Parte 10

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Eram ainda plantações que os rodeavam, quando Cristian, Geba, Lob e Algio deixaram a cidade de Authu, contra a vontade de seu soberano Eogebarão.

Eram plantações diversas. Mais à frente havia terreno dedicado à criação de animais. Isso era assim graças a uma lei de Eogebarão: uma "camada" da terra seria de plantações, a mais próxima à cidade, a seguinte seria de animais, de modo que não houvesse nenhum criatório de animais mais perto da cidade que a mais distante plantação.

Para compensar, desde que fosse com responsabilidade, qualquer animal poderia ser criado. Uma lei ridícula - se você visse a confusão no início... Só mesmo o "querido rei" não percebia quão ridícula era tal lei que, por ser como era, obrigava a dedicação a apenas uma das duas atividades.

Não era, também, nas redondezas de toda Authu que se podia usar a terra, como o leitor já deve ter percebido quando da chegada dos heróis. Isso, entretanto, é uma outra história.

Eles caminham por entre os criatórios de animais. Ainda estão pensando em tudo o que ocorreu no palácio. Ainda é de tarde, mas o Sol já está fraco. Há criatórios dos dois lados, pois chegaram nessa "camada". São cercados de madeira para impedir que os quadrúpedes ali tratados fujam. Dentro delas, lá no meio, há em cada qual uma casa ,além de abrigo para os animais, onde, além de se protegerem do frio, podem matar a sede e a fome. Apesar dos animais, os cinco terrenos passados estavam sem gente. Talvez estejam nas casas, mas é cedo.

Algio, Cristian, Geba e Lob continuam a caminhar, até que ouvem algum barulho.

- Escuta! É aquela canção!

- É... É a que eu cantava mesmo...

Responde Cristian, recordando nas cordas e na voz do bando a canção que fala daquele por quem os quatro procuram: o gélido inimigo da vida. Logo eles se aproximam. É uma festa, de fato. Em uma fazenda, um grupo de umas trinta pessoas por ali perto de uma churrasqueira. Eles bebem e se divertem ao som do bardo. O primeiro que fita o portão quase não consegue acreditar no que vê.

- O-olhem! São eles!

- Quem...

- Não acredito! Oh, Grande Fogo! Senhor da vida verdadeira! Obrigado por esse momento! - e, dirigindo-se aos quatro. - Entrem! Se cheguem mais, pois sois bem-vindos e como não o seriam os heróis tão conhecidos e corajosos? Venham, então, beber conosco, amigos!

- São os Guerreiros do Fogo!

- Venham! Participai também da nossa festa!

Eles se olham e decidem, por unanimidade, que jamais deixarão de aceitar o convite.

- É um prazer! Vamos!

- Olhem! São os Guerreiros do Fogo... Eu quase não posso crer!

Lá estavam eles, no meio do grupo curioso e hospitaleiro. Alguns tocavam suas armaduras e todos estavam encantados. O homem que lhes dirigia a palavra tinha alguma idade, não muito velho, porém não mais moço. Tinha um aspecto forte, de trabalhador, e se vestia com um manto azul. Ele continua.

- Krapla! Filho! Traz vinho para os convidados ilustres! Nyeka, querida esposa! Acaso viste quem nos faz companhia?! Serve comida, da melhor que houver entre a nossa, que é humilde. Que não falte o que comer e o que beber aos mais ilustres convidados dentre os que recebi e os que hei de receber! Oh! Esqueci-me de apresentar-nos! Sou Iagruite, mais conhecido como Grui. Sou responsável por esta fazenda, que é do senhor Pemy, com quem partilho metade do que se produz. Este é meu filho mais velho, Axoe. Esta é minha esposa, Nyeka e aqui está o aniversariante do dia! Meu filho mais moço, Krapla, que faz hoje dezesseis anos. Mas sentem-se e comam e bebam à vontade. Icau! Continua a tocar e cantar: honra-nos poder apreciar teu soberbo talento!

