Parte 4

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Os problemas são inúmeros... Na verdade, são poucos - apenas dois -, mas são apenas dois aptos a lutar, na obrigação de defender seus amigos. O outro problema é: como vão voltar ao continente? Vieram com Uryef, mas eis que este sumiu de repente, e se tornou uma estrela. Os heróis talvez se sentissem traídos, abandonados à própria sorte, não fosse a presença de algo na floresta. Algo vem de lá, rápido. O zumbido é forte e só tem aumentado. A testa de Geba começa a suar diante da preocupação. Ele se mostra mais preocupado que Algio porque este tem se mostrado um tanto instável ultimamente, e maior que o medo do inimigo é o medo de repentinamente seu amigo cometer alguma loucura. E Geba está desarmado.

Geba então se lembra de um importante detalhe: Cristian tinha um bastão. Ele passa a procurar com os olhos a arma, mas não há arma alguma. A espada de Lob também sumira. É uma pena, pois um bastão é quase uma lança...

Mas não se pode pensar mais nisso. O zumbido está muito alto, e se espera que os inimigos apareçam a qualquer momento. As mentes heróicas imaginam, pelo zumbido forte, abelhas ou gafanhotos gigantes, mas não é exatamente o que recebem.

Olhos ressurgem da floresta. Olhos verdes e os guerreiros se olham por um instante, para confirmarem a impressão da cena. Os tais olhos a brilhar permanecem pouco mais alto que a altura dos olhos humanos. O primeiro deles sai. É um ser humanóide e bem mais alto que um humano, com cabeça quadrada e tão chata quanto uma tábua de mobília, inclinada para trás. Seu corpo, inteiro, é formado de forma estranha, por partes chatas, como um monstro feito em papel, obra de origami. Não tem asas, mas suas orelhas são pontudas. Seu corpo alaranjado, meio bege, parece ser formado tão somente por retas. Provavelmente essa estranha criatura utiliza os zumbidos para se comunicar. ...ou há mais de um tipo de inimigo.

- De onde você saiu?

Ele parte em direção ao grupo e Algio se prepara. Logo o adversário lhe chega para receber alguns golpes. Das regiões cortadas irradia uma luz verde do corpo do caído oponente. Algio gira a espada, pondo-se em posição de combate, virando a cabeça em chamado. Uma provocação muda sob uns zumbidos como em discussão. Geba apenas assiste, preocupado e atento.

Uma dúzia de bichos iguais ao anterior deixa a floresta em velocidade, contra a resistência que os dois guerreiros fizeram. Eles os encontram e tem início nova batalha.

Algio encara seus adversários em número com naturalidade. Geba, desarmado, tem que se valer de suas habilidades extras, usando os punhos e alguns chutes ele enfrenta sua metade de seres.

Mestre Fuolha lhes falara: devemos estar prontos para imprevistos. Eles treinavam sem armas algumas poucas vezes, mas mesmo com pouco treino, como Geba passa a descobrir, aquelas horas foram de grande valia.

Reafirmando seu valor, os guerreiros vencem seus inimigos. Mas há ainda zumbidos vindo da floresta. Talvez mais do que antes. Geba e Algio se olham e aos dois caídos a quem fazem guarda. Os zumbidos aumentaram ainda mais. Agora, se eles atacarem...

Repentinamente os dois sentem o que sentiram antes, pela terceira vez. Caem com uma sensação de queima nos metais. Tudo fica escuro. Apenas para que, quando abrissem os olhos, eles pudessem contemplar, os quatro, as armaduras irradiando um brilho amarelo.

- O que... - Sim, eram mesmo os quatro, ali de pé.

- Nunca estive melhor. - Comenta Cristian. - Onde está meu bastão?

- Na floresta. - Geba responde, tentando colocar um ponto final.

- Mas... Tudo bem, é até melhor assim, sabia? Agora eu poderei lhe ensinar algumas técnicas...

- Não a mim...

- Algio! Ainda tens tua arma? É uma pena, mas... Essas armaduras fazem um zumbido estranho, não?

