Romance
Parte 8 - Cruzada *
- Vocês? - É a voz estridente de Vistafera. - Já terminou a reunião.
Bella continua séria ali, do mesmo jeito. Por quantos minutos ficamos aqui parados vendo esse galho se mover, no meio dessa plantação de cogumelos? Cadê o povo? Os dois continuam ali conversando. Devem estar discutindo se estão ou não em outro planeta... Haja paciência.
Ali! Ali está o Catarino! Encostado numa árvore olhando pra gente, pensativo. Será que viu a Bella movendo o galho?
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Parte 7 - Chegada
Mal o Catarino termina de falar, abro os olhos. Árvores enormes, de cores diferentes, mais... brilhantes! Mesmo as plantas rasteiras são diferentes do que conheço. O vento frio que vem vindo por entre as árvores se mistura a um medo estranho. Não há possibilidade de dúvidas em afirmar que não estamos onde estávamos. Talvez não estejamos nem mesmo mais na Terra.
O mais estranho é que nada disso parece real. Sabe quando você está num sonho e sabe que é um sonho? É exatamente isso aqui...
Não dá pra ver o céu além da copa das árvores, só um ambiente estranho, mesclando escuridão e brilhos verdes naquele meio mundo de folhas lá em cima. Não sei porque, mas algo me diz que o céu daqui não seria uma visão muito boa...
Pelo visto os outros três estão tão admirados quanto eu. O Jardel está sentado no chão olhando em volta. Deve estar pensando "Como foi que a gente veio parar aqui?". Tá bem, vou parar de tentar adivinhar o que os outros pensam...
A Bella está me chamando para ver uma planta.
- O que foi?
- Olha...
Sua mão toca a folha, mas não consegue empurrá-la.
- Deixa ver...
As folhas são lisas, lisas como se estivessem lubrificadas. E não dá pra empurrá-las. Pequenas, verdes, mas é como se fossem de metal.
- Essas plantas são de verdade? - A Bella pergunta.
Um vento frio bate novamente e podemos ver as folhas agitando ao vento.
- Estamos mais fracos que o vento aqui? - A Bella pergunta, quase como um desabafo, pouco antes de se levantar e ir em direção ao Catarino. - Estamos mortos?
O Catarino responde com um sorriso. Um sorriso de adulto que ouve uma criança fazer uma pergunta besta.
- Não, vocês não estão. Vamos agora?
Seguimos por essa floresta tão estranha. Há um caminho por onde a gente poderia passar sem se preocupar com essas plantas. Acho que um caminho com um pouquinho de mato já seria meio impossível para nós atravessarmos...
- Esperem!
O Catarino pára de repente estendendo o braço em sinal pra paramos também.
- O que foi agora...
- Quietos.
Ele se vira para as árvores de lado, vira a cabeça para cima e para baixo como se estivesse... Farejando!?
Do nada um ataque. Alguma coisa salta dentre as árvores quase atrás de nós, mas se choca com alguma outra coisa e vai bater em árvores mais longe. Na verdade eram três coisas que vinham. Vinham e bateram no Catarino.
Os três se levantam devagar de perto das árvores onde caíram. Não, não me perguntem como o Catarino apareceu do nada atrás da gente se ele estava lá na frente. Até olhei pra frente na hora pra ver se não eram dois Catarinos agora, mas era só um mesmo.
- Puta que pariu... - É só o Jardel tentando descrever a cena a seu jeito. Todo mundo tá surpreso, claro, né? E mais ainda quando vemos o que se levantou.
Três lobisomens, que estão vindo de novo. Olho para o lugar onde caíram, de longe mesmo, e dá pra ver que eles machucam plantas. Não é uma conclusão muito animadora...
Um deles resmunga qualquer coisa para o Catarino. Digo que resmunga pelo tipo estranho de voz que ele tem e pelo tipo também estranho de idioma. Mas a gente ouve tudo bem alto, só não entendemos nada. O Catarino responde no mesmo idioma e a resposta não parece ser a que eles estavam esperando pelo que eles dizem depois.
Catarino se vira pra gente e diz simplesmente: agrupem-se. Nós quatro nos juntamos e ficamos vendo a cena. Tentando ver seria a expressão mais certa. É tudo muito rápido. São manchas distorcidas pela velocidade tentando chegar até nós e esbarrando em algo no caminho, sendo arremessadas para longe.
A situação tão diferente demora... E nós quatro ali, sem saber o que fazer, morrendo de medo de que um desses relâmpagos humanos, ou melhor, nem humanos são essas coisas, termine não esbarrando em nada e vindo até nós.
Tudo acontece muito rápido. Rápido demais. Mesmo nesse pouco tempo, aqueles lobisomens conseguem vir pelo menos umas cinquenta vezes, e esbarram no Catarino. Logo, ao invés de pancadas espaçadas, ouvimos uma sequência muito rápida, como pedal duplo de uma banda dessas de música ligeira e pesada. Mais um pouquinho e ouvimos isso de novo. E de novo.
Pronto. Parou? Lá está o Catarino, com o pé direito sobre um dos três lobisomens. Outro está ali, caído de costas no chão no meio do mato. O terceiro não sei onde está, mas deve ter sido derrubado também. Ou terá fugido?
- Tudo bem, vamos continuar.
Simples assim, ele fala. Como se tivéssemos parado para um lanche num grupo de escoteiros.
- Ah, não, mermão! Qual é?!
Jardel praticamente salta sobre o Catarino.
- Vamos, por aqui.
Ele tenta ir embora simplesmente, mas o Jardel simplesmente não quer deixar. Bella vem pra junto dele, tentando amenizar as coisas.
Lá de lado está ainda o corpo inerte daquela criatura estranha. Parece um lobisomem, mas não se parece com nenhum que eu tenha visto em algum filme. O fucinho lembra uma raposa daquelas mais vagabundas. Sabe, né? Tem vários tipos de raposa... Não é como girafa que é tudo girafa e pronto. Essas parecem daquelas bem esfomeadas, porque tem até umas raposas que são bonitinhas...
