pedra vermelha! Deve ser o que o mantém de pé!
- Lob! Há uma pedra no centro!
Com olhar ainda fixo, Lob faz com a cabeça sinal de que compreendeu. Isso pouco antes de concretizar mais um ataque fulminante, como o primeiro golpe. Mas como no primeiro golpe, o tal monstro se esquiva. Desta vez, entretanto, lançando-se para o lado. O que passara pela cabeça de Lob nesse minúsculo intervalo de tempo foi que "atingindo o todo, o meio seria atingido". Mas depois do golpe, vendo-se com a espada quase no chão e tendo ao seu lado o inimigo, ele vê que foi um fracasso.
- Lob!!!
Geba aproveita a ocasião para tentar um novo arremesso. Ele dispara a lança, mirando a tal pedra. Mais uma vez o monstro se esquiva.
- Eu sei como te vencer, criatura! - Cristian parte em disparada com seu bastão. A três metros do ser tão estranho ele salta. No ar, move o bastão para a frente e o empunha como o sabre de um exímio esgrimista. Com o bastão a alguns centímetros da pedra, ele pára. Ainda no ar. - Maldita planta!
Cinco cipós o seguram. Nos braços, pernas e no tronco.
- Dessa vez você pega, Geba.
- Eu nunca pedi pra você fazer isso. Você devia era estar também lutando.
- Oh, desculpe por ter te ajudado!
- Vocês dois: parem com isso! - A voz é de Lob! Algio e Cristian se viram e o vêem saltar contra o monstro e encontrando o chão logo em seguida. Cristian permanece suspenso. Parece até que a "planta" pretende fazer alguma coisa com ele.
- Tudo bem. Vou tentar. Se não tiver resultados, ao menos você terá tempo de reaver sua arma.
Geba sacode a cabeça, com ar de reprovação, enquanto corre para tentar recuperar sua lança.
- Tudo bem, você pediu. - Algio parte com sua espada. Logo está diante da criatura de cipós. Com extrema e sublime agilidade, sua espada dança, no mesmo ritmo em que dançam os cipós da criatura. E quem vê a luta pode enxergar apenas duas manchas dançando como as chamas de uma fogueira, quão rápido se movem.
O confronto prossegue. Os outros guerreiros acompanham, juntos e pasmos, a atuação de Algio e a fúria da planta segunda.
- Nunca vi Algio assim...
- ...tão...
- Vai, Algio!
Após milhares de golpes tão incrivelmente contidos em uns poucos segundos, há bastantes cipós jogados no chão. Os dois param. A criatura, agora suspensa por alguns poucos cipós, encara. Todos os outros cipós estavam cortados, e já se via a tal pedra vermelha. Numa investida simples, porém veloz, o ágil guerreiro atinge a pedra. Ela desaparece, e a força que erguia e dava vida aos cipós também some, largando-os no chão. A arena começa a se fechar.
- Parabéns, amigo.
- Não tem um jeito de tirar essas armaduras? Nós nunca chegaremos assim!
- Cale a boca e vamos. Medroso!
Cristian e Geba, mas todos já se acostumaram com esses comportamentos.
- Medroso!?! Não fui eu quem jogou a arma pra não lutar na desculpa de estar desarmado.
Algio olha para Lob, com ar de "de novo?".
- Eu te salvei do tigre.
...E decidem não se incomodar mais com isso.
- Grande salvamento. Acontece, meu caro, que o tigre já estava morto!
"Está virando rotina..." Algio comenta com Lob, enquanto começa a cortar galhos ao lado dele.
- Pior. Você ia perder para um tigre morto!
- Não...
- Ei! Esperem-nos!
- Você está mesmo com medo, não?
- Medo? Não conheço o significado dessa palavra!
- Ah, certo...
- Qual o problema? Sabe de uma coisa? Acho que é você quem tem medo e tenta se enganar dizendo que sou eu.
- Quem reclama que a roupa está chamando atenção?
Eles prosseguem com a jornada de volta à presença de Uryef. Mas parece que não chegarão tão cedo quanto pretendiam...
- Isso não vai parar!?!
Nova arena se formava para o desespero dos quatro. Com o processo natural concluído, surge um homem de pedra no centro da arena. De estatura dois metros, com pequenos chifres, em uma armadura estranha. Era de pedra, de pedra negra e ligeiramente esverdeada. No braço direito trazia um escudo redondo, no esquerdo uma espada. Ambos de pedra. Algio parte na frente, empolgado com a última batalha, com velocidade contra seu oponente.
