Como aves, os quatro guerreiros do fogo abraçam o céu. Cristian grita "Fogo!", mas da mensagem resumida todos entendem "Concentrem-se no fogo! Façam suas armaduras explodirem em chamas!" Começam a cair quando Lob e Cristian atingem o que queriam. Suas armaduras inflamam e eles parecem tochas queimando horizontalmente. Mas isso não basta, eles continuam caindo. Algio consegue, muito perto das águas, sua propulsão, mas eles caem mesmo. Por um instante Cristian pensa "Que idéia estúpida! Vou acabar matando a nós todos!", mas logo vê o que está havendo. Voar eles não voam, mas não afundam. Suas armaduras evaporam a água e os impulsionam para a frente. Ou seja, eles vão numa espécie de semi-vôo. Exceto um deles.
- Aaagh! - Geba, segurando firmemente a mão de Lob, desliza sobre a água, já que sua armadura é a única que ainda não inflamou.
- Geba! Resista!
- Concentre-se no fogo!
- Não consigo! Aaargh!
- Solta-me, Cristian. - Algio tentava se libertar do grupo. Cristian, preocupado com Geba, não percebera, até ser avisado formalmente. Então, ele o solta.
Algio reduz um pouco a velocidade e se desloca em direção ao seu amigo que se choca constantemente com as águas. Passa por trás de Cristian, de...
- Geba!
Ele simplesmente caiu!
- Não pude segurá-lo!
- Vamos voltar!
- Sabe como?
- Damos um jeito! Não podemos deixá-lo!
Lob fecha os olhos e baixa a cabeça. Eles percebem exatamente o que está acontecendo: Geba se foi. E é impossível encontrá-lo. Uma verdade dolorosa que não precisa ser dita.
Algio se aproxima de Lob. Os três estão um pouco mais devagar que antes, mas suas armaduras ainda evaporam a água antes que esta os toque, conferindo-lhes uma velocidade incrível.
- Não acredito no que estamos fazendo!
Algio tenta se afastar, mas Cristian lhe prende o braço.
- Não podes ir.
- Por que não? Devo deixar Geba?
- Qualquer de nós que pare será engolido pelo mar.
- Não importa!
- Ainda não sabemos controlar esse... esse vôo. Além disso não sabemos o quanto nossas armaduras vão resistir. Lembra que essa tal magia gasta?
Algio olha para trás e vê apenas uma fumaça branca da água que evaporam. Geba era calado, às vezes desagradável, mas era um excelente amigo... E quanto à sua brutalidade, até que tinha melhorado um pouco. O mais triste é lembrar que ele não queria vir.
- Cristian, vou voltar!
- Não! A vida dos "Guerreiros de Fogo" é mais importante que a de qualquer um de nós.
- E daí? Vou voltar para resgatá-lo. - nesse instante, Algio finalmente consegue se soltar de Cristian.
- Não precisa.
É Geba quem ressurge de trás deles. Sua armadura está em chamas, como a dos três outros.
- Você está bem, Geba? Desculpa não...
- Algio, você é um amigo de verdade. Desculpo sim. Você que é amigo, ao contrário de outros dois...
- Calma, Geba.
- Nós não sabemos nos guiar direito.
- E eu? Sabia o quê?
- Nós quatro poderíamos ter morrido se voltássemos.
- Não. Eu poderia ter morrido. Quatro não, pois seriam quatro.
- Se acontecer algo comigo, algo assim, não quero que voltem.
- Olha que vou lembrar.
Os dois continuam calados Nitidamente se nota que estão arrependidos. Deviam mesmo ter voltado, mas tudo está bem agora. Os quatro estão juntos.
- Geba, bom que estejas bem.
Este responde com um sorriso modesto, tentando vencer, ou esconder, a raiva que sente ainda dos dois que o abandonaram.
- Por que demorou? Digo, foi difícil?
- Tive que beber um bocado de água pra conseguir...
- E nos achar?
- Foi fácil. Vocês deixam esse rastro de fumaça!