- ...a gente continue nessa merda!?
Jardel continua discutindo...
- Calma, Jardel, ele sabe o que está fazendo. Vamos lá, calma que vai dar tudo certo.
- Tudo o quê, Bella! Tudo o quê!? A gente nem ao menos sabe o que é esse "tudo" que tem que dar certo! Que droga!
E o bandido continua ali de pé, olhando para o Jardel e rindo agora. Deve ser riso nervoso. Sabe, quando a gente ri porque está nervoso e não porque está realmente achando alguma graça em qualquer coisa.
O Catarino olha para o grupo. Já havia se dirigido ao caminho de antes.
- Não quero saber! Não dou mais um passo até saber onde é que a gente está?
- Tudo bem. - O Catarino volta e se aproxima do grupo. Parece até calmo para a situação. - Se vocês não entenderem, o problema é de vocês. Vou dizer onde vocês estão.
- Fala logo.
- Vocês não estão mais na superfície da Terra.
- Eu sabia! - Jardel grita, eufórico. - Estamos em outro planeta, não é? Eu bem que desconfiei!
- Errado. - Catarino continua. - Estamos no que chamamos de Intramundo. É um mundo dentro do mundo que vocês conhecem. Ou seria o mundo que vocês conhecem que estaria dentro deste, não sei dizer ao certo. Mas é aqui que vocês estão.
Todos perplexos se olham, enquanto o Catarino volta ao caminho. De lá, ele vira o rosto para trás e diz:
- Fiquem perto de mim, se não quiserem problemas.
Intramundo... Então tá. E por que aqueles lobisomens nos atacaram? Vamos lá todos atrás do Catarino. Afinal, em uma terra estranha, ficar perto de alguém que a conheça pode representar a diferença entre a vida e a morte.
- Mas que droga é isso de Intramundo!? - Jardel resmunga. - Nunca ouvi falar de nada disso! Quer dizer que não estamos em outro planeta... Mas é como se a gente estivesse.
- Jardel, esquece. - É a Bella, tentando mais uma vez acalmá-lo. - Tenta entender não que é pior. A gente tá aqui e pronto.
- Como você fica tão calma?
- Estou encarando isso como mais uma viagem doida. Daqui a pouco acordo e tudo o que precisa fazer sentido vai fazer sentido.
Haha! Boa! Sabe que a Bella mesmo maluquinha como só ela mesmo até que tem umas idéias legais? É interessante o jeito como ela às vezes vê as coisas. Pena que tenha esse problema com drogas... Ué, interessante que nem parece ter problemas do tipo ultimamente. Como já disse, suspeito que seja a presença do Catarino.
Sabe, é uma coisa muito estranha e difícil de aceitar. A presença de alguém funcionar como tratamento anti-dependência? Mas sei lá, agora que descobri que o Catarino não é desse mundo... Ou melhor, é desse mundo, nós é que somos do outro. Enfim...
- É ele? - Uma voz estranha vem de trás de nós. Uma voz aguda e inumana.
Pra quê que eu me viro? Uma abelha de quase meio metro!
- Ahhhh! - A Bella corre pra frente.
- É. - O Catarino responde sem nem ao menos olhar pra trás. A abelha voa olhando pro bandido.
- Peraí, cara! - Jardel de novo. - Que negócio é esse aqui?! Porra, Catarino! Que droga de mundo é esse?! É a Terra do Nunca?
- Terra do Nunca? Que nome estranho! Onde é isso? - A abelha responde se aproximando do Jardel.
- Sai pra lá! Quero negócio com você não!
- Ah, fala assim não... - Bella defende. - Até que é bonitinho... Ou seria bonitinha?
- Oi, meu nome é Vistafera.
- Vista Fera? - Jardel - Que droga de nome é esse?! Nem sei pra que vim pra essa droga de viagem...
- Ei, eu me chamo Isabella, mas pode me chamar de Bella.
- Oi, Bella! Sabe que nossos nomes são um pouquinho parecidos?
- Só falta a abelhinha dizer "pode me chamar de Fera" e pronto. Caímos num conto de fadas. - Jardel comenta e começa a rir, do nada.
Curiosa observação a dele. "A Bella e a Fera", que na verdade eram Isabella e Vistafera. Sabe que até que daria uma história interessante!?
- O que vocês fazem aqui? Era pra vir só um humano.
O Catarino parece incomodado com a tagarelice do seu amigo, mas continua em frente.
- Eu quis vir com eles pra ver o que ia acontecer. - A Bella responde. - Na verdade, a gente quis vir junto mesmo. Sabe que você até que é bonitinho! Ou é bonitinha? Ainda não respondeu! Acho tão legais essas listras amarelas e pretas... Um charme!
- Não entendo o que quer dizer.
- Deixa pra lá...
- Mas acho que vocês não sabem o que estão fazendo. Se meter assim no meio de uma guerra só por curiosidade é complicado, sabiam? Vocês são um povinho corajoso! Ainda mais pra humanos, que são fraquinhos e inúteis em combate...
- Como é que é?
- Vistafera! Agradeço se conseguir se manter quieto até chegarmos lá. - Catarino intervém, com aquele jeito autoritário dele.
- Tudo bem. Desculpa aí, tá? Pensei que eles já soubessem.
- Soubessem de quê?! - É Jardel mais uma vez. - Que droga é essa?! O que vocês estão escondendo!?
- Tudo será revelado no momento oportuno. - Catarino responde.
- É, oportuno pra você! A gente tá entrando num negócio perigoso pelo jeito. E se quando você disser o que há não houver mais volta e a gente tiver na maior fria, como é que fica?
- Calma.
No fundo, é claro que Jardel tem razão. Agora com essa história de guerra então... Onde a gente se meteu. O carinha continua calado, analisando tudo. Seu olhar parece estranho. Se eu fosse o Catarino, ficaria de olho nele. Pra ele endoidar e correr por dentro da mata a qualquer momento não custa muito.
Bella vai pra frente, pra perto do Catarino. Coloca suavemente a mão em seu ombro e pergunta, do jeito mais doce do mundo: "Pra onde está nos levando?"
