Só quando finalmente se fez o silêncio, pôde-se ouvir o belo som, já narrado em lendas como o "Canto dos Cristais". Uma canção leve, como se fosse cantada por um órgão celeste, espiritual, cristalino.
Os heróis se viram e podem ver finalmente o aspecto da lenda. Ele é humanóide. Sua silhueta lembra um forte guerreiro vestindo uma armadura sólida. É como se fosse uma armadura hedionda, feita de pedra, vestindo um ser de gelo. Toda a armadura é cheia de pontas: joelhos, punhos, cabeças... E seus olhos são duas pedras de coloração estranha. Um verde-escuro, meio azulado, quase brilhante. Mas o que brilha mesmo são os enormes cristais brancos que deixam suas costas. Talvez de pedra, talvez de gelo. Este foi o ser que os guerreiros viram.
- Vamos acabar com ele! - Algio, empolgado, joga uma bola de fogo contra. A bola nem chega a tocar o estranho ser, desaparecendo alguns centímetros antes, absolvida pelo frio que ele emana.
O ataque é devolvido. Um caminho de gelo se forma rapidamente em direção a Algio, que salta para o lado no instante exato em que se formam estalagmites de gelo.
- Algio! Você está bem? - Cristian corre.
Geba parte em direção ao monstro. Vendo isso, Lob dispara uma bola de fogo, na tentativa de dificultar a visão do inimigo. Ao ser passado pela bola, Geba acelera. Ele chega no instante em que o fogo mandado por Lob desaparece e aplica um forte soco na cabeça da criatura. Ela, no entanto, parece nada sentir e, num upper extremamente rápido, arremessa seu agressor para longe, onde estavam os outros.
- Geba!
- Ele é muito forte...
Os quatro Guerreiros do Fogo, com suas armaduras brancas, encaravam o seu maior rival, que também tinha muito branco. À beira do vulcão uma luta terrível teve início e dela dependia o futuro de Kairot.
- Vamos concentrar fogo nele!
- Vamos!
Concentrando seu poder ao máximo, eles fazem uma enorme bola de fogo se formar ao redor do ser. Uma bola de fogo tão intenso que poderia ser visto de Acantron. A fantástica esfera flamejante cresce e se aquece cada vez mais, alcançando os pés dos heróis. Suas testas suam com o esforço, mas eles persistem.
A bola de fogo continua a crescer e já toma todo o vulcão. A temperatura em seu centro deve estar em níveis fabulosos, quando os quatro lutadores mágicos sentem tudo ficar um pouco escuro, tamanha a força empregada. Algio cai de joelhos, continuando seu trabalho.
Em menos de um segundo - em um instante - a bola de fogo tão incrível some. Um barulho alto de choque. Os guerreiros são atingidos por uma pedra bastante grande. Eles caem mais atrás e, por sorte, a pedra continua, sem terminar em cima de ninguém.
- Argh!
- Está todo mundo bem?
- Quer dizer, bem machucado?
- Eu tô legal.
- Não vai dar.
- Como, Lob?
- Não podemos vencê-lo.
- Que pessimismo é esse agora? - Cristian fala e, virando-se para os outros... - Tenho uma idéia. Inflamem-se!
"Assim ficaremos bem mais rápidos", foi o que pensou, afinal, ninguém tem força para fazer aquilo de novo (a bola de fogo).
Desgastados mentalmente, e feridos, eles partem como raios de fogo branco, como cometas justiceiros em direção ao monstro de pedra e gelo. Tão confiantes estavam, até algum tempo atrás, que havia sido de certa forma um choque descobrir que a batalha não era assim tão fácil.
Todos tentam golpeá-lo. O rival é mesmo resistente! Logo um golpe feroz arremessa Geba para longe. Ele grita, mais de raiva que de dor, levanta-se e parte ao encontro do monstro.
A luta parece não ter fim. Algio faz de sua esquiva um poderoso contra-ataque, aplicando um chute. Lob salta para trás, retornando, em seguida, com um golpe feroz. Cristian já golpeou todos os pontos possíveis da vítima em busca de um ponto fraco, mas nada.
Após alguns minutos de luta, Cristian e Lob estão no chão sem forças. Só lutam Algio, por ter sido golpeado poucas vezes, e Geba que, embora tenha recebido diversos golpes, alguns fortíssimos, tem um físico acima do normal.
- Parece que tinha razão, amigo. Infelizmente... - Cristian desabafa, deitado, sem forças sequer para se sentar - Está tudo acabado.
- Não pode estar.
- Como não? Nem podemos nos erguer.
- As pessoas confiam em nós.
- Aquele... monstro! Vai destruir todos!
