Parte 9
Dentro do bar eles se encontram como ontem. Já se passaram algumas dezenas de minutos desde que entraram. Como na noite anterior, encontram-se dispersos: Cristian, Lob e Geba por aí e Algio melancolicamente sentado à mesa central, bebendo sem alegria.
O bar não está mais cheio que ontem. O entusiasmo que o envolve não é de berço. O ambiente está bem mais vulgar.
- Algio! Vamos lá! A tristeza não é bem-vinda! Deixe-a de lado e junte-se a nós!
Era Cristian, que passava diante da mesa do guerreiro solitário. De onde vinha e aonde ia não se sabe agora. Às vezes ia de um canto a outro para atender ao chamado de uma dessas mulheres da noite. Não se demorando nem um pouco, Cristian termina de falar já se afastando, sem esperar a reação do amigo. Algio só ergue o rosto, voltando logo em seguida a contemplar seu mundo de pensamentos.
Alguns dos guardas reais estão por ali também. Afinal, é uma honra beber com heróis.
No meio da noite, Algio ergue o rosto e surpreende com o olhar aquele par de olhos azuis que o observava, por trás das portas do bar.
O guerreiro se ergue e vai até a porta. Há apenas um corredor vazio. Desanimado, olha à sua volta. "Ótimo! Nem tudo está perdido!" Havia um guarda próximo à entrada, por quem passara, Algio, tão distraído que sequer o notara.
- Ei! Você! Viu uma garota ali?
- Que garota?!
- Tinha olhos azuis como as ondas do mar e cabelos claros e leves como as nuvens. Você a viu?
- As únicas garotas que sei são aquelas raparigas ali com seus amigos.
- Ela se vestia com roupas claras.
- Amigo, você bebeu demais. Se quiser, posso acompanhá-lo até a mesa.
- Não, obrigado! - Ele se vira e volta à mesa, tentando fazê-lo sozinho.
- Pense direito: o que uma garota assim estaria fazendo ali? Não foi real.
- Foi sim.
- Tudo bem, tudo bem. Como ela era? Disse que tinha olhos azuis... Cabelos claros... Qual era a cor exata?
- A cor exata de um leite dourado.
Já na mesa, o guarda pára pensativo.
- Já sabe quem era?
- Não... Não pode ser ela.
- Quem?
- Esquece.
- Diga quem era. - fala, em tom de ameaça.
- Certo... Antes de mais nada, devo deixar claro que não digo que era ela. Essa é apenas uma possibilidade remota.
- Quem?
- Gelia.
- Gelia?
- A irmã caçula de Eogebarão. Na verdade, tudo indica que a família deles é formada só pelos dois.
- Então...
- Ei! Eu disse que era uma possibilidade muito remota e...
- Quantas jovens há no castelo?
- Sem contar com essas aí? Uma.
- Então era ela.
- É, talvez. Sabe, ela vive trancada e só aparece às vezes nos salões principais.
- ...
- Ah, e é solteira. Um excelente partido, se quer minha opinião.
- Eu não quero sua opinião.
- É assim que agradece?
- Você é pago para ser útil.
- Não pra você. - Ele se levanta.
- Obrigado.
Algio continua bebendo e pensando. Mais pensando que bebendo. Em plena madrugada, ele tem a certeza de ver o rosto da Keuda lhe sorrir de dentro do copo, pouco antes de não ver mais nada.
Já é o terceiro dia que eles estão aqui. Hoje acordaram péssimos. Comeram algo e voltaram a se deitar. Mais tarde chegarão os visitantes para vê-los, mas ainda estão em seus quartos.
Algio abre os olhos e vê o teto branco e enfeitado. Da janela, que fica na parede oposta à porta, vem a luz do Sol lhe cobrir o corpo. Da altura do diafragma até pouco abaixo dos joelhos.
O quarto é bem espaçoso. Além das duas camas, que ficam à janela (a de Algio) e na parede ao lado, em "L" (a de Geba), há um guarda-roupas razoável. O engraçado é que hoje mesmo um funcionário da casa disse que haviam posto roupas e mais roupas nos guarda-roupas. Foi difícil convencê-lo que não dava pra tirar as "armaduras brilhantes".
"Cansei-me disso aqui. Acho que vou caminhar um pouco."
Algio se ergue e vai à porta do quarto. Geba está dormindo de lado, com a boca aberta e um pouco de baba. "Nem pra dormir ele tem modos..." Ele abre a porta e sai, fechando-a em seguida.
Caminha pelo corredor, sem destino, sem roteiro. Enquanto passa por um dos inúmeros vasos, que são quase tantos quanto as estátuas de homens e mulheres desnudos, um sorriso se mostra em seu rosto. Ele segue adiante e continua se divertindo com a idéia de quão trabalhoso seria ensinar etiqueta ao seu colega de quarto: "até para dormir!?"
