Parte 8

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A sala era espaçosa. Não muito, mas impressionava a quem nunca havia entrado em um bar. A porta de entrada era do tipo que fecha sozinha, sendo mais baixa que a altura da passagem e estando um pouco acima do chão. Ela ficava no meio da parede e oposta ao luxuoso balcão. Nele, três homens bem-vestidos eram garçons. Atrás do balcão, com passagens pelos dois lados, havia os banheiros. Que não seja muito estranho, havia um bom punhado de mesas distribuídas entre o balcão e a porta. Numa delas se reuniam os cinco heróis, digo, os quatro heróis e quem os trouxera.

Em pouco tempo, vieram mais pessoas. Alguns soldados, o estudioso dos céus, umas raparigas que trouxeram...

Geba se divertia zombando da comida que chegava; Cristian, com isso. Até Lob bebia e conversava discretamente com uma jovem que viera.

Mesmo bebendo, Algio não conseguia se alegrar com aquilo.

- Vamos, amigo, festejemos! - Geba tentava animá-lo.

- O quê?

- Ora... - ele pára um pouco e faz uma careta, como se buscasse resposta. - A boa recepção do rei! - e, voltando-se para os outros - Você não soube do macaco.

- Macaco?!

- É, o terrível "macaco luminoso".

- Ha! Ha! Fala sério.

- Cristian falava dele como história de terror e nós pensávamos que era piada.

- Pudera!

- A piada maior é que existia mesmo!

- Ah, conta outra!

- Com licença, tão te chamando ali, Geba.

- É? Quem?

- Itrukrayie.

- Quem é? - Ele se levanta e segue quem o chamou.

Lob já está em uma mesa mais distante, com aquela mesma senhorinha. À mesa do grupo há apenas Cristian, Utho e Algio.

- Ei, Cristian! Olha quem está ali! - Utho fala.

- Quem? - Ele vê a mesa para onde Utho aponta. Três mulheres vulgares acenam. - Com licença, meu amigo, elas querem ter comigo. - Levanta-se.

- Ora! É pra mim que acenam! - Utho se levanta também.

- Ah, mas por que brigamos?

- Tem razão, são bastantes! Vamos lá, então.

- Espera um pouco.

Utho pára já fora da mesa. Cristian chega até Algio e, com uma pancada leve em seu ombro esquerdo, diz:

- Amigo, amigo... O que há de errado?

Algio ergue o olhar distante, sem nada dizer.

- Junte-se a nós! Isso aqui é uma festa, não um enterro! Vê: todos se divertem!

- ...

- Até Lob!

Algio sacode os ombros em resposta, como quem diz: "E daí? Que tenho com isso? Pois que tenha bom proveito!"

- O que queres além de bebida e mulheres?

- ...

- Vem festejar conosco!

- Não posso...

A resposta paralisa Cristian. Até que Utho o puxa pelo ombro.

- Vamos logo, homem. Queres que vão embora?

Algio bebe mais um gole e volta o braço à mesa. No meio da festa alegre, sua mesa é onde bebe triste e sozinho. Distante de tudo e de todos, Algio parece ainda mais distante que Uryef. Tão distante que não percebe as pessoas que esbarram nele às vezes. Nem os olhos azuis celestes do doce rosto que o observou por alguns minutos das portas do bar.

Ao término da noite tão agitada, os cinco hóspedes conhecem seus quartos e, sem cerimônia, vão dormir exaustos. Dormem como pedras, enquanto do lado de fora da mansão ainda havia gente comemorando sua chegada. Haviam se tornado verdadeiras estrelas, adorados por toda Authu em menos de doze horas.

A noite fôra tão longa que as cinco horas da manhã a que estavam acostumados a terem já levantado quase que triplicaram. Despertaram tarde, e à tarde. Do lado e fora dos quartos já havia um sentinela que pudesse conduzí-los à sala de refeições. Os quatro se encontraram quase ao mesmo tempo no corredor.

- Bom dia! Como foi a noite? - Cristian pergunta se espreguiçando.

- É, foi. - Algio olha para o sentinela e gesticula perguntando pelo banheiro.

- Bom dia pra vocês! - Geba responde. Ele e Cristian ficam às portas de seus respectivos quartos, esticando os braços, as pernas...