- É de pedra mesmo! - grita após receber resposta aos seus ataques, dos quais a maioria atingiu o escudo. Algio vai ao chão quando já chegam os outros.
Logo Geba e Cristian também caem. Lob é o que mais demora, mas logo é também atingido. Os golpes do guerreiro de pedra são fortes, afinal, ele é de pedra. Mas as armaduras parecem absorver boa parte do impacto. Algio já se ergueu e parte para continuar o combate.
- Cristian?
- O quê?
- Descobriu alguma coisa?
- O quê?
- Um ponto fraco, qualquer coisa!
- Não. Parece que ele é todo de pedra. Acho que esse aí só cai na porrada. ...mas vou pensar em algo.
- Porrada!?! Tudo o que queria ouvir!
Geba sai enquanto Algio mais uma vez cai. Este acertou vários golpes, mas nada aconteceu. A consistência do pétreo oponente parecia inabalável. Mesmo nos olhos.
E Geba golpeia à lança com fúria, mas o oponente ergue contra ela o escudo. Do outro lado Lob atinge o braço esquerdo do ser com um golpe brutal. Lascas de madeira voam.
- Droga!
A lança de Geba quebrara, tornando-se inutilizável. Era a lança que ele havia ganho de seu saudoso mestre. Uma lança que resistiu aos mais duros golpes. ...até agora. Enquanto Cristian e algio se aproximam, e Lob prepara um novo golpe, Geba se livra do pedaço de madeira estragada, resmungando, e aplica um soco com toda a força no escudo da estátua.
- Ah, pedroso! Não contava com isso, né? Vai, Geba! Continue o trabalho! - Entusiasma-se Cristian. Naquele soco o escudo do inimigo rachou.
- Vamos lá! - Cristian olha para as lascas de madeira. Ergue a mão e olha seu bastão. - Ah... - Ele joga sua arma e vai ajudar os dois.
Geba cai. Lob em seguida. Depois Cristian. Os três se erguem pouco depois da queda. Enquanto isso Algio é presa de um forte vazio. Ele olha o céu negro e estrelado que cobre o mundo. Está perfeitamente visível agora que há uma clareira. De costas para o combate, o distraído guerreiro não vê que seus amigos caem, erguem-se, golpeiam e voltam a cair. É como se a luta ocorresse em um canto e ele estivesse em outro totalmente incompatível, em outro planeta. Talvez em outro universo. Talvez em uma outra dimensão.
De repente o monstro quebra, no braço e na cabeça, e perde a mobilidade, tornando-se uma estátua de fato. A arena começa a se fechar e os três se aproximam ofegantes de Algio.
- Ele não está bem...
- Ei, Algio!
- O quê!?!
- O que está fazendo?
- Pensando...
- E não nos ajudou pra "pensar"!?! Seu inútil!
- Calma, Geba! Não vale a pena discutir...
- Desculpe. Não... pude ajudar.
- Tudo bem, mas...
Lob sinaliza, chamando todos para junto de si.
- O que foi, Lob?
Eles se aproximam. Lob gesticula para que todos se dêem as mãos. Eles o fazem, após recearem por alguns segundos. Quando isso acontece, uma explosão de luz no meio deles os arremessa de encontro ao chão. Após a repentina cegueira que tal evento trouxe, eles se erguem, já na floresta fechada e, entre a neblina que esvai de seus olhos, vêem uma luz alaranjada. São suas armaduras, que não são mais vermelhas.
- Alguém pode me dizer o que houve? - Cristian grita para os outros. O curioso é que ele próprio havia descoberto as primeiras informações sobre as armaduras, que agora mantinham o mesmo aspecto, mudando apenas a cor, o brilho.
- Lob? Você sabe o que houve? - Agora é Algio que pergunta, e Lob faz ar de "também não entendi".
- A gente está mais forte, não vêem? - Geba desabafa. Os outros se olham, começam a pensar. Tudo parece fazer sentido. Por que mudariam as cores tão repentinamente? Além do que sentiram ser quase igual a quando eles vestiram tais armaduras, elas brilham mais agora.
- Não vão não? - Geba pergunta. A demora já era grande e eles partem prontamente.
- Como estará Uryef?
- Não sei, mas acho que não cruzamos nem metade do caminho. Volta e veia e... - Algio é interrompido pela formação de uma nova arena. Eles começam a se preocupar de verdade. Parece que elas não param.