Segue a divagar. Imagina como deverão parecer os visitantes que logo virão, tenta se lembrar de tudo o que ocorrera na noite anterior e vê um rosto divinal com duas pérolas como olhos. Duas pérolas que parecem conter todo o azul do mesmo mar. "Sumiu?" Sim, ele tem certeza de que a viu ali no jardim! Jardim... Engraçado. Ontem haviam caminhado bastante e só hoje ele vê que tinha um jardim aqui.
- Ei!
Ele corre até lá e não a encontra. Mas o jardim é grande. Tem árvores altas, flores no chão e, em alguns lugares, sobre mesas. O jardim é grande mesmo. Na verdade a mansão parece ser bem maior por dentro do que o parece por fora. Algio corre pelo jardim em busca daquela que talvez seja a irmã caçula do tal prefeito Conq.
Sim, ele tem certeza de que a viu. Corre até que passa por um lugar de onde vê um vulto. Volta: era ela.
Sua pele era muito clara, seus cabelos soltos, longos, loiros, quase brancos. Sua expressão era sensual, porém distante. Está sentada apreciando algumas flores da mesa. Posta em um vestido que mistura tons acinzentados com vinho, sua imagem parece ser mais iluminada que todo o lugar.
- Você. - Algio se aproxima.
Ela ergue lentamente o olhar tão belo que tem. Olhar de um azul capaz de afogar qualquer homem, sem que ao menos percebesse.
Um olhar capaz de afogar qualquer homem, menos Algio, aquele por quem olham um par de olhos igualmente sublimes.
- Me procuravas? - Ela pergunta, com a voz arrastada.
- Sim. Porque me procuraste primeiro. - responde Algio, resistindo heroicamente aos encantos de tão bela senhorita.
- Eu te procurei?!
- Vi você no bar.
- Ah, estava apenas de passagem...
- Não era o que seus olhos diziam.
- Então, sabes ler olhos? - Levanta-se de onde estava, dirigindo-se a Algio com olhar ainda mais ardente. - O que consegue ler nos meus olhos agora?
- Não se mova.
Ela pára e diz, provocante.
- Eu sou uma ameaça pra você?
- Não... - Num salto, Algio chega bem próximo dela.
- Hmmm...
- Veja isto. - Ele recua o braço e mostra que segura uma cobra colorida.
- Hmmm... Você me salvou a vida... Merece...
- Não. - Ele se desvencilha dos braços da dama.
- Ora, você não me quer?
- Sinto desapontá-la.
- Não se engane. Não me procuraria se não me quisesse.
- Não é isso que quero de você.
- É casado?
- Não...
- Não se preocupe, "ela" está longe: não vai saber.
- Muito pelo contrário.
- Só são vocês quatro!
- Sim.
- Você...
- Ela está morta.
- Oh, sinto muito... - ela abaixa a cabeça. Após algum tempo ergue-a novamente, mais uma vez provocante. - Se ela morreu, não há o que ser feito. Você está livre até sua morte!
Ela tenta segurar seu ombro, mas Algio intercepta a delicada mão e, educadamente, a tira do caminho.
- Não posso.
Ela se ergue furiosa e caminha em uma direção.
- Por que não pára de fingir?
Ela pára e se vira.
- Como assim, fingir?
- Eu disse que li seus olhos...
- E o que você acha que eles diziam?
- Não sei... Mas eram mentiras. E eu vim saber por que motivo.
- Mentiras?
Algio responde afirmativamente, completando.
- Por favor, diga-me o que está havendo.
- Qual o seu nome? A gente nem se apresentou.
- Sou Algio. Você, suponho, chama-se Gelia. Certo?
- Certo... Você descobriu tudo. Estou tão desconcertada... Mas direi...
Seu rosto mudava completamente. Agora estava alegre e serena. Parecia também mais à vontade.
- Algio, o que vou lhe contar então é a pura verdade. Sei que vai ficar zangado comigo, mas... Por favor, não me entenda mal: eu não tive escolha. - Ela pára um pouco para tomar fôlego e diz, em seguida. - Meu irmão me pediu para fazer isso.
- Por quê?
- Tem medo que partam e deixem a cidade desprotegida.
- Enquanto isso, toda Kairot pode ser destruída, não é? Desde que sua vida inútil esteja salva!?
- Entenda, ele tinha medo.
- Medo... Ele vai ter que ouvir umas. Até mais.
Algio segue traçando o caminho de volta para os quartos, deixando para trás Gelia a chorar com o rosto apoiado nas mãos.
Chegando às portas, encontra Cristian vindo do lado oposto do corredor.
- Algio!