- Oh, não! - Só agora Geba e Algio se lembram dos seres que os vigiam da floresta. Eles se voltam rapidamente para aquela direção, ficando de costas para o mar infinito que os separa do continente. O esperado instante acontece. As criaturas tão estranhas deixam a floresta como um bando de ratos famintos.

Fome... Eis uma situação interessante. Por que eles atacam? Geralmente se ataca por fome ou medo. Se houvesse medo, o mais esperado era que fugissem, já que havia excelentes condições para isso. Quanto à fome, os monstros nem pareciam ter boca! Mesmo com essa cabida pergunta pairando no ar os heróis lutam. E se saem bem contra seus adversários tão estranhos, que não param de sair dentre as árvores.

Lob se concentra em algo que nenhum de seus companheiros vê. Algo sobrenatural, o fogo talvez, mas em sua mais sublime forma. Golpeando com seu braço, fazendo com a mão um gesto estranho, ele faz se fazer uma bola de fogo, que segue derrubando todos os inimigos que encontra no caminho até a floresta. Termina por incendiar as árvores mais externas.

Nota-se que certa insegurança percorre o grupo. Claro, pois eles não esqueceram o fato ocorrido pouco antes de encontrarem a saída para aquele inferno verde. Nos monstros alaranjados que a bola de fogo atinge, pode-se ver pequenas chamas a queimar sobre eles. Chamas verdes originadas pela bola de fogo avermelhada. Elas liberam um odor quase insuportável.

- Lob?

- Estou bem.

Sua armadura mantém o mesmo brilho de antes, e os monstros começam a se olhar e fazer daqueles ruídos estranhos. De brusco eles correm de volta à floresta, esbarrando com outros, da mesma espécie, que já vinham em sentido contrário. Estes se mostram confusos, pouco antes de correrem de volta ao seu nicho, junto com seus aliados.

- Vão brincar com fogo! - Cristian olha um pouco a floresta, voltando-se depois para os companheiros. - Alguém pode me dizer o que está havendo?

- Quando chegamos, Uryef estava ali. Então, uma ne...

- Uryef se foi.

- Como!?!

- Eu ia chegar nesse ponto, mas Geba cortou caminho... Ele se foi mesmo. Estás vendo aquela estrela?

- Aquela de brilho intenso?

- Ela mesmo. É Uryef.

Algio explica toda a história, narrando a cena que Cristian e Lob não assistiram. Eles caminham com serenidade até a beira do penhasco. De lá, eles contemplam o imenso oceano, iluminado por uma cintilante Lua e pelas estrelas, comandadas por Uryef.

- Como a gente volta?

- Não sei, Cristian... Não sei.

- Como vocês estão se sentindo?

- De que falas?

- Não sei quanto a vocês, mas eu estou me sentindo um tanto estranho... Acho que é essa ilha.

Lob abandona o grupo, indo em direção à floresta. Ao alcançar as criaturas contra as quais há pouco travaram combate, as que foram derrotadas e ali mesmo pereceram, ele se abaixa. É verde a luz irradiada por sues ferimentos, embora esteja mais fraca que antes. Nada sabem eles sobre os monstros de tabletes, mas é como se tivessem luz como sangue...

Enquanto Lob contempla os corpos jogados de seus últimos adversários, Algio se encontra sentado nos enormes rochedos, a admirar a paisagem. Por sua mente passam as imagens dos combates que ocorreram na floresta, na forma de um maluco e desordenado flashback.

Cristian e Geba, ainda de pé, vêem os dois distantes e igualmente distraídos. Com um olhar Geba mostra que teme o mesmo que Cristian.

- Vai demorar.

Dois extremos. Lob se aprofunda cada vez mais na floresta. Enquanto vê o corpo inerte daquela estranha criatura, sua mente imagina quantas e quão diversas outras hão de existir nesse lugar inabitável.

Agora Algio atravessa o imenso mar para se ver no continente. Ele vê aquelas pessoas alegres caminhando nas cidades, sempre felizes, quase dançando. As crianças a brincar nas ruas, pessoas trabalhando a cantar seus hinos. Ele vê todo o feliz movimento e, do outro lado, dois olhos frios a observar tudo.