- Muito obrigado pela hospitalidade! É uma prazer acompanhá-los. - fala Cristian, enquanto chegam a comida e a bebida. - Entretanto, convém dizer, não pretendemos nos demorar muito: estamos de partida.

- Aonde vão, guerreiros? Ou melhor, depois nos dizem isso e o que lhes convier. Vamos festejar o aniversário de meu filho!

- Claro que sim! Vamos!

Os quatro heróis se dirigem ao centro da festa. Parabenizam o tal Krapla, e passam a se tornar o centro das emoções.

Narram as últimas cenas na mansão de Eogebarão: o pessoal de lá quer concordar com eles, mas no fundo nota-se que há algum medo. Um medo que tenta fazê-los acreditar que seu rei havia agido corretamente, em sua defesa. É quase como Uthokrolha: eles estão bem felizes, mas basta falar no monstro pra essa felicidade ir embora. O medo não consegue - graças! - cegá-los como cegou o prefeito. Com pesar no coração, eles vêem, ainda, que é preciso que os guerreiros partam. Por mais medo que tenham, eles conseguem perceber quão egoísta é a idéia de mantê-los em Authu.

O bardo Icau, que havia parado para ouvir a narratória, voltava a tocar. Agora uma música que falava justamente dos Guerreiros do Fogo, composta por alguém nesses poucos dias.

O anfitrião Grui chama os guerreiros para uma conversa particular, deixando a festa para trás.

- Vocês vão mesmo? O Sol já se pôs: se fez noite. Se quiserem ficar para partirem durante a manhã, aos primeiros sinais do dia, podem ficar. A casa é modesta, mas serve bem de abrigo.

- Muito obrigado, obrigado mesmo! Mas temos que ir. Afinal, toda Kairot depende de nós.

- Tudo bem, entendo. Mas quando exatamente partirão, já que vão mesmo?

- Em alguns minutos.

- Pois esperem um pouco. Mandarei juntarem mantimentos para que levem. Ah, interessante!

- O quê?

- Suas armaduras... Brilham no escuro!

- É... A gente já tinha esquecido. Sabe como é... Com tudo a gente se acostuma... Ah, a propósito, não é só no escuro não. Elas brilham o tempo todo, é que de dia já tem luz e elas não chamam atenção.

- É verdade... Bem, vou cuidar para que preparem comida e bebida para viagem. - Ele se levanta e segue até a mesa, dando ordens a mulher, filhos e criados.

As pessoas, curiosas, se aproximam dos guerreiros, que agora estão perto das mesas. Alguns apenas para tocar suas armaduras e saírem saltando e gritando: "Eu toquei nos guerreiros!". É fácil ver como eles haviam se tornado importantes personalidades. Simplesmente as mais importantes que Kairot havia tido até aquele instante. O monstro os atormentava desde muito tempo atrás.

Eles fazem algumas apresentações com fogo, até que, enfim, chega a hora de partirem. Lhes são fornecidos água e comida em dois sacos grandes, de quase um metro de altura. Agradecendo e sob aplausos, eles partem em sua jornada. Aquela mesma missão ainda não cumprida.

Algumas fazendas ainda. Alguns ainda os acompanhavam. São os que pretendem acompanhá-los até o fim da Authu-rural.

E eis que esse fim é alcançado e já se vê terra sem dono. Árvores, por enquanto distantes, separadas por capim, ou grama, sei lá! Eles caminham por ali com suas armaduras brilhantes.

- Ha! Finalmente vamos lá pegar aquele monstro, não é? - Cristian grita, saltando para a frente dos outros três e disparando uma pequena bola de fogo em sua direção. Geba e Algio levavam os mantimentos.

Com o braço direito, Algio apara o golpe.

- O que pensa que está fazendo?

- Ora, não aceita uma brincadeira?

- Brincadeira! Você quer brincar? Tome isso. - Algio, já com a mochila improvisada no chão, dispara uma bola de fogo ligeiramente maior, da qual Cristian se esquiva.