No meio da nova arena a luz da Lua - que se mostra tão linda e brilhante nesta noite - ilumina um ser humanóide feito de madeira seca. Um bicho-pau humano. Sem uma palavra, Geba parte, golpeando-o várias vezes e sendo golpeado outras tantas.
Lob parece estranho desde as evoluções. Ele se senta, deixando a espada de lado e grita: "Afastem-se!". Sem entender de quem ele quer que se afastem, os três saltam pra longe de Lob e da criatura, enquanto se perguntam: "O que ele pretende?".
Os três vêem, surpresos, uma pequena chama no pé direito do ser.
- É o seu fim, homem-graveto! - Cristian grita enquanto o corpo do inimigo inflama. Ele foge pela floresta, deixando para trás os quatro heróis e a arena vazia, que agora começa a se fechar.
Em meio à surpresa e alegria, os três espectadores vêem Lob cair, apoiando-se sobre o próprio joelho.
- Lob! Que houve?
- Nada. Só... - Ele cai.
- Não dá pra confiar em magia. - Geba resmunga, enquanto ajuda a erguer seu amigo.
O temor, naquele instante, é de que a singela magia executada por Lob tenha pedido em troca a vida do bravo guerreiro. Quando o erguem, notam que não se chegou a tal ponto. entretanto, Lob parece praticamente sem forças para se manter de pé.
- O que houve com você, amigo? Por que foste fazer aquilo?
- Bem, vamos embora logo. Uryef deve saber o que fazer por Lob.
- Você sabe o caminho de volta, Cristian?
- Tem razão, amigo. Perdoe-me, Lob. Esperaremos que te recuperes.
Com a cabeça, Lob responde que não. Ergue, com nítida dificuldade, seu braço, para indicar um sentido.
- Tudo bem, se é sua vontade, nós vamos partir.
- Eu o levo. - Geba faz seu parceiro passar o braço sobre seu ombro, apoiando-o. Só então percebe. - Ei, olhem.
Cristian e Algio se viram e vêem o que Geba descobrira. O brilho. A armadura de Lob brilhava agora com intensidade ligeiramente menor que a das outras. Tornou-se mais fácil notar isso quando Geba o apoiou.
- O que será que isso representa?
- Significa que a gente tem que encontrar Uryef. Vamos. Algio, você vai na frente abrindo o caminho. Geba vai em seguida para que Lob possa guiar Algio. Eu cuido da retaguarda.
- Falou, capitão!
Um leve sorriso surge na face de Cristian. "É... Às vezes eu me excedo um pouco..."
Mas eles partem, agora apressados. Precisam encontrar Uryef para que ajude Lob. A espada de Algio derruba galhos agilmente, enquanto o seu portador toma e segue as direções fornecidas pelo corajoso guerreiro, agora nocauteado.
- Se estivéssemos voltando tão rápido há mais tempo, com certeza teríamos chegado.
- Lembre-se, Cristian, de que a maior parte do nosso atraso se deu por conta de...
As árvores se recolhem para dar lugar a uma clareira. No seu núcleo se encontra uma pequena montanha. Algo em torno de dois metros. Mais para morro que para montanha. Com uma cor alaranjada, escura pela noite.
- Logo agora!
Dois pequenos espaços no morro se movem. De tais pálpebras arenosas se mostram dois olhos, que brilham à luz da Lua, um brilho vermelho.
- Bem, essa é fácil... - Cristian corre em direção ao monstro de areia. Mais uma vez uma idéia lhe ocorreu. Ele se via correndo em direção ao ser, num giro corporal golpeando um olho do monstro, mais um giro e golpeando o outro. O monstro se contorcia de dor...
Fora de seus pensamentos, Cristian se aproximava rapidamente da criatura. Gira o corpo e, quando prestes a golpeá-la com o bastão...
- Cristian!
Levantando areia, o monstro revela um tentáculo, e atinge Cristian com ele. Como uma brasa se encontra a um jato d'água, Cristian cai bem próximo do inimigo. Sua armadura brilha menos agora.
- Maldita a-reia... - Ele bem tenta se levantar, mas cai logo em seguida. Seu corpo inteiro dói. Havia algo no monstro e Cristian sabe disso. Agora tudo começa a ficar escuro...
- Droga!
- Não, Geba!
