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Escarlate #50 - O Olhar de Knova
Tudo aconteceu rápido demais... Um corpo enorme de dragão vermelho repousa assassinado em seu próprio lar. Ferido mortalmente por aquele em que confiava e enfim eliminado por uma arma que já matou outro dragão: a Roph-Raph.
Gravado nos olhos de Zand, aquele olhar triste e surpreso de Knova traz fim à dúvida que ele sempre teve: “Ela gosta mesmo de mim?”. Ao vê-lo, ela podia cospir fogo ou girar o corpo para esmagá-lo, mas ao invés disso apenas o olhara...
“O que foi que eu fiz...”
Ele abaixa a cabeça e se apoia no corpo de Knova, enquanto o sangue de dragão ensopa suas vestes. Nem ao menos ouve as palavras de Eve dentro de sua cabeça; nem as de Willen, fora.
Os dois questionam onde andam Rubi e Azkelph, que não se encontram na cena do crime. Apenas Halkond, que já recolheu a Roph-Raph e dá alguns passos adentrando mais a caverna.
Sofás e tapetes pegando fogo, mal iluminando o lugar. Finalmente Zand consegue ouvir uma voz distante...
“Zand... Zand... Está aí? Você está bem? Zand...”
“Eve?”
“Acorde.”
“Acabou...”
“Não, não acabou. Olhe.”
Zand ergue os olhos cheios de lágrimas e vê Rubi e Azkelph retornarem para perto de Halkond. Azkelph traz, flutuando, algumas esferas de energia estranhas e em sua mão mais um cajado.
Halkond beija Rubi enquanto Azkelph gesticula e balbucia palavras mágicas. Rubi ainda sorri um riso triunfante para Zand, antes de desaparecerem os três em um globo verde, deixando apenas a destruição no lar de Knova...
“Zand...”
“O que eu fiz?!”
“E eu deixei fazer... Me desculpe.”
“A culpa é minha.”
Willen caminha lentamente em direção ao lugar onde Rubi estava agora há pouco, até chegar a um enorme aposento vazio. Então volta.
Seu coração está feliz em parte por ter finalmente participado de uma grande aventura para coroar sua carreira de guerreiro. Mas nunca pensou que seria a esse preço.
Não precisa falar para Zand que sente muito pela traição de sua “namorada”, nem precisa falar que provavelmente aqueles globos que Azkelph trazia eram todo o tesouro de Knova, sob efeitos mágicos que facilitassem o transporte.
Willen sente a ruína em que seu pupilo está. Simplesmente apoia a mão em seu ombro por uns segundos e, sem dizer uma palavra mais, se afasta pela entrada principal, pelo grande corredor, para deixar Zand só.
“Zand?”
Eve pergunta ao perceber a mudança. Zand de repente enxuga as lágrimas e seu olhar e expressão mudam.
Ele se levanta, com raiva e com a força de um insano, começa a arrancar as escamas do corpo de Knova.
“O que está fazendo?
“...”
“Vai querer fazer uma arm...”
Zand arranca mais uma escama com raiva.
“Rubi vai me pagar, Eve! Pode apostar! Quem morreu nesta caverna hoje não foi Knova. ...Foi Zand.”
Escarlate #49 - O Ataque Final
A adrenalina distorce o tempo e os passos apressados de Zand contrastam com seus pensamentos distantes. À sua frente, cada vez mais a cena de batalha se torna clara.
“Já pensei tanto se o que sinto por Rubi não é fruto de um tempo de solidão. Não há como ser, há?”
“Sempre há.”
“Ainda está me ouvindo, Eve? É estranho... Essa pergunta era uma pergunta retórica para mim mesmo...”
“Entendo. Desculpe minha intromissão, mas enquanto eu estiver contigo você não estará sozinho. Isso tanto na forma de algo positivo como não. Já fez sua escolha?”
“Já. Vamos continuar com o plano.”
“Tudo bem. Então veja.”
Zand ajusta a visão e já consegue distinguir entre as sombras e, iluminado pelo fogo nas paredes: Knova luta contra os três. É Rubi quem rola no chão e salta sobre um sofá com uma agilidade felina, esquivando-se da garra de Knova, enquanto Azkelph forja um globo mágico para proteger a si e a Halkond de mais um sopro de fogo.