- Não, não pode ser assim. Com ira lutam Geba e Algio. Sem conseguir arranhar o monstro, eles prosseguem. Até que Algio é arremessado para longe, onde permanece.
- Está vendo? Agora é só Geba! Fomos vencidos. Ha! Ha! Ha! E eu pensava que éramos as criaturas mais fortes da face da Terra!
- Não está acabado. O mestre não gostaria que pensássemos assim.
- O mestre... Fuolha se foi. Somos só nós agora. ...ou melhor: é só o monstro ali.
- Pessoas acreditaram em nós. Os deuses não querem assim.
Geba, neste instante, é derrubado em definitivo. O monstro se dirige a ele. E Lob prossegue.
- Eles não nos fariam caminhar tanto pra nada. Enfrentar o que enfrentamos para morrer assim, sem cumprir a missão. Veja.
O tão terrível monstro está criando gelo ao redor de Geba. Sua armadura evapora o gelo, mas o monstro persiste friamente. A armadura começa a perder o brilho, quando surge uma voz, do centro do vulcão.
- Não está acabado. Aqui está a última delas. Lutem.
Era Uryef. No momento em que some, descem do céu quatro raios brancos que atingem os guerreiros. Raios vindos de Uryef-estrela. A força ergue seus corpos e, misteriosamente, cura suas feridas. É como se a saúde de cada um estivesse ligada à sua armadura. Quando os raios somem, eles podem ver o resultado: armaduras azuis!
Os quatro se olham, surpresos. A surpresa é tamanha que eles não conseguem falar. Surpresa e alegria. Eles nem percebem que Uryef os olhava com tristeza.
Os quatro homens por trás das armaduras sentem a força, a fúria das forças do fogo. Eles aceitam aquela ira como se fossem deles mesmos. Não vinha, no entanto, de repente aquela força devastadora e a vontade de destruir. Ela veio devagar, como quem não quer nada, e oportuna. Neste instante se instala totalmente. Para ter um poder destrutivo, é preciso gostar de destruir. De outro modo não seria natural.
Imediatamente os quatro partem contra o monstro. Agora não precisam se concentrar para fazer com que chamas magníficas os envolvam como antes. Só que, ao contrário do que era antes, agora podem voar quase naturalmente.
Eles rodeiam o monstro a golpeá-lo. Agora estão destemidos. Golpeiam e se deslocam muito rápido para efetuarem esquivas. Eles golpeiam o monstro.
Cristian é golpeado e arremessado para longe, mas sequer toca o chão.
- Ah, maldito! - Ele volta com ira para golpear o monstro ainda mais.
Lob aplica um golpe martelo e abre a mão concentrando-se. Chamas envolvem o monstro.
Os outros o vêem e enxergam nisso a solução. Há algum tempo que lutam, mas a luta direta parece que vai "terminar em eterno empate".
Os quatro concentram energia. Um ciclone de fogo gira, subindo em espiral até as mais altas camadas de gás que envolvem o planeta. Já não se vê o monstro. Somente uma espiral de fogo dançante.
Um grito inumano ecoa em meio ao ensurdecedor ruído provocado pelas chamas. Chamas essas que já encobriram a montanha, envolvendo até algumas árvores por perto.
Uma seta de gelo acerta o peito da armadura que cobre Geba. Este apenas ri, pois sabe que é uma atitude ridícula de desespero de seu adversário. Ele sabe que a flecha se dissolverá em um segundo.
A espiral de fogo queima mais forte que o centro do planeta. O "olho do ciclone", ao que se sabe, é um lugar com pouco ar e sem forças. O deste ciclone funciona mais como o centro de uma estrela. Quanto mais no centro, mais devastadoras são as chamas.
Há quilômetros dali o ciclone de fogo poderia ser visto exatamente como um ciclone de fogo ou, mais precisamente, o fim do mundo.
Após minutos, numa explosão acaba o show de fogos. O vento leva embora o que foi chama. No centro de onde havia tudo aquilo, os quatro guerreiros. No meio deles uma pedra do tamanho de uma cabeça humana, carbonizada em meio ao pó.
- Ele já era! - Algio apanha a pedra, joga para o alto e dispara um jato de fogo que a arremessa à outra borda do vulcão, onde se estraçalha.
Ele vê então o nível de magma. Está a um metro da borda.
- Nós vencemos! - Cristian dispara fogo contra os companheiros. Logo começa aquela brincadeira de atirarem uns nos outros.
Na dança comemorativa, entre as chamas vêem as imagens de verdade. O rosto de Keuda na casa de Droole, a história de Urief e seu rosto em uma imagem recente. Eles se tornando cada vez mais agressivos. A armadura é a última visão.
- Esperem. - É Algio que fala, com tom sério o suficiente para fazê-los parar na hora.