Não adianta. Geba correu para perto do monstro. Sem arma, pois sua lança havia quebrado na outra luta. Da mesma forma que fez com Cristian, o estranho ser dispara o mesmo tentáculo para derrubar Geba. Este, entretanto, ao invés de cair, apóia-se de pé com toda a força e segura o membro agressor. Ele sente o que há no monstro - veneno ou algo assim - mas não pode parar. Com toda a determinação, Geba abraça o tentáculo. Sua armadura parece enfraquecer, mas ele já chegou até aqui e não há de desistir.
- Geba! - o pavor tenta se apoderar de Algio. Ele se imagina sozinho, responsável por seus três colegas, nesta floresta maligna.
Mas Geba continua a abraçar, com força, o tentáculo do monstro de areia, e este aparenta estar incomodado com o ataque constritivo. Não demora muito para que puxe de volta o membro, a quase derrubar Geba. Logo em seguida, a criatura sai. Parecia um aracnídeo. Debaixo dela saíram patas pretas, como as de um inseto. Geba suspira, acompanhado por Algio.
- A situação está cada vez pior...
- Vamos logo.
- Claro.
Eles partem, Algio leva Lob enquanto Geba guia Cristian. Abrindo caminho entre as árvores, eles avançam, temendo um novo oponente na arena instantânea que essa floresta tem mania de criar. Mas já podem ver que é o fim da floresta.
- Chegamos. Rá! - um último galho é cortado e Algio já pode avistar Uryef. Este se encontra de costas, a cerca de vinte passos, sentado no chão como que a meditar.
- Uryef! - De repente algo inusitado acontece.
Os dois mal saíam da floresta, carregando seus amigos. Uma canção suave toca. São vibrações, como chiados harmoniosos. Eles preenchem o silêncio sobrenatural que provém da floresta. Algio ergue a cabeça e olha pra cima para contemplar um leque incrível de cores ondulando o céu. Cores que variam do vermelho ao violeta e dançam no céu a canção misteriosa. Logo notam, os dois guerreiros, que não vêm do céu tal canção. Não vem de lugar algum. Eles olham para a frente e vêem uma neblina se deitando por toda a região alta até a entrada da floresta. É uma neblina, mas... viva! Quase como gás inflamando, mas não queima nada com suas cores quentes.
A magnífica cena abafa o ímpeto de perguntar infantilmente "o que está acontecendo?". Não há coragem que ouse romper tão bela música, a qual até os céus e a neblina veneram. Eles esfregam os olhos. Sim, o grande mago do fogo está flutuando!!! Uma explosão muda, de ventos, derruba os dois guerreiros. E eles notam que já haviam largado os seus amigos ao amparo do chão.
Sentando-se, eles vêem os segundos finais: uma coluna de fogo surge envolvendo Uryef, erguendo-se em seguida até o infinito. A coluna some e, com ela, o maior mago de toda Kairot. No topo da coluna, que termina de se dissolver, junto com a música, as cores no céu e a neblina, brilha uma estrela. Vermelha e magnífica, ofusca o brilho das estrelas vizinhas.
- É o mago...
- Sim, Geba... Ele se foi...
- Não. O fogo o levou! E ele esperava por isso.
- Que queres dizer...
- Não percebes? Foi a prova maior de amor, do Fogo para Uryef!
- Não pode ser...
- Mas é! E... Droga! E Lob!?! E Cristian!?!
Eles olham ao seu redor e encontram os corpos dos dois mencionados: estão caídos no chão.
- Droga! Como vamos voltar? - Algio se levanta.
- Calma, amigo. Cuidemos de Cristian e Lob.
- Não! Ele nos deixou à morte!
Algio corre em direção ao penhasco que cai para o mar.
- Algio! Se você pular eu te mato!
Algio pára. Deixa passar alguns minutos como se estivesse a meditar. De repente começa a rir.
- Que foi? - Geba pergunta, com um leve sorriso.
- Olha só pra nós dois! Que papel ridículo... Espere!
- Quê?
- Olha! Era aqui que estava aquele raio de fogo que levou Uryef?
- Acho que sim. E daí? - Erguendo Cristian e Lob, Geba se aproxima.
- Ele nos deixou essa mensagem.
"Vocês são realmente os escolhidos: os deuses não erram. Não se preocupem comigo. Estarei bem. Viram aquela estrela? Lá estarei eu, sempre olhando por vocês."
- Você está ouvindo isso?
- Droga, estou!
Um forte zumbido vem da floresta, e os dois se colocam de pé diante dos caídos Cristian e Lob. De arma na mão - Algio - e preparando os punhos - Geba - esperam o iminente perigo.





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