“Vamos acabar com isso rápido. Afaste-se dez metros à esquerda de seu mestre e continue correndo. Eu te guiarei até um ponto vital do dragão.”
“Entendido.”
A voz de Eve tranquiliza o espírito de Zand. Ela está certa: o momento é difícil. E pior que isso, não consegue se concentrar em nada agora, menos ainda num plano. Eve como guia foi o que melhor podia lhe acontecer.
Zand e Willen continuam correndo, chegando cada vez mais perto de Knova.
- Zand, entendi. - Seu mestre lhe fala ao perceber o distanciamento de Zand, que seguia as instruções de Eve. - Vou te dar cobertura. Aproveite.
Halkond trava uma disputa rápida, trocando golpes, com esquivas, usando a Roph-Raph. Aparando as garras de Knova e tendo seus golpes aparados por ela.
Isso prossegue até que Knova percebe a aproximação de mais guerreiros e, num movimento rápido, cospe fogo em Halkond, jogando-o para longe. Ao mesmo tempo, Knova gira o pescoço acertando de surpresa as pernas de Willen, que saltava para lhe aplicar um golpe. Sua espada arranha um pouco Knova, mas muito pouco.
Era o tempo de que Zand precisava. Zand salta e, após apoiar por um instante o pé no joelho de Knova para tomar impulso, crava a Eve-64 em algum lugar entre suas escamas.
Knova grita de dor, enquanto vira a cabeça em direção de quem a agrediu.
Ainda no ar, apoiado apenas por Eve-64, antes mesmo de aterrissar no corpo de Knova, Zand vê aqueles olhos. Naqueles olhos a expressão de surpresa.
Tem a impressão de ver lágrimas naqueles olhos gigantes. É nesse instante que ainda mais cenas passam rapidamente por sua cabeça.
Passado, presente e futuro se misturam. E ele relembra, em fração de segundo, o pouco de vida que teve ao lado dela.
Aqueles olhos... Era sempre um olhar parecido, um olhar que cativara o aventureiro e até hoje ainda parecia exercer poder sobre ele.
E é nesta ocasião do golpe, em especial, que Zand finalmente entende aquele olhar. E esse entendimento gela seu coração. Ele percebe que, mesmo com todas as ameaças, a dona daqueles olhos nunca seria capaz de lhe ferir. Que a solidão que aquela alma defendia não era só por arrogância, mas também por medo. Medo de mostrar um sinal de fraqueza a uma criatura tecnicamente inferior. Naquele instante, aqueles olhos lhe ferem mais do que ele a seu corpo...
Escarlate #48 - Qual lado?
“Ela passou caminhando... Na forma de dragão mesmo.”
“Foi, Eve. Certamente ela ouviu alguma coisa.”
“Foi o que pensei... Ela deveria entrar voando ou caminhando tranquilamente na forma humana.”
Zand e Willen, a postos, esperam, de cima do “muro”, o momento certo de entrar no salão principal. Não há passagem até lá, mas o chão é fino e Eve já dissera que daria um jeito.
“Knova já passou. Será que Rubi não conseguiu encontrar uma saída a tempo?”
“Não se preocupe, Zand. Apenas esteja preparado para entrarmos a qualquer momento. No fundo pouco importa se conseguiram ou não achar uma saída. Mais cedo ou mais tarde vão encontrar, é quando teremos que agir.”
“E o que você vai fazer exatamente, Eve?”
“Eu faço vocês chegarem lá, o resto é com você.”
Está tudo escuro e Zand e seu mestre quase não respiram. Se houvesse luz, a expressão apreensiva dos dois seria facilmente revelada. Mas não há.
“Não se preocupe, Zand.”
“Entenda, eu estou bem. Não preciso...”
“Eu sei. ... Não precisa me dizer que é um aventureiro que já participou de várias missões: eu sei disso. Eu sinto isso perfeitamente. Mas esta é diferente de todas as outras e não é errado ou estranho você estar nervoso, preocupado e confuso.”
Zand não responde.
“Ainda está me ouvindo?”
“Estou.”
“Continue atento. Não se distraia. E não se preocupe que vai dar tudo certo.”
“...”
