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filosofia

Cavalaria Maldita

Cavalaria maldita

De tempos em tempos, certas idéias e ideais costumam reunir em torno de si pequenos grupos. Esses grupos defensores desses ideais costumam sofrer preconceito da maioria da população, simplesmente por não conhecerem como funciona. Ou simplesmente encontram dificuldade para promover as mudanças que desejam. Então deseja-se divulgar, que esses grupos tenham mais adeptos para assim aumentarem o entendimento do assunto e diminuir o preconceito, e conseguirem ser ouvidos. O problema é que na maioria das vezes o tiro sai pela culatra...

Aconteceu com os Hippies

O Movimento Hippie quebrou paradigmas e trazia todo um conjunto de atitudes. Nao era só falar de "Paz e Amor", era viver isso. Não era só mudar o visual, era mudar a atitude diante do mundo.

Eles chocaram e ganharam os holofotes. O que houve então? Virou moda! Receberam diversos novos "adeptos", mas adeptos modistas, não sinceros. O problema disso é que não eram hippies internamente, só esteticamente.

Mídia, Mídia...

Quando o movimento é restrito a um grupo, há uma "quase garantia implícita" de que os novatos receberão o conteúdo necessário para entender de que se trata o movimento e então decidirem se "é pra eles" ou não. Nada mais natural. Assim, o movimento continua pequeno, mas consistente. Este é o ponto positivo, a consistência. O negativo é que não dá pra fazer uma "transformação social" com um grupo pequeno demais, por isso vem o desejo de expandir os horizontes: o movimento precisa de reforços.

Um certo dia, líderes - ou os mais exaltados, ou até mesmo alguém de fora - terminam chamando a atenção da mídia. Surgem algumas matérias apresentando o movimento e aumenta a curiosidade do público em geral a respeito do tema.

Com a curiosidade, abre-se uma demanda por mais matérias. E passam a ser abordados aspectos menos importantes do movimento, até o ponto de desinformação.

Empolgados com o que viram na TV, um grupo de gente começa a "se auto-iniciar" no movimento. Compra acessórios, roupas, uns CDs, muda o cabelo e pronto! Já se sente parte do movimento. O movimento duplica, triplica, quadriplica, ou até mais, o número de "adeptos", porém com adeptos desse naipe.

É chegada a Cavalaria Maldita.

Por que Maldita?

Ora, por que acha que os primeiros adeptos daquele movimento mudaram tanto a forma de ver o mundo, de agir e se uniram? Isso não sai barato, socialmente falando! Sempre se enfrenta preconceitos da grande população ao integrar um movimento social no início. Todo movimento social traz uma mensagem e um conjunto de valores reivindicados. O principal propósito é o "apelo de valores". A cavalaria que chega não conhecerá esses valores. Pra que vai servir o tal movimento então, sem esses valores?

Por isso, tão logo chegue a Cavalaria Maldita, invariavelmente o movimento decresce e começa a fracassar em seu propósito principal. Os veteranos percebem isso desde o início e começam a se irritar com os novatos. Os novatos, por sua vez, terminam achando que os antigos são "elitistas" e não percebem que o problema está no fato de eles próprios não conhecerem a essência do movimento. O movimento se fragmenta.

A tragédia maior são os "novos líderes", vindos dentre os novatos, que ganham a mídia. E assim a cavalaria toma o lugar da vanguarda, tornando-se a parte mais forte do movimento. Pronto. Está tudo condenado. Quando passar a moda, poucos sobrarão para juntar os cacos e tentar resgatar aquilo que tinham no início...

Alguns Outros Casos

Punks e góticos são visualmente interessantes. Seus estilos são interessantes. Por isso mesmo, e pela exposição que já tiveram na mídia, é comum aparecerem "novatos superficiais" desse tipo, que mudam apenas o visual e já se sentem como parte do grupo. São chamados de "posers".

Outro caso interessante e um tanto recente é a Wicca, uma linha moderna de Bruxaria. Apesar de não ser um Movimento Social e sim uma religião, sofre do mesmo problema. Wicca é uma religião pagã centrada em um Deus e uma Deusa. Muitos novatos "se anexam" à Wicca influenciados por filmes como o Senhor dos Anéis, Harry Potter, ou por desenhos como Witch. Resultado: tem até gente que mistura deuses pagãos com anjos, santos, etc, simplesmente por não perceber que Wicca é uma "religião" e tem seu conjunto de crenças próprio. Pelos excessos no trato visual e pela forma "conto de fadas" de ver o mundo, esses novatos são tratados como "pink wicca".