Mais uma vez o guerreiro que começou com isso dispara uma bola de fogo. Seu ágil adversário salta de lado e a bola acaba acertando Geba, no elmo.

- Ah! Peraí, seu... - Ele tira o saco do qual foi feito uma mochila prática e simples. Em seguida solta uma bola de fogo contra Cristian, já correndo em sua direção.

Em pouco tempo os três estão disparando fogo como crianças brincando na neve, sob o olhar reprovador de Lob.

Até que uma bola quase lhe acerta e ele se rende aos instintos, entrando no meio da guerra.

Por alguns minutos eles brincam, ou treinam, até que Geba pára.

- Ei! Não é melhor a gente dormir?

- Não! Eu não estou com sono! Você está com sono?

- Não, mas está ficando tarde.

- E daí? Somos os Guerreiros do Fogo, não temos medo da noite.

- Então vamos parar de conversa e ir embora.

- É mesmo... Também não vejo a hora de colocar as mãos naquele infeliz!

- Então, vamos!

Eles seguem um pouco mais iluminando a floresta com um brilho fraco. Mas não demora para que um monstro bem parecido com o tal Tarturaço de Caji, feito de fogo, passasse bem diante deles.

Os três fitam Geba.

- Gostaram? Ficou igualzinho!

- Ah, é? Não me diga... Que tal isso? - E Cristian faz se erguer uma prisão de fogo ao redor da criatura de Geba - Ha! Ha!

Repentinamente, um brilho branco, o bicho escapa da jaula e se posiciona diante dos quatro.

- Agora é a minha vez. - E Algio cria uma verdadeira Fênix, que ataca o tarturaço de fogo, em vários vôos rasantes. Após alguns segundos, com uma pata o monstro destrói o pobre voador. - Mas que droga!

Lob se põe à frente. É hora de ele mostrar o que sabe fazer. E eis que se surge um... guerreiro!?! Segurando uma espada!

- Mas que falta de imaginação, Lob!

Ignorando o que diz Cristian, o sábio herói move sua peça, fazendo-a andar de lado. Geba sorri e, no instante seguinte, o monstro salta na direção do guerreiro. "Está feito".

Pobre Geba... Era exatamente isso o que Lob esperava: o guerreiro gira de lado e coloca sua espada no ponto fraco do monstro. Aquele lugar perto do pescoço.

- Tudo bem, você venceu. Mas vai ter revanche.

Eles seguem um pouco mais. Seus espíritos estavam muito agitados pela expectativa. Mais à frente eles param de novo para brincar com fogo. Depois caminham e param mais uma vez. E repetem isso algumas vezes, até que a fome chega, quando o Sol não tardaria a nascer.

Os bravos guerreiros param e fazem sua refeição. Após a fome ser vencida é a vez do sono desafiá-los. Eles dormem, então.

Por toda a viagem, dispararam fogo em todas as direções. Como se sabe, magos enfraquecem cada vez mais quando lançam magias. Por isso, preferem usá-las apenas quando extremamente necessária. O poder dos quatro, entretanto, parecia não conhecer limites. Eles eram realmente fortes.

O tempo passa e eles se erguem quando o Sol alcança seu ponto mais alto na abóbada azulada desse céu imenso.

Eles prosseguem. Não há tempo para se lembrarem de nada, pois brincadeiras daquele tipo insistem em aparecer. Tanto que, em dado momento, eles se perguntam por que estão assim. Então se deduz que é para evitar uma nova recaída emocional de Algio. Eles prosseguem, desse modo mesmo. Uns atirando nos outros, brigando com criaturas de fogo... Uma espécie do aquecimento para a luta de suas vidas, que seria travada em alguns punhados de horas.

Agora, à uma e meia ou duas da tarde, eles param para uma refeição. E lá se vão os últimos suprimentos... Já começam a entrar na floresta de verdade, o que lhes trás um certo conforto. As árvores estão mais próximas, umas das outras.

- Acabou a moleza! Vamos ter que caçar!

- Não se preocupe, amigo. Acha que teremos alguma dificuldade?