- Confie em mim. - Quase não ouço sua voz. Ele respondeu bem baixo, só pra Bella, mas de um jeito seguro.
A abelha, esse ou essa tal de Vistafera, vem voando acompanhando a gente. Agora totalmente calada depois da bronca do Catarino. É uma longa viagem essa a pé. Pelo menos pra um grupo que não faz a menor idéia de pra onde está indo
A viagem prossegue por um tempão ainda... Ainda ao longe, se pode ver cogumelos. Mas cogumelos grandes, de mais de um metro e meio. Cogumelos, cogumelos... Só pode ser isso! Tinha que ter algo de bom nessa viagem! Tinha! São aquelas criaturas que o povo fala e que a imprensa não dá muito espaço! Não vejo a hora de ver como são essas criaturas de verdade...
- Que é aquilo lá na frente? - O carinha grita. - São cogumelos mesmo!? Que droga a gente usou pra ver isso tudo!? Porque lobisomem, abelha que fala e agora só faltava cogumelos gigantes! Eu não me lembro de ter usado nada!
- Hahaha! Eles davam um chá legal! - É a Bella que comenta.
Engraçada a observação. É uma piada óbvia, mas achei engraçado na hora. Acho que por querer tanto ver essas criaturas, se forem mesmo o que eu tou pensando.
- Fala assim não, Bella. - Vistafera voa para perto dela. - Eles podem ficar ofendidos.
- Ofendidos?!
São mesmo eles!
A gente caminha justamente em direção aos tais cogumelos. Nos aproximando deles, eles não demonstram qualquer sinal de vida animal. Parecem meros cogumelos. Tem de um metro e meio até uns três metros. Com chapéu pra baixo, pra cima... Com chapéu pequeno, chapéu grande. De cores diferentes também. Muito interessantes esses cogumelos. Será que são violentos ou são criaturas legais? Será que estão vivos? Por que parecem tão parados?
- Mário? - Bella pergunta - Você está bem?
- Estou. Por quê?
- Está com um sorriso besta na cara!
- Enfim vocês chegaram. - Uma voz grave e fofa vem do lado. Como numa "viagem doida", como diria a Bella, todos os cogumelos começam a se mexer. É muito engraçada a cara do povo assustado. A Bella salta pra perto de mim olhando para o lado com a boca aberta, quase caiu! Parece que só o Catarino e eu estamos de boa.
- Mário!? Que é isso!?
- Calma. - O Catarino pede, mas Jardel corre ainda uns três passos até ver que nem tem como sair. - Eles são aliados.
É incrível! Os olhos e bocas apareceram. Fechados, eles somem. Os braços e pernas também saíram como se esses cogumelos fossem transformers daqueles filmes sobre a maldita tecnologia que as crianças gostam...
- O que tá havendo, Mário? Por que está tão calmo?
- Esquenta não, Bella... - Abraço ela pra acalmá-la mais e aliso seu cabelo. - Vai ficar tudo bem. São só um povo diferente.
- Um povo?! - Ela se estica para ver melhor sem que precise se afastar dos meus braços.
É, um povo... E enquanto nós paramos aqui, o Catarino já foi lá à frente conversar com eles. Um cogumelo bem grande se vira paran ós.
- Sejam bem-vindos.
É preciso muita força de vontade pra não gargalhar numa hora dessas. A cara que o Jardel e outro estão fazendo é realmente hilária! Como se fosse uma cara de nojo, misturada com surpresa, com riso de pavor e sei lá o quê... É, acho que só vendo mesmo pra entender...
- Vocês... Vocês... - Bella tenta falar, ainda abraçada comigo.
- Somos ejens.
- Ejens?
- Me chamo D'Lau-dyu. O Rochedo Verde vai se reunir com os irmãos para decidirmos qual a melhor rota de ação.
- Rochedo Verde? Que é isso? - Bella pergunta.
- O amigo de vocês, que vos trouxe aqui.
Catarino? É a pergunta que Bella e eu nos fazemos, um olhando para o outro.
- Ei! Vocês estão bem? - A voz estridente é facilmente reconhecida. É Vistafera que se aproxima.
- Estamos. - Respondo.
- Estamos?! - Jardel volta a si. - Que merda de mundo é esse?! Quero voltar pra casa!!!!
- Ninguém mandou você vir. - Repreendo. Tem hora que cansa tanta reclamação. - Agora aguente.
- Olha - Vistafera chega no meio de nós. - D'Lau-dyu! Você e Auph-È-Odri podem cuidar dos humanos? Para prosseguirmos com a reunião?
- Decerto que sim.
- E o que está havendo? - Pergunto antes que Vistafera parta.
- Tudo será revelado. A reunião termina já. Volto num instante. Eles são gente fina! Se preocupem não! - Diz, apontando para os ejens que ficaram, enquanto os outros se afastam, juntando-se na tal da reunião...
O que chamam de Auph-È-Odri tem o chapéu pequeno, vermelho e voltado para cima, não é como chapéu de cogumelos comuns, que são curvados para baixo. Também tem uma textura diferente, como se o chapéu fosse formado por grãos. Ele não parece ser de falar muito também. Já o outro é daquele tipo clássico de cogumelos, curvadinho pra baixo. O chapéu dele é azul escuro.
A maioria do povo aqui tem chapéu desse tipo, embora a cor varie e sinceramente não sei qual a cor mais comum. Tem pelo menos um deles que é mais baixo e, em compensação, tem o chapéu bem mais largo.
"Há plantações de todo tipo
De café, de abacaxi
De laranja e de eucalipto
Eu estava perdido em uma
Plantação de cogumelos"
"E todos eles estavam vivos"
Acho que dá uma boa poesia, se eu me lembrar disso depois. Antes de dizer que estavam vivos eu descrevo os tipos tão diferentes que tinha... O legal é que o povo vai pensar que eu estou falando de drogas... Se bem que não sei se isso é necessariamente legal. Acho que vou fazer um livro falando disso tudo. Aí eu deixo claro em algum canto do livro que não tou falando de drogas. Talvez fique legal.