“O mais engraçado é que não sei se você está mais preocupado com Knova ou com Rubi. Sinto quase como se você quisesse que as duas brigassem entre si para você mesmo não ter que escolher de que lado ficar.”
“Eu já fiz minha escolha.”
“Fez, mas são quase que apenas palavras. Não fez sua escolha com segurança ainda. Fez sua escolha para ter uma posição a mostrar para os outros, é como se não tivesse feito sua escolha por você mesmo.”
“Você está certa...”
“Não se preocupe. A dúvida é normal quando chega o momento decisivo, o ponto sem volta. Se quiser mudar de ideia talvez nem mesmo haja tempo, mas o momento é este. Este é o ponto sem volta.”
“Não, não posso mudar de ideia.”
“E te digo isso porque gosto de você, apesar de te conhecer nessas condições e há tão pouco tempo. Sinceramente não sei te dizer qual dos dois caminhos escolheria caso fosse eu que estivesse nessa situação.”
“...”
“Então decida-se realmente. No campo de batalha não há lugar para dúvidas: ou você está de um lado, ou do outro. Ou está em um dos lados, ou está contra os dois.”
“...”
“Sinto muito, aventureiro. Seu tempo acabou.”
Quase ao mesmo tempo em que Eve comunica isso telepaticamente, Zand e Willen ouvem um berro monstruoso, seguido de pancadas e sons de eletricidade.
- Vamos! - Willen grita e pula com Zand na parte de piso fraco.
Eve-64 apenas toca o piso e ele se desmancha. Sem saber como exatamente isso aconteceu, estão os dois de pé no meio do enorme corredor, vendo apenas uma luz mais adiante. E eles correm em direção à luz e ao barulho, para cumprirem com o planejado.
Escarlate #47 - Lembranças de Knova
Zand abre os olhos cansado. Diante deles vê um rosto lindo em meio a cabelos ruivos. No rosto que vê, um sorriso muito sutil, mas também terno. Um sorriso difícil de descrever, quase maternal e protetor, em um rosto decidido. E aquele olhar firme.
- Bom dia, Knova!
- Bom dia, Zand.
- Faz tempo que acordou?
- Faz. Você se mexe muito dormindo, não dá pra dormir direito.
- Desculpa...
- Não se incomode.
Um dragão vermelho voa, levando Zand no dorso até o topo da montanha. Zand desce e logo se aproxima a ruiva e fica do seu lado, vendo o por do Sol.
- Não sabia que dragões eram tão românticos. - Zand deixa escapar num suspiro, olhando nos olhos de Knova.
- O que é ser romântico?
- Ah, essas coisas... Querer estar junto, ver a paisagem. Isso de ficarmos meio bestas por alguém.
- O que quer dizer com isso? - Sua expressão mostrava raiva.
- Calma, Knova. Não estou te criticando. Estou achando lindo esse lado seu.
- Seu bardo insolente! Escute aqui! Eu...
Zand se aproxima, mas Knova o joga nas pedras e continua, enquanto ele se senta, com os braços arranhados pelas pedras.
- Ninguém me chama de fraca. Ninguém, entendeu! Você agradeça aos deuses o apreço que te tenho. Não fosse isso, não tinha te jogado deste lado, mas daquele. - E aponta para o vale à frente.
- Calma, meu bem...
- Não me peça calma, Zand! - Ela se afasta dois passos e fica olhando as primeiras estrelas, com o rosto para o lado oposto ao lugar onde Zand está. - Não devia ter te trazido aqui.
Zand abaixa a cabeça. O Zand ainda jovem, ainda apenas bardo. Arrependido de ter falado aquilo. Não que houvesse qualquer problema com o que falara, mas por ter dali nascido um problema.
- “Quando a Lua sequer nasceu
E as estrelas brilham no céu
Eu vejo e não acredito
Seu rosto fica mais bonito!”
- Idiota! Estou de costas!
- “Me deixa te ver outra vez
Desfazer o mal que se fez
Me ame, me beije, não me mate
Oh minha rainha escarlate!”
Knova se vira para Zand, ainda com a cara fechada. Não se nota bem se ainda está com raiva, mas Zand sente que a raiva passou ao ver seus olhos.
- “Knova, por que que é assim?
Te quero e você, quer a mim?