Por incrível que pareça, o Movimento pelo Software Livre também sofre com cavalaria assim. Nesse caso, com um agravante: o interesse empresarial. O Software Livre foca primordialmente a liberdade coletiva de acesso, estudo e modificação de programas de computador. Simples assim. Essa foi a motivação que originou o movimento e o que criou suas bases. O problema é que muitos gostaram dos resultados, mas não do caminho, e terminaram criando conceitos derivados. Isso falando só dos esclarecidos, porque também tem muita gente novata que chega achando que defender "software livre" é defender programas de graça, o que são duas coisas distintas. Há ainda quem queira pegar carona no movimento para se promover. Lembrando que a origem do movimento pelo Software Livre foi com o projeto GNU, estes caronistas já foram taxados como "bois".

Conclusão

  1. O movimento se forma em torno de um conjunto de valores;
  2. O movimento se constrói e cria uma identidade própria;
  3. O movimento vislumbra uma chance de dar sua mensagem, mas precisa de exposição;
  4. O movimento se expõe;
  5. Chega a cavalaria maldita;
  6. Os novatos leigos se tornam maioria;
  7. O movimento se fragmenta.

Questões:

  1. Como evitar o enfraquecimento do movimento após a chegada da cavalaria?
  2. Há como criar formas de "recrutamento" para a cavalaria?
  3. No final das contas, qual a melhor postura para o grupo original, para que possa manter viva a causa e evitar a extinção do movimento? Não tenho respostas para essas perguntas, mas isso me preocupa, de modo geral. Haverá ainda alguma salvação para os que lutam por seus ideais?

Só deixo um apelo: quando se empolgar com algum movimento social (ou algo próximo disso), faça seu dever de casa: pesquise! Entenda as figuras antes de vestir a camisa! Não ajude a destruir mais um sonho coletivo...

-- Cárlisson Galdino


Fábula da Liberdade

Imagine alguém preso em uma jaula, vivendo a pão e água. Amarrado pelos pulsos, tornozelos e pelo pescoço, esse alguém passa seus dias trancado ouvindo apenas o barulho da praia e dos animais ao seu redor. A pessoa que a trancou às vezes aparece com sua limousine. Ela fala uma língua que o prisioneiro não entende, mas não há problema: raras vezes fala diretamente com ele.

O que você me diz sobre liberdade nesse momento? É inegável que isso é tudo o que essa pessoa que vive em uma jaula não tem, certo? Não creio haver dúvidas quanto a isso.

Agora imagine que você, homem normal, descobre a pessoa que vive sob essas condições tão desumanas. Primeiro vem o sentimento de revolta, de que o mundo está errado e isso não pode estar acontecendo. Após aceitar o que acontece como verdade, dependendo de quanto você valorize sua própria liberdade, você desejará que essa pessoa seja tão livre quanto você.

Vamos supor que você criou coragem e, inspirando-se em tanto quanto já se falou sobre liberdade nos últimos tempos, partiu rumo à libertação de tão infeliz criatura.

Após entrar no covil e furtivamente roubar as chaves, você se dirige à jaula. A pessoa o observa, assustada com o que está acontecendo. Você saca a chave e, girando-a no cadeado, começa a tentar desfazer o mal tão grande que fôra feito por outros. Entra. Solta as algemas, olha para a pessoa e diz: Você está livre. Vamos fugir para um lugar seguro. Enquanto olha ao redor, preocupado se alguém já descobriu seu intento, você ouve o barulho das algemas. Ao se virar, vê a tal pessoa se prendendo novamente, dizendo: Prefiro ficar aqui.

O que fazer diante de uma situação tão inesperada? Depois de feito o mais difícil, o prisioneiro simplesmente se nega a colaborar. O que se deve fazer? Deixá-lo e ir embora se lamentando por esse alguém não dar valor à própria vida ou, já que veio até aqui, levá-lo à força? Você ama a liberdade e quer libertá-lo. Mas se ele não quiser e escolher ficar, você é capaz de lhe dar liberdade de escolha? Afinal, há liberdade ao se escolher a não-liberdade? Se podemos chamar isso também de liberdade, o que é a liberdade afinal?


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