- Que loucura, velho! - O carinha finalmente fala, batendo no ombro do Jardel de leve com um sorriso besta na cara. Um sorriso de quem tá sob efeito de drogas.
- Pois é. - Jardel responde, desconfiado ainda.
- Que mundo é esse, meu irmão?!
- Sei lá! Deve ser algum mundo estranho mesmo, a gente entrou num portal e foi parar em outro planeta...
- Pode crer! Mas o sujeito lá não disse que a gente tava dentro da Terra?
- E ele entende de nada! A gente deve ter viajado pra longe!
- Pode ser... Mas ele deve entender mais do que a gente, né não?
Será que é algum tipo de auto-hipnose? E o cara acha que está drogado sem estar? Porque o Jardel está parecendo normal, pelo menos pro que a gente espera dele a essa altura, mas o outro fala devagar, como não tava falando antes, como quem está sob efeito de alucinógeno ou sei lá... Se não for psicológico, ele se drogou em algum momento sem a gente ver... Só pode.
- Ainda acho que a gente está em outro mundo. - Jardel fala.
A Bella se afastou um pouco do grupo. O que será que ela está fazendo?
- Bella?
Ela não responde e eu me aproximo. Há um galho seco ali adiante e ela parece estar concentrada nele.
O galho está tremendo um pouco. Eu me abaixo do lado dela e fico olhando também. O galho começa a se mover um pouco, deslizando pelo chão. Pára. Começa a tremer de novo e volta a se mexer. Pára.
- Mundo estranho esse, não é Bella?
- Fui eu. - Ela responde séria, com jeito distraído.
- Como assim?
- Eu que movi o galho.
- Mas não é possível isso... - De repente me lembro disso de poderes mentais. É um tema que ficou recorrente nos últimos anos. A Força Russa famosa, por exemplo. - Você...? Como?
- Não sei. - Ela olha para mim com aquele rostinho cansado e assustado ao mesmo tempo.
- Você já fez isso antes?
- Não, é a primeira vez...
Surpresas do mundo vêm do nada, sabe? A gente tá num mundo todo estranho e acha que as surpresas que virão serão daqui mesmo, mas não... Ainda tem que aparecer alguma surpresa que a gente mesmo trouxe. Caramba... Telecinese...
Parte 6 - Desconhecido
O Sol nem nasceu ainda e já vamos embora. Lembrança dos velhos tempos... Tinha vezes que a gente viajava essa hora, saindo das farras, mas pô, era outro pessoal, outro tempo... E a gente nem tinha muita noção de nada naquela hora. Como se agora a gente tivesse! Tá, mas agora é diferente.
A gente sai da cidade desse jeito. O Catarino com certeza não está confortável, mas continua calado. Parece muito tenso.
- Legal! Faz tempo que a gente não faz uma viagem dessas, né Mário?
- Ô! - que a Bella fale por si só. Eu mesmo acabei de vir de Melodia... Mas é sempre bom viajar assim. Nossa, o que é que eu estou pensando?! Perdi minha casa e a gente tá indo sabe-se lá pra onde! É que, bem, a Bella está tão alegrinha aqui que até contagia a gente e a gente esquece a verdade por trás de tudo isso.
É, não sei qual é a verdade por trás de tudo isso. Mas não gostei do pouco que vi dessa tal de verdade.
O carinha do meu lado tá com uma cara de caixão que só vendo...
- Gente, que climinha é esse?! Vamos falar alguma coisa?!
A Bella tentando animar o grupo. Parece criança! É legal ver ela contente assim, mas pô, tá todo mundo sério por alguma razão, né? Eu respondo com um sorriso sem muito esforço de parecer feliz. Ela entende, se aquieta e fica olhando pela janela.
Só paisagem com árvores ao redor, naquela quase escuridão. O Sol quase nascendo, e tudo quase claro.
- Bom, a gente tá indo pra onde? - Jardel pergunta agora ao Catarino. - Dá pra dizer agora?
- Quando chegar a hora eu digo.
- Como é que é?! Peraí, cara, eu tenho que saber! Eu tou dirigindo!
O Catarino responde com cara de quem diz "E daí?".
- Eu tenho que planejar pra abastecer o carro e coisa assim! Pô, que custa dizer: a gente tá indo pra Petrolina, pra Fortaleza, pra Aracaju, pra Vitória, pra França! Só tou pedindo pra você me dizer pra onde droga a gente tá indo. É pedir demais?!
- Não se preocupe. Estamos perto.
- Perto quanto? Quantos quilômetros.
O Catarino olha de novo com a mesma cara. O Jardel também parece que não entende... É muito bom ele fazer essa pergunta. Também quero saber pra onde estamos indo, claro! Mas o Catarino parece nem ter costume de andar de carro. Será que ele sabe medir distância em quilômetros? Sei lá, era melhor ter falado em horas...
Mas sei não... O Catarino é estranho e pronto. Não sei o que o Jardel tá pensando do assunto agora. Ele tinha falado que o Catarino devia ser do Governo ou algo assim.
- Ah, Jardel, liga não. Se está perto já, já a gente chega. - A Bella fala, tirando a atenção da janela e mostrando um sorriso confortante.
O Jardel aceita a resposta, mais por não ter opção do que por se sentir confortável ao saber que "já, já chegam". E vamos adiante, pela estrada quase amanhecendo...
Ah, o figura tá dormindo! Com o bocão aberto e a cabeça jogada pra trás. Por isso que não fez nenhum comentário sarcástico, desses que tem feito só pra aumentar a confusão.
E assim vamos nós, na estrada. Quase de manhã, parecendo um grupo de gente que volta da farra da pesada mesmo, dessa que esgota a gente... Ou como um monte de gente que não fez boa coisa. Ou sei lá como. Um bando de gente calada, sem um pio.