- Cristian!
Geba irrompe do quarto no meio dos dois.
- Precisamos partir!
- Era justamente disso...
- ...que eu ia falar... - Os três se olham surpresos, mas Algio continua. - Conheci Gelia, a irmã de Eogebarão.
E conta toda a história. Cristian narra o que com ele ocorrera.
- Assim como você, resolvi andar um pouco. Lob não estava no quarto... Fui andando por aí...
"Passando por um corredor ouvi um barulho:"
- É assim que age com velhos amigos?
- Utho! Por onde esteve?!
- "Por onde esteve"... Não me deixaram entrar nessa droga de mansão de novo!
- Estás com as roupas antigas...
- É. E tive que pular a janela pra falar com vocês.
- Oh, desculpe-me. Não sabia. Falarei com o prefeito imediatamente para que permita...
- Que se dane o prefeito! Que se danem todos vocês!
- Utho...
Utho sobe a janela para deixar a mansão, mas antes diz:
- Acreditei em vocês. Pensei que vocês fossem os destinados a matar o monstro. Estava enganado.
"Eu pedi para esperar, mas ele se foi: estamos nos desviando do nosso verdadeiro objetivo."
- E você, Geba, que tens a dizer?
- Vamos logo. Cansei de ficar aqui. O prefeito não tá só com medo não. Ele quer é ficar popular à nossa custa.
Os dois se olham surpresos. Sentem-se um pouco impotentes diante disso. É que, além de não ter precisado que ninguém nada lhe dissesse, Geba não só descobriu que deviam partir, como viu o que até então ninguém tinha visto. Todos sempre subestimam Geba, afinal de contas.
- Que droga! Fomos usados!
- Vamos lá ter uma conversa séria com ele.
Passando por um encontro de corredores, vêem Lob.
- Ei, Lob! Nós...
- Eu sei.
- Como?
- Mestre Fuolha me contou.
- Eu prometo: nunca mais pararei assim, em benefício de um egoísta.
- Eu também!
- Eu também!
- Vamos. - Lob faz sinal e segue, junto com os outros três. Em pouco tempo eles chegam à sala da cúpula.
- E... Cavalheiros, aí vêm os heróis grandes de quem todos falam.
- Seu miserável egoísta!
- O quê?
- Você nos usou!
- Como?!
Cristian dispara flechas de fogo, que atingem todos...
- Os quadros! Não!
De repente, um quase globo de fogo preenche a sala. Diante de todo aquele inferno, de vermelhas chamas dançantes e calor insuportável, o vidro da cúpula explode.
- Não! Vocês vão destruir tudo!
- Pois deveríamos!
- Vamos embora, esse lugar me dá nojo.
- Espere! - É a voz de Gelia. - Algio! Me leve com você! Eu...
- Foi você! - Eogebarão grita, coberto de ira! - Traidora! Matem-na!
Suas ordens não fazem sentido, pois os guardas que estavam na sala não conseguem sequer pronunciar uma sílaba compreensível, de tão aterrorizados.
Independente disso, Algio voa em direção a Gelia, com o corpo coberto de chamas, e a toma nos braços. O curioso é que as chamas não a queimam. Ela se segura firme e ele sobe e atravessa a cúpula, seguido pelos outros. Geba, ao sair, ainda dispara uma bola de fogo numa das janelas, o que lhe garante um olhar repreensivo de Lob.
Eles pousam na saída norte da cidade. Algio pede espaço para uma conversa particular e, ao conseguí-lo, fala para Gelia.
- É uma honra ser amado por tão corajosa senhorita. Infelizmente, não posso retribuí-lo, pois meu coração pertence a outra dama.
Ela abaixa a cabeça, envergonhada.
- Como ficará, agora que seu irmão está contra ti? Não podes vir conosco, pois é uma missão extremamente perigosa.
Ela permanece calada por algum tempo, pensativa. Responde, em seguida.
- Ficarei bem. - Pausa, e prossegue. - Procurarei um mestre de armas e me tornarei uma grande guerreira.
- Guerreira!?
- Sim, o que há de errado?
- Não, nada!
- Você vai ver. Um dia vamos lutar juntos.
- Certo. Foi um prazer conhecer-te.
- Igualmente.
- Tens certeza de que ficarás bem?
- Eu me viro.
- Tudo bem. Então, até mais, "Guerreira".
- Até, mas não zombe disso: vou me tornar guerreira sim! E toda a sorte do mundo pra vocês - "Um dia serás meu, guerreiro Algio. Podes esperar."
Algio se junta ao grupo e eles partem. Algio, Cristian, Lob e Geba. Os Guerreiros do Fogo saem mais uma vez em busca do monstro de pedra e gelo. ...mas agora é pra valer.





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