- Não, mas... Tudo bem, mas o Algio caça.

- Eu? Por quê?

- Porque tem muita sorte! Com mulheres... Até com seu material. Quem aqui ainda está com a arma? Só você!

- Grande sorte a minha! Estás esquecendo o ocorrido: minha vila foi destruída, minha amada foi morta. Quanta sorte, hein?

Os outros dois olham pra Geba, com ar de reprovação.

- Desculpe. - Ele fala, já preocupado. - Eu caço, então. - ...completando, em tom mais baixo: "Ele está com medo".

- Medo! Está dizendo que estou com medo?!

- Boa, Algio. - Cristian fala, feliz por seu companheiro não ter sido mais uma vez tomado pela lembrança da perda.

- Eu o desafio para um duelo. Vamos!

- Um duelo, é? - Geba responde, com sua voz grave. - Pois que seja.

Os dois ficam de frente. Algio dispara uma bola de fogo, mas Geba defende e devolve o tiro. Algio se esquiva. Após idas e vindas dos projéteis mágicos, eles notam o chão queimando.

- Êpa! Fomos longe demais... - Geba comenta.

Algio se abaixa para observar melhor as chamas.

- Ei! Não estão queimando de verdade! O fogo nem está tocando nas plantas! Quem foi o espertalhão?

Lob solta uma sutil risada. Logo vira uma guerra de novo. Os quatro disparando, uns nos outros.

Embora a viagem não tenha se resumido nisso, tudo o que houve foi: passos, conversa, guerra de fogo, passos, conversa, guerra de fogo. Foi apenas isso, exceto nas caçadas-refeições e enquanto dormiam.

Apesar de todas as brincadeiras, o tempo passava devagar para os heróis, tão ansiosos estavam pelo definitivo encontro. Mesmo admitindo a possibilidade de terem falado algo relevante em sua jornada, peço a permissão do leitor para não tratar com detalhes esses milhares de passos-conversas-guerras-de-fogo. Mesmo porque não precisamos nos submeter ao torturante tempo, que costuma passar devagar nessas horas.

Após algum tempo, medível em dias inteiros, eles alcançam uma região rochosa. O clima ficava mais quente à medida em que caminhavam. Sob outras condições, talvez alguns dias antes, eles se perguntariam se não estavam indo em direção oposta, já que se dirigiam ao Norte e, como se sabe, o Norte do continente de Kairot é quente, o Sul é que é frio. Talvez parecesse que o monstro estaria no Sul. Na verdade, qualquer um se dirigiria para lá. A confiança dos guerreiros de que estavam no caminho certo era tão grande que eles nem haviam pensado nessa possibilidade. Uma estrela os guiava pelo caminho certo. Era Uryef.

Não tardou e eles passaram pelo morro de Acantron. Subindo mais o continente, finalmente encontraram um vulcão, e o que tomou a mente de todos foram as palavras de Uryef sobre a lenda. Seria aquele o vulcão de que falara?

Sim, pois na lenda narrada pelo fantástico mestre das forças do fogo não devia ter tido um fim. Uryef, devido à insistência da platéia, dissera que o monstro havia se jogado no vulcão.

Entardecia e eles subiram o vulcão. Não foi tão difícil, pois estavam em forma. Chegando lá, encontraram um buraco grande, com magma muito no fundo e paredes largas, onde poderiam caminhar em linha sem medo, pois tinha vários metros. Havia anoitecido e eles se aproximaram do vulcão.

- Será?

- ...que ele pulou? Não sei... - Cristian responde a Algio. - Mas se pulou, pra mim está ótimo!

Ele empurra o companheiro para trás, que cai de costas no chão, saltando, em seguida, e preparando uma bola de fogo.

Enquanto os outros dois se olham, não tão surpresos, um frio toma conta do lugar. Ninguém precisa se virar para saber o que hão de encontrar. Todos sabem que chegava a hora. A hora de enfrentar o desafio maior. Chegava a hora de cumprirem seu papel. De vencer o mal de Kairot, finalmente.


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