- É, Geba. A vida civilizada está lhe fazendo bem. Já és outro. Até agora não ofendeste a ninguém!

- Margaridinha de cidade é o seu pai!

- Esse é o Geba que eu conheço! Ei, Lob! Algo errado?

- Como é que vocês conseguem falar tanto?

- Quem diria... Lob com ressaca! Droga, onde fica o banheiro?

- Algio está lá.

Neste instante o sentinela retorna.

- Ei, eu sou o próximo! Onde é o banheiro? - Cristian o recebe dessa forma.

- Não senhor, agora é a minha vez! - Geba retruca.

- Calma vocês dois. Tem três banheiros aqui. Venham dois comigo. O outro espera alguém sair.

- Vamos lá então.

Geba pára um pouco e olha Lob, que já se prepara pra voltar ao quarto.

- Vá com Lob. Eu espero Algio.

Cristian vê os dois e rebate.

- Não, vão vocês dois. Eu que fico.

- Vão logo!

- Você não queria tanto ir?

- Eu espero Algio. Podem ir.

"Engraçado. Primeiro brigam pra ir, agora brigam pra ficar. Essa gente importante é tão esquisita..."

E eles discutem por mais algum tempo. Quando Algio volta, lá estão eles dois, cada qual argumentando razões para o outro ir. Lob entrara no quarto.

- Pronto, agora vão os três.

Algio conduz Lob ao banheiro que acabara de usar enquanto o soldado real leva os outros dois aos outros dois banheiros de que havia falado.

Mais tarde eles se encontram à mesa, comendo. Uma mesa farta de carne, frutas e bebida, mas não alcoólica. Verdadeiramente um banquete.

- Engraçado, não é?

- O quê?

- Essas armaduras não dão trégua...

- Como assim?

- Sei lá... É esquisito fazer tudo vestido desse jeito.

- É verdade... Até pra dormir... Pelo menos algumas partes se mexem e dá pra ir no banheiro...

A refeição prossegue. A primeira do dia, já durante a tarde. A conversa entre os quatro beira a inexistência, restringindo-se a comentários do tipo "Bom ontem à noite". Quando já concluíram a refeição, vem alguém à sala. É o mordomo de Eogebarão.

- Vossa alteza mandou vos dizer que não poderá vir, visto que está muito ocupada. Entretanto, aconselha que passeiem pelos corredores da mansão e, quando quiserem, dirijam-se à sala principal.

- Aquela de ontem?

- A sala da cúpula, senhor.

- Ah, claro! Obrigado. - Agradece Cristian e, voltando-se para o grupo, - Ei, alguém sabe de Utho?

- Utho, Utho...

- Se me permite, senhor - fala Utrua, que estava já prestes a sair. - Vosso amigo se encontra em uma casa aqui perto.

- Por que não dormiu aqui?

- Perdão, senhor, mas não sei dizer.

- Mas que droga!

- Mais alguma coisa, senhores?

- Não, pode ir.

- Como estás, Lob?

- Um pouco melhor.

- Vocês viram só?

- O quê?

- O empregado do prefeito?

- Todo fresco?

- Nem fale, Geba. Pelo que vejo, daqui a alguns dias você vai estar igualzinho.

- Deixe dessas brincadeiras, senão vou esquecer que sou teu amigo e te encher de porrada.

- Calma, brincadeira...

Após alguns minutos de silêncio, sem saberem o que fazer, finalmente alguém toma a palavra.

- Que tal - era Algio - a gente seguir o conselho do prefeito e dar uma volta por aí?

- Essas casas de ricos são todas iguais...

- Vamos, Geba. Melhor que ficar aqui sem fazer nada.

- Aposto que todo canto daqui é igual a essa sala.

- Vamos...

- Tá bem, Cristian, vou.

Eles saem sem guia, às vezes encontrando corredores sem saída, às vezes encontrando como saída outros corredores. Nada de especial, até que se cansam e resolvem voltar para a tal "sala principal". Para tanto, precisaram chegar a lugares indesejados, até avistarem a sala circular, que está abaixo da que procuram.

- Bem, chegamos...

- É, Cristian, até que não fomos tão mal para quem não tem guia.

- Não fomos mal!? - Geba responde. - Erramos o caminho umas dez vezes! Além do mais, como eu tinha dito, não tinha porcaria nenhuma pra ver.