O Catarino tenso, sem nem mexer o pescoço. O Jardel, dirigindo frustrado, às vezes olha pro Catarino, com uma cara indecifrável que até dá pena, e volta a olhar a estrada. O Zé, dormindo. E a Bella meio aérea, olhando pela janela e vendo o céu mudar de cor aos poucos. E eu? Pensando na vida por aqui mesmo, né? Ou seja: silêncio total.
Sabe? É tão estranho esse silêncio... Tipo, lembra Melodia, mas de um jeito diferente... Lá em Melodia era um silêncio de tédio. Aqui o significado é outro.
É como se o silêncio pudesse ser usado pra dizer várias coisas diferentes. Aqui acho que está todo mundo cansado de tentar quebrar o gelo do Catarino. Mas é como se a gente estivesse indo, sei lá, pro abatedouro!
Eu acho que entendo um bocado de silêncio... Já estive com ele muitas vezes. Às vezes é um bom companheiro, que ajuda a escrever. Outras horas irrita. Tem vezes que parece que rasga a gente e dá vontade de fazer barulho pra se defender. É por isso que às vezes eu ligava a TV só pra ficar passando de canal... Pra esconder esse silêncio irritante.
E eles não falam nada mesmo. Agora a Bella olhou de novo com um sorriso consolador. O que será que se passa na cabeça dessa maluquinha nesse silêncio todo? Ela com certeza não parece que está indo pra um abatedouro. Parece, muito pelo contrário, alguém que está deixando uma prisão triste indo pra uma vida melhor.
Jardel parece atento ao volante, mas sei que por dentro está cansado disso tudo e ao mesmo tempo curioso. Não sei como uma pessoa pode estar desses dois jeitos ao mesmo tempo, mas acho que ele está.
Talvez um dia eu escreva sobre isso de silêncio e essa loucura toda, se é que alguém daria atenção. Por falar em escrever, nunca mais escrevi uma poesia... Acho que minha inspiração está de férias...
- Tudo bem, não quer dizer pra onde a gente está indo, não posso fazer nada. - O Jardel começa a tentar puxar conversa de novo. E o Catarino nem se mexe em resposta.
Olhando bem, é incrível esse controle. Conseguir levar um bando de gente pra ninguém sabe onde pra fazer não sei o quê, meio contra a vontade de todo mundo. Como ele consegue?
- Mas você tem que me explicar que negócio foi aquele lá em Mossoró?
Sem respostas do Catarino.
- Era uma Anaconda, não era?
O Catarino vira o rosto pro Jardel com um olhar estranho. Não sei se está com raiva pela insisência das perguntas, se "não está autorizado" a falar nada sobre o assunto, se está decepcionado ou o quê.
- Tá, eu sei que era uma! Eu vi num filme! Era daquele jeito mesmo! - O Jardel olha pra frente, falando mais para si mesmo que para quem está no carro com ele.
Ou está desafiando o Catarino ao dizer isso? Quer saber, quem já cansou fui eu! Ô povo complicado esse! Desisto de tentar adivinhar o que estão pensando e sentindo. Está muito difícil assim. Se pelo menos eles levantassem uma plaquinha dizendo o que estão realmente pensando, as mensagens de rodapé, seria mais fácil.
- É, aquilo era mesmo uma Anaconda! - Ainda é o Jardel falando. - Mas e aquilo que você fez com ela? Soltou um raio no bicho! Que arma era aquela, droga! Nunca ouvi falar de uma arma assim! Cara, abre o jogo pra nós... Você é das forças armadas dos Estados Unidos, né não?
O Catarino usa o mesmo olhar estranho de antes, só que dessa vez dura pouco tempo antes de voltar a olhar para a frente, ainda sério e aparentemente pensativo.
O Jardel volta sua atenção mais uma vez para a estrada, dessa vez com um sorriso meio sem graça no rosto. E quero nem saber no que está pensando a essa altura...
Sobre a tal da anaconda... Eu não acreditaria se não tivesse visto. Aquele monstrão correndo atrás da gente no posto de gasolina... Com certeza não era ilusão, pois todo mundo viu. Agora o que era exatamente aquilo é que não sei.
Pode ser uma criatura extra-natural. Aquele lance lá de cogumelo andando... Dizem que existe uns bichos desses por aí, não sei. Uns que aparecem do nada pelos cantos. Uns bichos cheios de força. Realmente aquela tal da anaconda pode ser um desses, se esse negócio existir mesmo.
Engraçado é que ninguém parece acreditar em criaturas assim. Preferem acreditar em extra-terrestres, que vêm dentro de disco voador e tudo. Acho que ia ser meio difícil a anaconda ser extra-terrestre. O que ela estaria fazendo aqui? E como ela viria pra cá? Dirigindo um disco voador?! Como apertaria os botõezinhos? Acho bem mais fácil ela ser extra-natural.
Lembro que antigamente, quando a gente viu sobre criaturas assim, foi a maior piada. Ninguém acreditava. Lembro da história de cogumelos andando. Acho que foi a Bella, que tava por perto e disse que seria ótimo conhecer um cogumelo desses, que devia dar um "chá muito doido". Aquela pirada! Mas aquilo lá não precisa ser do além, não. Pode até ser uma cobra que cresceu demais, ou um robô. Esse negócio de tecnologia sempre perseguiu minha família mesmo...
É engraçado como a gente escolhe as coisas em que a gente acredita... Tinha uns amigos que morriam de medo de voltar pra casa sozinhos, de noite. Uns tinham medo de lobisomem, outros de vampiro. Tinha até o Obvaldo, que disse que já foi atacado por um quando voltava de uma festa bem tarde. E mostrava um corte cicatrizado no braço. Claro, todo mundo dizia que ele tinha caído e não se lembrava onde se cortou, mas ele insistia na idéia.
Depois de ver essa tal de anaconda, fico pensando em quanto dessas coisas é mentira e quanto é verdade mesmo.
Esse negócio de lobisomem mesmo o povo fala desde muito tempo. Acho que desde quando a Terra era quadrada. Quem me garante que todo mundo que disse ter visto um ou estava bêbado ou só queria chamar atenção ou o medo é que fez ver coisa que não existe?