Tão longe do meu proprio mundo
Só pra te ter perto um segundo”
Os lábios finos de Knova esboçam um sorriso discreto, enquanto ela se aproxima.
- “Rainha que vive tão só
Não teme mais nada ou ninguém
Tão linda, gigante, fatal
Será que aqui dentro tem
Espaço para mais alguém
Para um pobre humano normal
Esse pobre humano que é teu?”
Primeiro os dedos de Zand tocaram o peito de Knova enquanto ele cantava falando do “aqui”. Logo os dois se beijam à luz das estrelas de um céu limpo, claro e sem Lua...
Um ruído traz Zand de volta de suas lembranças. Um ruído na sala principal e seus dois companheiros lhe mandando ficar em alerta. Enquanto Willen cutucava seu braço, Zand percebia a voz de Eve, tentando lhe falar: “Atenção, aventureiro! Ela está chegando! Ela está chegando!”
Ele ouve os passos. É mesmo Knova que caminha pelo corredor principal, bem abaixo deles...
Escarlate #46 - A Espera?
A caverna estreita se curva em direção ao centro da montanha. Ainda está inclinada e como uma ladeira.
“Agora talvez estejamos nos afastando, Zand.”
“E o que fazemos?”
“Se não houver um caminho de descida, teremos mesmo que voltar.”
“Droga.”
Eles seguem. Zand pensa se não vão terminar encontrando o grupo de Rubi do outro lado. Afinal, estão se dirigindo para lá. É bem possível que os dois caminhos levem ao mesmo lugar...
De repente Zand se vê diante de um buraco. Abaixa-se e tenta entender o que está havendo.
O buraco não é muito fundo, ou seja, não cai direto na caverna. De repente, Zand tem a impressão de ver um brilho a uns dez metros, num corredor seguindo por esse buraco.
“Não vá por aí. Encontramos.”
“Como assim?”
“Esse piso parece muito frágil. Pode resistir o peso de vocês ou não. De qualquer forma, fará barulho. Então melhor esperar aqui.”
“Tem certeza?”
“Não dá para ter certeza, mas é altamente provável que quebrando este chão o grupo caia exatamente no meio da caverna e, se o grupo da sua namorada teve sorte, a uma boa distância deles. Podemos encurralar o dragão aqui.”
“Que bom. Então vamos esperar. E o que terá sido aquela luz? Pode ser Rubi...”
“Pode. Se for, eu estou totalmente equivocada e essa passagem não vai para dentro da caverna. Ainda assim, é melhor o grupo se juntar para decidir o que fazer, se for este o caso.”
“É, você está certa.”
Zand recua dois passos e se senta, esperando a aproximação de Willen. Os dois ficam sentados próximo ao buraco na caverna, a postos para entrarem a qualquer momento.
- Tem certeza que é uma passagem? Você viu a caverna?
- Não, mas Eve...
- Zand, meu caro aprendiz... Não confie cegamente nos outros. Esse caminho que fizemos é muito torto para que se possa dizer facilmente se continuamos ou não no caminho certo.
- Eve foi uma guerreira muito experiente antes de ter acontecido isso com ela.
- Tenha cuidado, Zand. Você fica cego quando se trata de mulheres. Primeiro foi esse dragão. Se envolveu com ela sem nem perceber que era um monstro. Depois sua namorada ladra e agora essa tal de Eve. Tenha cuidado, muito cuidado.
- Com todo o respeito, meu mestre, mas não fale besteiras. Não há nada entre Eve e eu, nem é possível haver.
- Se você diz... Só espero que isso tudo não termine da pior forma.
“Não tenha raiva do seu mestre. Ele tem razão em se preocupar. Ceticismo é uma qualidade.”
“Acha mesmo?”
“Acho. Sempre agi sozinha, ou liderando ajudantes. Você conhece minha história.”
“Claro...”
“Sabia que há vários tipos de dragão, não apenas os vermelhos, não é?”
“Sei sim.”
“Há dragões metálicos, dragões cromáticos... Havia um catálogo enorme, porém nem todos se pode ver hoje.”
“Dizem que se perderam em outra dimensão, não é?”
“Ou que a maioria deles estão em um plano paralelo ao nosso. Sinceramente, depois do que aconteceu comigo, não duvido mais de nada...”










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