- Tinha as estátuas dos corredores.

- É, Geba, e os vasos.

- E eu sou lá de ficar olhando vaso!?

- Vamos subir logo: Lob já está indo.

Dirigindo-se à escada espiral, eles conseguem acesso à sala da cúpula. Nela, encontram aquilo que o prefeito gostaria que vissem. Eles estavam maravilhados.

- Olha só, é fantástico...

- Finalmente.

- O quê?

- Encontramos algo interessante pra ver.

Eram os quadros. Explosões de chamas rodeavam os Guerreiros do Fogo, em pinceladas sublimes.

- Olha! Somos nós derrotando o mago!

- Nós na reunião!

- E aqui? Onde estamos?

- Na floresta? Como ele nos pintou lá?

- Deve ter inventado...

- Caramba, ficou muito bom mesmo.

- Vou pedir pro Eogebarão um desses pra quando a gente voltar.

- Você acha que ele vai dar, Cristian?

- Não sei...

- E pra quê que cê quer?

- Ora, Geba, não pretendo viver pra sempre na floresta. Quando vencermos o monstro, vou me instalar aqui em Authu.

- Não sei se vou fazer isso...

- A gente se acostuma, né! Não acha, Lob?

- Só acho que estão fazendo planos demais.

- Que há, amigo? Acha que não damos conta?

- Não. Só acredito que não se deve fazer planos.

- Por quê?

- Quando os fazemos, o mundo os desfaz.

- O que queres dizer?

- O que disse. Agora, acho que vou descansar um pouco.

- Isso é um plano!

Lob o olha com cara de quem não gostou da brincadeira, descendo as escadas logo em seguida.

- Não o acham meio estranho? - Cristian comenta.

- É, talvez seja a bebida, o palácio, as pessoas. Sabes bem, Cristian, se nós não estamos acostumados à sociedade, ainda menos o está ele.

- Espera um pouco... Ele fez mais parte da festa que você.

- É mesmo. Eu lembro como ficou quieto. - Geba entra no diálogo. - Parecia um periquito morto.

- Morto não, mas ferido. Era ela, não? Não conseguia se esquecer dela e sabia que só poderia se divertir se a esquecesse.

Algio se vira para não mostrar o rosto.

- Eu sinto, amigo. Pode ser doloroso pra você, mas ela está morta! Não há o que possamos fazer por ela! Você não pode se isolar do mundo completamente! Tem que pensar em você!

- E fingir que a esqueci?

- Esqueça Keuda então!

- Eu não posso destruir minhas memórias de uma hora pra outra! Tinha que me destruir primeiro.

- Mas não adiante esse martírio. Não a trará de volta.

Cristian se aproxima mais de Algio e vê algumas lágrimas, essas criaturas traiçoeiras que algumas vezes fogem e correm sem que houvéssemos permitido. Com a mão no ombro do companheiro, ao mesmo tempo se desculpando e tentando reconfortá-lo, fala:

- Keuda certamente queria que fosse feliz.

- Sim...

- Por que não se divertiu com a gente?

- Por que, Cristian? Por que faria isso? Pra dar satisfação a essa cidade?! Keuda não gostaria que eu fosse ainda mais infeliz.

- Seu conceito de felicidade é bem estranho.

- Sim? Acontece que você não sabe o que é amar alguém. Você e você também, Geba. Vocês nunca sentiram algo assim. Querer estar a cada dia ao lado de alguém, para beber sua imagem doce como o vinho do mais belo sonho, receber cada sílaba que deixa seus lábios como se fosse o segredo da vida. Sentir uma chama explodir em seu peito, quase prestes a consumí-lo, e sentir vontade de ser queimado por essa chama até o último fio de cabelo. Por mais distante que ela possa estar, não deixará de estar no meu coração.

Cristian e Geba se olham, enormemente surpresos com o depoimento. Com a súbita inspiração que tomara Algio. O silêncio se faz por longos segundos, enquanto se pensa no que foi dito.

Enquanto Algio fita uma parede simples com pouquíssimos detalhes em prata e pedras, os olhos dos outros dois percorrem cada canto da sala. Era como se aquilo que havia sido falado fosse tudo o que eles sempre procuraram, ou a última peça para que encontrassem o que mais quiseram. As palavras fazem transformações nos fortes guerreiros. Não se sabe se temporárias, eternas, grandes ou pequenas, sabe-se que tais transformações se fizeram.