Cristian sabe bem o que ocorreu, o sufoco que todos viveram, as lutas, as perdas... Por isso, ao invés de interromper os pensamentos dos seus amigos, também guerreiros e também abalados, o guerreiro se senta e começa a pensar em uma forma de saírem de lá. Da tal ilha tão distante de seus mundos, de seus objetivos, deles mesmos.

"Nadar está totalmente fora de questão. Nós mal nadamos e, além do mais, o que poderemos encontrar no caminho? Não... Podíamos fazer algo que não afundasse, mas... Esquece, é impossível... Poderíamos usar nosso poder mágico para evaporar todo o oceano! Daí bastaria corrermos. Não é uma idéia magnífica? Pena não sermos magos de verdade, só Uryef conseguiria fazer isso... Por que ele se foi?"

- Estou com fome. Vamos comer alguma coisa.

- Mas Geba? Nós já comemos!

- Faz tempo. Ainda estava anoitecendo. Agora é noite andada.

- Tens razão. Lob, Algio? Cuidado!

Um ensurdecedor estrondo arremessa algumas árvores inteiras a alguns metros e faz surgir, de dentro da floresta, um ser desconhecido por todos os quatro. De quatro patas, com um couro grosso e quase preto. Seus olhos mostram fúria e seu nariz termina em um cume aparentemente perigoso. Lob vira a cabeça: em menos de um segundo já entende tudo o que se passa. Lob sim, mas Algio continua distraído. O ser se coloca em posição de ataque.

Com um olhar Geba percebe. Lob já saltou de lado, desviando o corpo do caminho do monstro, que mais parece um inseto que cresceu demais. O monstro vem com velocidade. Cristian já deixou o lugar em direção a Algio. Enquanto Geba é derrubado por tentar impedir o avanço do repentino inimigo, Cristian alcança Algio. Aos gritos que, junto ao barulho da fera tornam a cena muda, ele tenta mostrar ao distraído herói que...

- Cuidado!

- Cristian!

É tarde. O monstro os alcançou. Com um empurrão Cristian conseguiu garantir a segurança de Algio, mas o chifre o atinge, com todo o corpo da fera, que vinha tão veloz que seria impossível parar e se salvar do precipício.

O que ocorre, então, é que os dois caem n'água. Aquele monstro enorme - pouco mais alto que um humano mediano, porém quadrúpede. Os três outros guerreiros correm para perto da queda. Só se vê os lugares onde caíram: nada deles dois.

- Por aqui! - Geba aponta para uma região de menos difícil descida. Os três seguem com pressa pelo caminho indicado. Com alguma dificuldade, afinal não era uma escada, eles chegam a uma praia repleta de pedras, que brilham fracamente à luz da Lua, adquirindo um tom quase igualmente brilhante. Quase devido aos musgos, que as tornam também um tanto escorregadias.

Caindo, ou quase, algumas vezes, eles chegam a um ponto onde resolvem parar. De lá procuram ver os dois que caíram, ou só Cristian. O importante era encontrarem seu companheiro, mas não havia sinal de nenhum dos dois. Somente viam ondas que quebravam um pouco adiante, de cujas águas vinham encontrar-lhes os pés. As espumas são muitas mas, dentre tanto branco na água eles notam algo que não é natural. No mínimo, não era esperado. Algumas bolhas na água, pocando como se algo fervesse em pleno mar. Repentinamente - palavra esta muito mais longa que sua mensagem -, a água explode num arremesso. O tal monstro voa alguns metros, enquanto se contorce violentamente, talvez de dor, talvez de pavor por estar nas alturas, como acontece com os quadrúpedes em geral.

Ele cai no mesmo rochedo de onde saltara empurrando Cristian. Não se move mais. Quando a água parece prestes a normalizar, eis que ressurge o guerreiro.

- Toma! Seu nariz de chifre! - Sua aparência é péssima. Sem fala, os três vêem-no começar a nadar em direção à praia de pedras. Assim que percebe que ele não conseguirá alcançá-los, Algio salta em resgate. Em algum tempo, os dois estão de volta.

- Cristian?

- Eu... Estou bem. - Sua armadura diminuíra o brilho.

- Algio?

- O contato com a água me enfraqueceu bastante.

- Como? O que dizes?