Sabe o que acalma um pouco nessa história toda? Mesmo tendo perdido a minha chance de mudar de vida? Que eu vivo num mundo normal e descobri que existe aquela tal de Anaconda e outras coisas. O que significa uma Anaconda para o mundo normal? Qual o valor do mundo normal se existe coisas na realidade que não deveriam existir no mundo normal? Sei, isso dá um nó na cabeça da gente. Até na minha, que eu que estou tendo a idéia, dá nó! O mais assustador é que a distância do mundo normal pro mundo real não deve ser só uma Anaconda...
- Ah, vou parar ali, quero nem saber. - Jardel fala com ar de desafio, logo que vê um posto de gasolina logo mais à frente. O Catarino não demonstra qualquer reação.
O carro segue e reduz a velocidade. Jardel ainda encara o Catarino algumas vezes enquanto se dirige ao posto. Então pára com ar triunfante.
- Enche o tanque!
Nessa hora o figura acorda e começa a olhar ao redor pra ter noção de onde se encontra. Então deita a cabeça de novo para trás.
- Meu, faz isso não, tá ligado? - O carinha mal encostou a cabeça e se levanta de novo, logo na hora exata que o Jardel liga o rádio. - Mermão, cê tá num posto de gasolina.
- E eu com isso?
- Se quer explodir, se exploda sozinho, meu!
Não sei porque esse escândalo, deve ser porque o som no carro do jardel fica bem no ouvido dele, sei lá... Ele tava com a cabeça deitada, né? Deve ter levado um susto.
Jardel nem responde mais. Está pensando com suas caras estranhas que eu não quero mais tentar decifrar.
A música que toca é um rock antigo, já ouvi outras vezes, eu acho. Dá pra ouvir... Tipo, já ouvi muita coisa nessas farras por aí afora. Mas eu queria era uma música que falasse disso que a gente tá passando agora, quem sabe me dá uma luz. Não uma música que fala de um robô numa caverna, coisa idiota!
- Pronto, aí, cara, vamo embora agora, falei! Pode seguir viagem. - É o figura. O Jardel acabou de pagar e acho que o bandido tá tentando se vingar daquele lance do rádio.
- Tá com pressa? Dane-se! - Jardel responde e prontamente o Catarino o encara com jeito severo. - Que foi? É complô isso é? Tá bom, vamo embora, né? Pra quê que eu quero ficar num posto no meio da estrada? Agora lembrem que eu que tou dirigindo e que o carro é meu. Se não me respeitarem, mando todo mundo tomar e vou embora sozinho, entenderam?
O carro parte novamente ao som do robô idiota numa caverna. O carinha tá com uma raiva que acho que daria um murro em quem aparecesse na frente. Em outras circunstâncias.
- Tá vendo? Você dizendo que a gente estava perto... Até agora nada! Nem sinal! - Jardel continua com seu ar provocativo.
E para variar, o Catarino não responde. Já está ficando repetitivo esse olhar de censura... Mas também já está ficando repetitiva essa insistência do Jardel. Parece que não desiste...
- Vamos acabar é voltando pra Mossoró. É isso é? É pra lá que a gente está indo?! Pô, fala logo! Quanto tempo até a gente chega? Custa dizer? A gente está quase chegando no São Francisco!
- Ah, meu, cala essa boca, vai! Já basta essa bosta que você botou pra gente ouvir a pulso! - É, parece que o carinha se estressou também com esse chove e não molha dos dois...
- Gente, calma aí! Que é isso!? - É a Bella tentando acalmar os ânimos. - Somos pessoas civilizadas, né? Precisa isso não! Jardel, sua preocupação não era com o tanque do carro? Você não já encheu? Então vamos embora, né, em paz?
Ele parece que não gostou muito da resposta, bate no volante de leve como quem procura palavras pra responder e não encontra.
- Além do mais o Catarino disse que a gente está perto. Custa ter paciência? Vamos aproveitar a paisagem, né? Olha que bonito!
- Que paisagem coisa nenhuma! Quero saber pronde é que a gente está indo. Você disse que o Catarino disse que a gente está perto, mas foi lá atrás, de lá pra cá não disse foi nada! Se a gente já tiver passado do ponto, nem vou achar estranho, sabia?
O silêncio volta. É verdade, o céu está bonito com algumas nuvens iluminadas no início da manhã. Aquela paisagem surreal, misturando dia com noite, sabe? Pois é... Bonito mesmo. Ninguém responde mais e parece que o Jardel deu essa resposta pra Bella mais pra não ficar sem resposta. Acho que ele se acalmou mais com o que a Bella disse. E o Catarino continua lá na frente, todo sério como antes.
As árvores continuam passando dos dois lados. O carinha está olhando pela janela com sua cara de triunfante, de quem ganhou uma discussão agora. Sei que o Jardel está nervoso, mas até que tem sentido se preocupar, né? A gente está bem perto de Sergipe já e já faz algumas horas que saímos de Alagoinhas. Se a gente estiver voltando pro Rio Grande do Norte sei nem o que é que eu faço. Pô, a Anaconda explodiu, não foi? Sei lá, vai que o bicho sobreviveu e está vindo atrás da gente... Daqui a pouco chega aqui e a gente acaba é batendo com ele no caminho.
Bater de novo com aquilo lá não dá, tou fora. Espero que o Catarino não esteja levando a gente pra lá. Mas sei lá, né? Ele disse que a gente estava perto. De repente vale a pena dar uma chance pra ele.
- Mário?
- O que é, Bella?
- Como está o livro?
- Que livro?
- Aquele que você ia escrever, lembra?
- Hmmm...
Verdade... Eu fui pra Melodia pra escrever um livro. Já tinha me esquecido disso!
- É, né? Nada bom...
- Ah, Mário, é assim mesmo, liga não! Você foi pra lá há tão pouco tempo... Ainda estava se adaptando à cidade, né?
- É, vai ver é isso. - A Bella é mesmo uma pessoa...
- Escreveu alguma poesia nova ou não saiu nada?
- Nada.
- Liga não que depois elas aparecem.