E agora eles vêem a sala melhor. Os tapetes amarelados, mas não de um amarelo envelhecido e sim de um amarelo que queria ser ouro, com desenhos de triângulos de mesmo lado, em preto, de vários tamanhos e estando como que jogados de qualquer forma para formar figuras. Há três desses tapetes, em posições que fazem com que cada um deles diste igual dos outros dois. Um deles fica sob os sofás. São tapetes quadrados de tamanho tal que qualquer pessoa do castelo em se deitando na largura não ficaria com as pernas ou a cabeça de fora.

O chão da sala é feito de pedras postas de modo a se formar um círculo. No meio há três pedras, formando um triângulo. As que se seguem tentam contorná-lo, enquanto as outras tentam a estas fazê-lo. E assim segue, dando-se um aspecto de disco à sala. As pedras são azuis-claras com algumas manchas brancas. Alguns diriam terem sido feitas pra imitar o céu.

Os sofás são brancos com detalhes em prata. Sofás atípicos, sem dúvida. A cúpula é feita de nove fatias, que se ligam por fios de prata, fazendo uma estrela no encontro de todas, no meio. A estrela é de prata também.

Quanto aos vinte quadrados, estão apoiados, todos, em um suporte de ferro verde escuro, ressonante com a clara parede. Já as estátuas são de homens e mulheres nús, em pedras delicadas e, se não for tinta aquela coloração acinzentada/azulada, sem pintura. O céu de fim de tarde dá um toque final de harmonia ao ambiente e a luz do Sol nas paredes produz um efeito incrível. Talvez pela própria parede, talvez pelo vidro. Só agora eles reparam na cena.

- Parece que o destino dos grandes heróis é viver sem conhecer o amor verdadeiro...

Como ninguém responde ao desabafo de Cristian e ele prossegue.

- Talvez só por isso os deuses tenham feito aquilo à sua amada...

- Não pode ser assim...

- Mas deixemos isso pra lá. Vou descansar um pouco.

Todos vão aos seus leitos. Conversam um bocado e não conseguem dormir. Até que enfim anoitece e são chamados à mesa.

Entrando em uma sala de jantar luxuosa, iluminada por um candelabro cheio de velas, com uma mesa muito bonita e de bons pratos, apesar de pequena para o espaço, vêem reunidos Eogebarão, Plinhu, Egriarre e o mago Nikeutoa.

- Sejam bem-vindos! Acomodem-se.

Eles se sentam. As cadeiras são meio quadradas, mas são de prata e madeira. Os guerreiros ocupam os últimos lugares. É engraçado, pois suas armaduras nas cadeiras fazem alguns barulhos: ambas têm metal.

- Vamos, podem começar!

Eles começam. A comida é estranha, mas não é ruim. A bebida também é esquisita: doce e com um pouco de álcool. No meio da refeição, o prefeito fala, com força e suavidade na voz.

- O que estão achando de minha mansão? Estão sendo bem-tratados, como os próprios donos, ou têm alguma queixa de algo que lhes falta ou de um criado que lhes negou algum pedido?

- Não, prefeito, nenhuma queixa. - Cristian responde pelos guerreiros. - Fomos muito bem-tratados, obrigado. Há apenas uma pergunta.

- Pois não?

- Que houve com Utho?

- Quem?

- Uthokrolha, que veio conosco.

- Ah, sim! Vosso amigo! Ele saiu e deve estar andando por aí, aproveitando-se pra contar a vossa história.

A refeição prossegue até que, influenciado por um gesto de um dos conselheiros, Eogebarão rompe mais uma vez o silêncio que envolvia aquele jantar.

- Amanhã algumas pessoas virão recebê-los, algum problema?

- ...

- São curiosos e admiradores, certo?

- Tudo bem... - responde timidamente Algio.

- Ótimo.

O jantar prossegue sem mais interrupções. Ao seu término, dirigem-se Algio, Cristian, Geba e Lob ao bar real para mais uma noite de álcool, após a sugestão do rei. Eles passam pelo corredor até avistarem as portas já vistas na noite anterior.


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