- É isso mesmo que ouviste. Sinceramente, Cristian, como conseguiste ficar submerso tanto tempo?

Num sorriso orgulhoso sob aquelas dores que sentia, Cristian mostrava como aquilo lhe tocara. Sentia-se feliz por ser genial.

- Somos guerreiros do fogo, não?

- Como?

- Para nós, nada é impossível.

- Não és claro.

- Usei o poder do fogo pra me afastar da água. Fui o bastante agora? Olhem: nosso transporte chegou.

Cristian aponta para cima. Durante todo o tempo se manteve sentado. Os três olham o que ele vira: três novas criaturas apareciam voando.

Eram compridos, com seis patas e quatro asas finas e estreitas. Eram mais ou menos como larvas voadoras. Não se pode ver muito bem, quão rápido vinham, mas seus olhos pareciam ser verdes, combinando com os seus corpos, que tinham o aspecto de troncos ressecados. Insetos grandes, estimaria em dois metros. Eles voam. Em um segundo Algio, Lob e Geba se olham. Geba procura pedras enquanto algio e Lob escalam o lugar. Geba dispara pedras contra as criaturas voadoras, e elas aceitam o desafio.

- Geba! Não as machuque!

E ele se vê atacado por três monstrinhos. Com o tempo ele descobre que nem tanto. Os únicos modos de ataque utilizados por eles são o de se jogar tentando uma cabeçada e com as patas finas. Nada tão difícil, para alguém como Geba, resistir a esses ataques.

Enquanto isso, Algio e Lob alcançam o alto. Lá encontram o animal abatido por Cristian. A uma certa distância do ser, porém perto da queda, eles olham Geba sendo atacado e tendo que defender Cristian.

- Vamos logo com isso! - Geba grita ao perceber que já chegaram.

- Algio... - Lob toca seu ombro enquanto aponta a floresta.

- Oh, não...

Geba olha pra cima e vê que não pularam, ao contrário, recuaram. Resmungando ele tenta imaginar o que está acontecendo. Mais problemas, nem mais, nem menos.

- Cristian!

- Oi! Estou me sentindo fraco mas consigo ficar de pé.

Ele caminha um pouco em direção às pedras, mas é atacado pelas costas por um daqueles seres alados e cai, apoiando-se sobre o braço.

- O que falta agora?! - o céu começa a escurecer. As nuvens cobrem a luz da Lua, filtrando e a reduzindo a poucos raios.

Cristian espera por algum tempo novo ataque, mas não vem. Então ele se arrasta sobre as pedras escorregadias até alcançar a parede. Lá ele se encosta e fica a ver a cena. Geba se vira contra as três borboletas gigantes.

"Queria poder ajudar, mas mal consigo me locomover... O que ele está fazendo!?"

Em meio às trevas repentinas, pode-se ver a luz que emana da armadura de Geba, e tudo o que há por perto. E Cristian, com sua armadura em brilho reduzido, vê seu amigo tentando pegar um desses insetos. O espectador percebe o que o parceiro vai tentar, afinal a idéia foi sua. Ele vai tentar montar a criatura.

Enquanto isso, lá em cima...

- É ele mesmo?

- Sim, é ele.

- ...tarturaço...

Aquela estranha criatura reaparecia diante deles. Perto do "nariz de chifre" parece bem mais forte, mesmo sendo um pouco menor. Ela está lá, caminhando com passos curtos e confiantes de suas patas de cavalo e sapo. Num urro deixa claro a que veio: quer vingança.

- Então é no pescoço... Vamos até ele ou ficamos perto demais desse abismo...

- Concordo.

A luz verde da Lua ilumina um urro assustador, que sai de um jacaré com corpo de tartaruga e reafirma o silêncio da floresta.

Geba e Cristian ouvem o berro de onde estão, próximo ao mar. O guerreiro reservado finalmente consegue pegar um dos "transportes", os outros fogem só de ouvirem o grito do monstro misturado.

- Aagh! - Geba cai do bicho, que parte para se juntar ao grupo, que se afasta rápido.

- Geba! Que houve!

- Isso queima!

- Aquele bichinho?

- É, aquilo!

- Não pode ser, nem o fogo nos queima!

- Mas o "bichinho" queimou.