Ela tem um sorriso tão reconfortante! Ela é uma pessoa ótima, entusiasmada, meio maluca às vezes mas tem muito juízo em certas horas. Tenho que dizer de novo que essa de agora não é a Bella que eu conheço não. Já vi a Bella assim tão feliz e preocupada com os outros antes, mas muito poucas vezes. A maioria das vezes eu é que tinha que ficar no pé dela pra aconselhar, e muitas vezes eu nem podia fazer isso...
Não quero dizer que a Bella não se preocupe com os outros, nada disso. Mas ela está muito diferente desde ontem...
- Era sobre o que mesmo seu livro? Digo, vai falar de quê? O primeiro foi de bar, né? Mas falava de outras coisas também...
- É. Sabe, não tinha parado pra pensar no livro ainda depois dessa confusão toda... Não sei se vai dar pra eu escrever depois disso tudo...
- Ah, mas tudo vai acabar bem! Você volta pra casa e escreve! Se quiser passar uns dias lá depois... - Ela pára de repente. Acho que se deu conta de que o pessoal do carro pode pensar besteira, né?
Nem sei como o Jardel não fez mais um daqueles comentários implicantes. Mas acho que a preocupação dela não é com o que o Jardel vai pensar, mas sim com o Catarino. Afinal, acho que a essa altura não é segredo nenhum que ela tá afim dele. Talvez seja só pro Catarino, que parece que não quer ver.
É, a Bella ficou toda sem jeito... Sei como é. É uma grande besteira isso dela, mas nesse caso se torna algo importante, sabe? O Catarino já parece que não dá muita bola pra ela, vendo isso pode pensar que ela e eu já temos um caso e ficar mais na dele ainda. Tenho que ajudar a menina...
- Obrigado, Bella, mas não tenho a mínima idéia do que vai acontecer. Não queria fazer planos... Mas acho que se voltar eu estou devendo uma visita à Pat. Que eu tinha prometido pra ela, sabe? - Pisco pra ela, mas ela sabe sim. Entendeu bem que essa história toda foi pra livrá-la da situação. Sei lá se consegui! Sou péssimos nessas coisas! Mas pelo menos tentei...
- A Pat... Nem sei o que teve que ela não ligou mais. Tava tão preocupada com você...
- É, eu soube...
- Vocês estão namorando? Você estava morando lá perto dela, né?
- Não, a gente só ficou junto de novo. Também nem faz tanto tempo que eu fui pra lá, né?
- É mesmo... Menos de um mês... Mas sei lá, vocês podiam estar namorando, né?
- Nada, dá certo não. Ela é de família rica. Brincadeira até rola, mas acha que os pais dela iam querer que eu fosse casar com ela um dia?
- Ah, Mário, você gosta dela, né? E ela também tá preocupada com você.
- Não, não ia dar certo... Somos só amigos mesmo.
Nem contei a ela os detalhes. Foi tão bom só nós dois lá aqueles dias... A Pat é muito boa, delicada, atenciosa... Teve um dia até que ela falou de eu deixar Melodia pra lá e ela deixava a casa dos pais dela e a gente fugia pra nem lembro onde... Era Palmas? Ah, não, a gente ia decidir...
Claro, na cabeça dela. Essas coisas que se fala de brincadeira nem se deve levar a sério, né? Imagina se ela ia querer fugir mesmo do conforto que ela tá acostumada...
- Para lá.
O Catarino finalmente fala, apontando para a direita. Estamos perto de atravessar o Rio São Francisco quando ele apontou. Então vamos mudar um pouco o caminho, né? Já é dia mesmo, está tudo claro.
- Está vendo? Já, já a gente chega! - É a Bella animada.
É, talvez a gente chegue logo, logo mesmo. Só quero saber onde exatamente é que a gente vai chegar.
E se o Catarino for de alguma máfia aí do crime organizado e estiver levando a gente pra uma queima de arquivo no esconderijo da gangue dele? Seja lá qual for o nosso destino, a gente descobre daqui a pouco...
Sabe, isso me lembro um tempo atrás... Teve um dia que a gente veio passar um carnaval aqui perto do São Francisco. Nem lembro pra que lado era exatamente, só sei que era perto do rio. Numa fazenda da família do namorado da Débora, uma amiga minha de lá de Salvador. Foi muito louco aquilo. Maior bagunça, umas minas legais. Tipo, deu pra pegar umas mas não era muito liberado não lá. Sabe como é... Mais da metade do povo já era o casal de namorados certos... Mas foi legal. Acho que faz uns dois anos isso... O cara prometeu que chamava a gente de novo, mas aí nem soube mais dele. A última vez que encontrei a Débora eles tinham terminado...
Pois é, nem me lembro mais do nome do sujeito, mas foi até bom não ter decorado, né? Ele e a Débora terminaram mesmo, além do mais ele não era lá boa coisa não. Arrumava confusão por qualquer besteira e... O Catarino apontou de novo para a direita. Está um pouco longe da estrada, mas a estrada para a direita de que ele fala é logo ali.
Acho que nunca passei por aqui. Bom, pelo menos não vamos pro Rio São Francisco mesmo, né? Dizem que lá é cheio de piranha... Piranha é um peixe muito brabo que ataca qualquer coisa que se mexa perto deles, e até mesmo o que não se mexe. Se o Catarino leva a gente pro rio com sua gangue lá e resolvem nos jogar pras piranhas? Não ia ser uma boa coisa, com certeza...
O pessoal continua todo calado. Mas também essa história de gangue do Catarino nem sei se tem muito a ver. Temos que esperar os acontecimentos acontecerem pra ver no que é que dá essa história toda. Quem sabe eu tenho sorte e consigo entender alguma coisa disso tudo...
- Já amanheceu, olha o céu como está bonito, azul... Com aquelas nuvens ali. Vocês não acham lindo?! - É a Bella de novo.
- É...
Pois é, difícil acreditar. Foi o Catarino que respondeu. Estamos entrando agora na estrada.
- Você já andou em tanto país diferente, né? Como é o céu por lá?