- O que houve? - Cristian pergunta.
- Que droga! - Lob grita, como se a simples palavra proferida por Algio tivesse rasgado sua alma ao meio.
- Lob!?!
- Oh, mestre! Perdoe-nos!
- O que...
- Sempre nos disseste para não lutar pelo ódio, nunca lutar "contra" alguém! Hoje, fizemos exatamente o que instruísse a jamais fazer!
- Algio? - Cristian olha para ele, esperando o que sabe que não virá. Quem dera se dissesse "Não é isso não, é que eu achei esse pedaço de machado. Não é interessante?" Cristian sabe que as coisas não são tão simples.
- Droga! - Lob grita, ajoelhado sobre as pedras e cabisbaixo. Sua armadura ainda está em chamas.
- Lembra de Keuda?
- O que tem ela? - Cristian pergunta, ansiosamente nervoso.
- Aquele olhar... Só agora entendi. Ela sabia que isso iria acontecer...
- O quê?! Mas que...
Algio o interrompe, disparando uma rajada de fogo, que derruba seu amigo. Cristian se levanta e sacode o braço direito de dentro para fora, disparando fogo que empata o ataque de Algio. Os dois param, enquanto Algio se dirige ao vulcão. Geba se aproxima.
- Quer dizer que nos tornamos os monstros?
- É, Geba... Olha essa porcaria de armadura! Ela não sai! Não pára de queimar! Mas só agora percebi que queima também por dentro!
Ele continua em direção ao vulcão. Geba coloca a mão em seu ombro e ele a tira com um soco.
- O que vai fazer!? - Geba pergunta, preocupado, quase em desespero. Algio pára.
Já está na beira do vulcão, quando começa a falar.
- Você lembra o que o monstro da lenda de Uryef fez?
- Ele pulou...
- É a nossa deixa.
- Não!!! - Cristian grita e voa, mas chega ao lugar tarde demais. O corpo de seu companheiro já não pode mais ser visto.
- Lob!!! - Estava calado por todo esse tempo. Agora acaba de sumir também, no magma.
- Geba! Você não!
- Temos que ir, Cristian!
- Mas a gente deve tentar viver, não podemos desistir!
- Nós somos os monstros agora.
- É invenção!
- Cristian, amigo. Kairot é perfeita. Por isso precisa de um mal. Quando derrotamos esse mal, terminamos nos tornando o novo mal. Devemos ir agora. Quem sabe demore um pouco para o novo mal vir, pois não há dúvidas de que virá.
- Geba, não... - Seus olhos vertiam lágrimas. Lágrimas que evaporavam ao deixar sua face.
- Nós devemos, Cristian. - Ele se aproxima do vulcão. - Enquanto podemos decidir.
Geba mergulha e Cristian cai sobre os próprios joelhos. Chora. Ergue-se. Olha em volta, como que para se despedir desse mundo cruel. Tudo fazia sentido. Geba era mesmo sábio. Talvez mais sábio que o mestre, pois explicava o que ninguém sabia nem se tinha explicação.
- Droga!!! - Com tanta ira, Cristian desloca quilos de pedra do vulcão que rolam montanha abaixo. Seu rosto está transfigurado de fúria. De repente, volta a si, por um instante. É sua chance.
Cristian se despede do mundo. O céu, as estrelas, as nuvens, as árvores, as rochas, o magma. Então ele finalmente mergulha com os braços abertos, esperando que a ardente calda o envolva num sono mais agradável que o da noite. Espera que um dia os quatro se encontrem. Seu braço - última parte visível de seu corpo - finalmente submerge.
Esta parte da história dos guerreiros tão bravos que deram a própria vida por Kairot ninguém conhece. Ninguém esteve presente. Ninguém sabe como, só sabem que o mal terminou e os heróis nunca voltaram.
As pessoas que moravam nos arredores de Authu, lideradas por Uthokrolha, fundaram a vila sobre o lugar onde acreditam que tenha existido Motron. Esta virou cidade e passou a se chamar Iewot. Todos os quadros foram destruídos em Authu e o prefeito não quis mais saber dos heróis; mas em Iewot foram erguidas quatro imponentes estátuas em cor branca, com detalhes vermelhos, afinal, ninguém soube que as armaduras ficaram azuis.
Quanto a Gelia, ela conseguiu, com muito esforço e ousadia, dominar a potente espada e é tida, até hoje, como a primeira guerreira de todo o mundo.
E tudo ficou calmo, realmente. Por alguns séculos, até! Até que as águas do leste começaram a se agitar e um estranho cheiro de morte começou-se a sentir...





RSS




Comentários
Submeter um novo comentário