- Deve ser outra coisa. Sei lá, ácido...

- Ácido, fogo, pra mim é tudo a mesma coisa, e lembre que a idéia foi sua.

- É, eu lembro sim... Como estás depois do... Fogo, ou ácido?

- Sinto-me como antes.

- Não prejudicou em nada?

- Não. Como antes dessa armadura! Agora, licença que vou ajudar Algio e Lob que seu amigo voltou e você só sabe dar palpite errado.

- Desculpa, tá? Eu não sabia que aquela tripa com asas queimava o fogo. Se eu estivesse bem, "eu" teria tentado.

Geba já não dá mais atenção às desculpas de Cristian. Seu jeito convencido e tagarela sempre o incomodou. Não que estivesse com raiva de Cristian, ou que já houvessem brigado alguma vez, mas tal inafinidade dava margem a essas discussões. Escalando o caminho já escalado pelos outros dois, Geba chega e vê a cena. Lob e Algio lutam com fúria, mas parecem apanhar mais do que bater.

As nuvens descobrem a Lua, que passa a iluminar com maior clareza o corpo da bizarra criatura e seu olhar de morte. Geba corre em direção a ela, mas o ser não se deixa pegar de surpresa. Voltando-se para o terceiro lutador com quase a mesma velocidade com que este vinha, o Tarturaço - nome dado por Cristian no outro encontro - morde o agressor. Felizmente, Geba sofre alguns cortes apenas, devido à armadura.

Aproveitando a ocasião, Algio se aproxima rapidamente por trás do ser. Seu objetivo é chegar ao pescoço: já conhecido ponto fraco. Mas seu plano é frustrado por um coice violento de enormes patas de sapo. Algio é arremessado para a entrada da floresta.

"Por que está tão difícil agora? Sem essas armaduras, Cristian havia dado o último golpe, e ferido. Vencemos sem elas. Agora, com elas, não conseguimos mais. Será que Cristian faz tanta falta assim à equipe? As armaduras não são o problema... Eu, pessoalmente, sinto-me mais forte com ela... Ah, Uryef! Se estivesses aqui saberias o que fazer... Não o conhecemos por muito tempo, mas além disso ouvimos as lendas a seu respeito... Mestre Fuolha... Que conselho havia de nos dar nessa hora?"

Algio se levanta e volta ao combate.

- O fogo!

- Que tem o fogo, Lob?

- Agora que estamos sem armas, não somos nada sem o fogo.

- E como se faz?

- Basta senti-lo fluir por seu corpo!

Algio se concentra um pouco. Em algumas pessoas, lugares e, finalmente, tenta visualizar o fogo. Feito isso ele pensa na espada e a vê em chamas. Chamas amarelas como o brilho de sua armadura.

- Tarturaço! Isso é por Cristian! Por Lob! Por Geba! Por mim! Por quem mais quer que seja!

Ele parte contra o monstro. E agora a luta parece equilibrada.

- Geba, consegue acertar uma pedra?

- Onde?

- No casco daquilo.

- Claro!

- Digo, dentro.

- Não sei. Talvez. - Geba pega uma pedra.

- Espere... Agora!

No instante em que Geba arremessa a pedra, ela vira uma bola de fogo pela influência de Lob. Com sorte, ela acerta precisamente o lugar desejado. O ser híbrido se contorce e salta, rodopiando, enquanto Algio fita os dois colegas com ar de reprovação. Não conseguindo se livrar da dor, o Tarturaço salta tentando alcançar a floresta. Tamanho é o desespero que demora pra se aproximar dela, e cai. Seu suspiro termina antes que consiga tocar as plantas da floresta viva uma derradeira vez.

- Por que fizeram isso? - Algio pergunta à dupla. Parece furioso e o gume de sua espada, ainda em chamas, adquire coloração vermelha.

Geba e Lob se olham um pouco, até que Lob encontra uma resposta.

- Pra você se livrar mais rápido daquele bicho. Não temos muito tempo a perder.

Após visá-los por um tempo mais, Algio finalmente se conforma. Sua espada volta ao estado normal.

- E como vamos?

- Não sei, mas temos que nos alimentar. Certo, Geba? - Geba confirma com a cabeça.