O Sol já era visível, alguns passos acima do horizonte. Seu brilho refletia na água, que exibia, orgulhosa e agitada, um branco, um azul e um dourado. Quatro figuras distorcidas voavam baixo a uma velocidade impressionante, deixando um rastro de vapor que, supõe-se, poderia ser visto da Lua. Os mares que cercam Kairot sempre foram relativamente calmos. Raramente se encontrava criaturas realmente perigosas. Isso garantia uma viagem das mais tranqüilas.
O céu se mostra quase que completamente azul. As nuvens à vista são frágeis e poucas, e pouco a pouco o arquipélago de Cagi vai ficando pra trás.
Cristian olha para Lob, este permanece concentrado, guiando o grupo. Mais uma vez ele os guia rumo a um destino ansiado por todos. Seu olhar deixa Lob e volta a fitar o infinito. Buscava uma opinião sobre o que se passara, mas não a alcançou. Embora tenha gostado dos seus argumentos na discussão com Geba, está arrependido e, se aquela cena se repetisse, agiria de forma totalmente diversa. Lob permanece insondável, fixo em seu objetivo.
- Estás melhor?
- Como, Geba?
- Lá na floresta, ficaste meio doido algumas vezes...
- Sei... Estou melhor sim, obrigado.
- Não parece tão bem...
- Não estás com raiva de Cristian e Lob, estás?
- Um pouco, mas vai passar.
- Bom...
- Lembrei o mestre.
- O quê? Aquilo da união que existe entre nós quatro?
- Não, acho que vocês nem lembram... Ele disse uma vez que o perdão pronto incentiva mais erros.
- Por isso te mostraste tão frustrado!
- Não diga a eles...
- Claro que não direi. Geba, amigo, quem te vê tão bruto nem imagina a sabedoria que ocultas.
Sem graça com o elogio, Geba agradece. De repente, Cristian começa a cantar.
É uma canção que fala de uma aldeã que foi engolida pelo mar e todos os dias seu amado se sentava nas areias da praia na esperança de encontrá-la. É uma bela canção popular, que fala de água, mar, conchas, estrelas... Para Algio, só dizia o nome de uma pessoa.
- Cristian, pare! Não devia cantar "essa" música.
Ele se volta para Geba, sério ao lado de Algio.
- Desculpa, Algio. Não queria... - "É a segunda vez que machuco alguém sem querer. Acabei fazendo Algio se lembrar de sua namoradinha com essa canção triste. Será possível! Tudo o que eu faço dá errado!"
Vendo Cristian tão abalado pelas próprias ações, Geba resolve assumir a posição de confiante.
- Algio, não te preocupes! Ela será vingada! Venceremos o monstro!
Ele ergue o rosto para fitar a alegria forçada no rosto de Geba. Ela não é suficiente para lhe extrair um sorriso. Mesmo com o esforço que Geba fez, nem por ter sido ele ao invés de Cristian.
- Não me diga que tem medo de não conseguir...
- Não, tenho medo de vencer.
A afirmação surpreende Geba. Cristian e Lob permanecem sérios lá na frente. Uma lágrima corre pelo rosto do triste guerreiro, e ele começa a cantar a música introduzida por Cristian, com voz lastimosa.
Um guerreiro que luta para resgatar sua amada, prisioneira do inimigo, tem todas as forças do mundo ao seu lado. Há um prêmio maior que tudo no mundo a lhe ser entregue caso vença. Quando a musa é morta, entretanto... A satisfação com a vingança não é um prêmio digno, tampouco vai corrigir as atrocidades movidas pelo inimigo.
Com os olhos inundados de lágrimas, o guerreiro canta. Logo Cristian o acompanha, e depois os outros, no mesmo tom trágico.
Seguem sobrevoando o mar como flechas, o coro tão triste invocando a linda aldeã tragada pelo mar. O mar... O mar dobraria em águas ainda mais salgadas pela compaixão das criaturas d'água. E a aldeã Estrela, dita Estrela do Mar, sorriria sob o próprio choro. Não de alegria, mas de enternecimento. E partiria em busca daquela outra aldeã que provocava tanta dor em quem deixou...
A canção, com seu poder inexplicável, que transcende o da própria magia, lava suas almas. Algo mais que bem-vindo depois daquela floresta.
E até a floresta se comoveria e faria brotar, em seu seio, algumas flores, mas eles já estão muito longe. ...eles chegaram a Kairot.





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