- Certo.

- Sobrou muito daqueles tigres?

- Não, mas tem aquele outro bicho que matamos há pouco.

- Certo, e cadê Cristian?

Os três se dirigem à beira dos rochedos e de lá avistam seu aliado, encostado nas pedras, sentado a atirar detritos ao mar.

- Pensei que não se importassem...

- Não te preocupes. Vamos resgatá-lo. Lob?

Algio e Lob descem pelo mesmo caminho enquanto Geba toca as tábuas secas e, no mesmo instante em que elas pegam fogo, os quatro, embora não juntos, sentem o corpo formigar. Não caem, como das outras vezes, mas sabem o que está havendo. É uma nova mudança em seus artefatos mágicos. Eles abrem os olhos e vêem o novo brilho branco de suas armaduras.

- Era isso! Faltava a última evolução! Agora podemos partir!

- E o jantar?

- Tens razão... Será uma viagem longa.

- Pareces já saber exatamente o que fazer, Cristian...

- Tenho uma idéia. Vamos comer e depois eu conto.

Os três sobem novamente. Cristian já está bom e ninguém tocou no assunto. Já haviam se habituado ao fato de que, depois de uma evolução espontânea por parte das armaduras, quem estava mal fica em bom estado. É como se tal evento resgatasse as forças.

Chegando ao topo, encontram Geba. Está feliz - vê-se claramente - atrás da fogueira.

- O que houve? Por que ri tanto?

- Fui eu.

- Parabens! Você fez a fogueira! Ora, vamos...

- Não! Eu fiz as armaduras mudarem de cor.

- Como?

- É! Foi quando eu consegui fazer fogo mágico que a minha ficou branca!

- Mas, como pode?

- Cristian, até o momento Geba não havia usado as forças do fogo e...

- Você também não!

- Eu usei na luta contra ele.

- Olha só! É ele mesmo! O Tarturaço apareceu de novo e nem me chamaram?

- Demos um jeito... - Algio olha Lob, como se estivesse decepcionado. - Quanto a Geba, acho que a mágica tinha potência na armadura dele e, quando ele usou, liberou essa força e fez todas as armaduras se transformarem. Que achas?

- Muito interessante, amigo. Estás aprendendo. Entretanto, discordo. Acho que as armaduras estavam esperando que nós tivéssemos experiência com o fogo mágico pra evoluírem. Quando ele usou - e só faltava mesmo o Geba -, puf!

- Vamos comer?

- Não, Cristian, ainda acho que...

- Vocês dois, temos pouco tempo!

- ...liberado quando Geba...

- Calem a boca! Parem de discutir com a mesma opinião e vamos comer!

- Não é a mesma opinião, Geba!

- Pra mim é.

- Você não difere uma árvore de um... bicho!

- Quem não difere é o besta do teu amigo aí.

- Parem todos os três! - Mais uma vez se mostra necessária a intervenção de Lob.

Então eles quatro se acalmam, sentam-se e começam a refeição que antecederá sua partida. Era objetivo deles começar com os restos do felino, mas resolveram provar antes da carne do animal derrubado por Cristian. Notando ser a carne deste mais apreciável que a daquele, os quatro a esqueceram e fizeram a refeição somente com o "nariz-de-chifre".

- Interessante, não?

- O que que é interessante?

- Estamos aqui esse tempo todo e ninguém nos apareceu...

- Já está amanhecendo, não vês Cristian?

- É verdade, Lob! Eu também não havia percebido! Essas armaduras tornam nossa vista pouco sensível à luz.

- Que dizes?

- Outra discussão, não. Por favor...

- Tudo bem...

- Cristian, agora podes nos dizer qual o teu plano brilhante?

- Todos nós já sabemos usar o fogo. Vamos voando!

- Como! Estás louco?

- Nós não podemos voar!

- Calma. Voamos baixo.

- E se cairmos?

- O que mais podemos fazer pra deixar a ilha?

- Isso é loucura!

- Talvez, mas nós não temos escolha. Alguém tem outra idéia?

Os três se olham assustados. O único plano pra deixar Caji é talvez um plano suicida. Mas é de fato o único e eles se assustam mais, cada um torcendo para que alguém descubra uma outra saída enquanto tenta também encontrá-la.

- Foi o que pensei. Vamos, então. - Cristian caminha até bem perto do canto onde acaba o chão. De lá se pode ver o mar e o céu, quase azuis nesse amanhecer. - Vamos!

Lob respira fundo e caminha para o lado direito de Cristian. Mesmo que algo lhe diga que não há o que temer, por mais que lhe diga isso, Lob não consegue ficar tranqüilo, mas tem que ir.

Pouco depois é a vez de Algio optar por segui-los. E ele caminha até se posicionar à esquerda de Cristian. Mesmo receoso ainda, ele confia na esperteza de Cristian e nos instintos de Lob. Se os dois estão juntos, deve ser esse mesmo o caminho.

O tempo passa e Geba continua parado. Ele sempre temeu a magia. Simplesmente não confia nela. Há pouco tempo conseguiu sua primeira conquista nessa área, que foi diante dos galhos secos que acendeu. Seu coração não quer se entregar a uma força tão estranha e... indomável!

- Não quer ir?

Ele não responde. Já está quase certo quanto à resolução que tomou. Cala-se por ser tão vergonhoso para um guerreiro expor seus medos. Ao invés de falar, portanto, vira as costas e passa a ver a floresta.

Os três se olham, preocupados.

- Geba, amigo, sei o que estou fazendo. Não confias em mim? - Ele encara Cristian, com ar de "e daí?". Algio se aproxima.

- Vamos lá, Geba. Não há outro caminho. ...além do mais, não o deixaremos aqui abandonado. - Algio se abaixa próximo a ele e Geba coloca a mão em seu ombro. Olha-o e alguma coragem parece surgir de dentro de seu peito, mas o orgulho a afasta mais uma vez. Ele baixa a cabeça.

- Geba... - agora é Lob quem fala, e o ícone de força não encontra força em si para encarar o terceiro amigo. Não por ser quem é, este terceiro, mas por ter encarado dois e gasto suas forças. - Geba... Sei que tens medo, mas não te esqueças, meu amigo, que todos nós convivemos juntos desde muito tempo. Somos muito parecidos e compartilhamos desse medo que tens. Como pudeste te esquecer que somos humanos? Temos medo também e não precisas ter vergonha disso.

Geba ergue o rosto e o encara. Todos estão um tanto surpresos, afinal, não é do feitio de Lob falar tanto, mas falara muito bem.

- Mas... É diferente! Vocês podem ter medo, mas não se importam com ele. Eu... não consigo...

- Você sabe o que está havendo? - Cristian toma parte da conversa.

- O quê?

- Nós fomos escolhidos. Nós! Dentre tantos outros, exatamente nós! Nós fomos escolhidos por forças acima da nossa compreensão. Fomos escolhidos para algo grande! Você não vê? É como se tudo fosse um sonho! É só você se entregar às forças que tentam nos jogar no caminho do Monstro.

- Belo discurso, mas...

- Não desista! Iremos juntos, afinal, somos uma equipe. Vamos todos de mãos dadas.

Geba, juntamente com Algio e Lob, ri da infantilidade da idéia, mas no fim acaba gostando e decide tentar, pois é sua vida pela de toda Kairot. Caso fique ali, morrerá. Melhor morrer lutando que morrer parado.

- Tudo bem, você me convenceu. Vamos lá.

Os quatro caminham até o penúltimo passo. Geba, ainda um pouco receoso, mas feliz e disposto a acompanhá-los; Lob, esperando apenas o instante; Cristian, confiante e a alguns segundos de seu grito; e Algio fitando distraidamente o horizonte, ele que é o único que ainda traz consigo a arma.

Os quatro, dentro de suas armaduras brancas e tão brilhantes, dão-se as mãos. Um suspiro final.

- Agora!

Os quatro saltam para deixar a ilha que, tanto por seus monstros como por si só, fôra sua inimiga por tantas horas. Eles saltam, deixando as pedras que sustentam uma floresta tão singular. Vão na esperança de fazer da magia suas asas de fogo, o que os levará ao continente. Vão, e uma estrela do céu os abençoa.


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