- Igual. Mas há onde o céu é muito diferente.
De onde será que ele está falando... Não entendo nada. Da Lua que o céu é diferente?
- Sei...
Mais uma vez o silêncio. Dessa vez traz mais calma, eu acho.
A Bella está lá olhando a janela distraída. Mais à frente, um lago e umas árvores.
- Aqui? - é o Jardel.
- Sim.
- Numa reserva florestal!?
- É, vamos descer.
O Jardel encosta o carro e descemos todos. O que é que a gente veio fazer no meio de um monte de árvores? Acho que não posso descartar aquela idéia das piranhas... Isso é bem preocupante.
- Ei! - É o carinha. O Catarino chega arrastando ele pelo braço.
- Sigam-me por aqui.
- Mas o que é que está havendo, droga! - É o Jardel em outro ataque. - Quando é que a gente vai saber o que está acontecendo? O que a gente veio fazer nesse fim de mundo.
- Quer saber o que está havendo? Então nos acompanhe.
- Eu não quero saber - É o carinha.
- Você não tem escolha. Vamos? - Não espera a resposta, segue por entre o mato crescido entre as árvores. A Bella me puxa e vamos logo em seguida, com o Jardel vindo depois.
Caminhamos por entre as árvores sem nada de diferente, apesar de a caminhada demorar pelo menos dez minutos. O carinha tentava se soltar às vezes, mas simplesmente não conseguia. Jardel nos acompanhou. Foi até que chegamos a uma clareira.
- Aqui. - O Catarino pára de repente.
Uma clareira no meio de árvores? Que diabos ele está querendo!? Ele passa diante de cada um de nós, nos dando a cada um um objeto... Uma pequena semente.
- Você está louco!? Não acredito... - Jardel acaba de jogar a semente fora e começa a caminhar pra longe, mas pára e volta. - Meu, você trouxe a gente aqui pra dar semente!? Quer o quê? Que a gente plante aqui pra não ter mais clareira daqui a dez anos!? Você é doente!
Vai embora, seguido pela Bella, enquanto o Catarino calmamente caminha na direção onde o Jardel jogou a semente. Abaixa-se e pega. Sempre arrastando o outro sujeito pelo braço.
Realmente impressionante como ele conseguiu encontrar precisamente onde estava o que o Jardel jogou. Ora, essa semente é minúscula! Pelo menos no meio de folhas e mato.
Bem, lá vem o Jardel de novo...
- Olha, vou te dar só mais essa chance porque simplesmente não sei o que aconteceu antes com a Anaconda.
O Catarino estende mais uma vez a semente para o Jardel. A Bella pisca de lá. É, acho que foi ela que o lembrou desses mistérios todos pra ver se ele não desistia agora.
Sei que eu mesmo devia estar achando tudo muito estranho, mas sabe? Estou meio anestesiado com isso tudo...
- Agora fechem os olhos. - O Catarino. Faz uma pausa.
Sabe como é andar de elevador, né? De repente veio uma sensação assim, um frio na espinha... Um frio no corpo também.
- Você me perguntou o que fazíamos nesse fim de mundo. Pois é exatamente no fim de um mundo que outro mundo começa...
Parte 5 - Alagoinhas
Bem, aqui estamos de volta ao meu antigo lugar. As mesmas praças, os mesmos bares, as mesmas casas... Nada parece ter mudado nos últimos dias, nem se podia esperar muitas mudanças. Afinal, é uma cidade antiga e bem média. As cidades grandes mudam, as perfeitas também. Às vezes as pequenas também mudam, mas nunca as médias. Não mudanças grandes em pouco tempo, pelo menos.
A gente deveria ter pensado em alguma coisa assim antes! Graças àquela brincadeira do Jardel, conseguimos passar por tantas cidades e chegar rápido a Alagoinhas. E quase nos esquecemos de todos os tantos problemas que nos envolvem.
Indico ao Jardel as direções necessárias para chegarmos à casa da Bella. Ela não mora sozinha, divide uma casa com uma amiga. De onde tira o sustento? Eu antigamente tinha uns amigos ricaços e era meio um parasita, sabe? Mas a Bella não faz isso não. Ela mora com uma amiga e recebe uma mesada da família. A família dela certamente não gosta que ela seja drogada, mas não quer se expor e fica empurrando com a barriga, dando dinheiro pra ela todo mês. Acho que ela ajuda um pouco na casa e gasta o resto com drogas.
Enfim, chegamos.
- É aqui a casa da sua mina?
- Jardel... - Quantas vezes tenho que dizer a ele que somos apenas amigos!? - A casa da Bella é aqui. Vamos descer.
A casa dela não é lá tão boa assim. Com seu muro verde, é estreita e tem uma sala apertada, dois quartos, um banheiro e uma cozinha. Há um troço lá atrás que querem chamar de quintal, mas francamente... Dois metros por três!
Eu desço e vou até a porta: está aberta. Entro e os dois me seguem. Lá está ela.
- Bella!
- Mário! Que saudade! Como você pôde me deixar só tanto tempo!?
A gente se abraça. Tanta saudade dessa mina maluquinha!
- Você está linda!
- Obrigada! Você... está um bagaço! Nossa, essa viagem foi uma barra, né?
- Olá. - uma voz grave vem da porta e quase nos mata do coração. Sim, é ele. O Catarino está aqui. Não sei como ainda consigo me surpreender com isso depois de tudo o que a gente passou ultimamente...
- Ei, cara, agora você vai ter que explicar umas coisas... - o Jardel fala pra ele, com cara de raiva. - Como é que você está aqui se ontem você estava lá em Mossoró? A gente nem dormiu direito e veio voando pela estrada, quase sofrendo um acidente ou capotando, numa pressa só pra chegar aqui essa hora e você chegou na mesma hora. Agora cê vai ter que me explicar o que está acontecendo.
- Calma, Jardel. - Bella fala. - Ele não chegou junto com vocês não!
- Ele está aqui desde cedo. Quando acordei, ele estava ali, no sofá. ...e a Bonnie quase morre do coração, tadinha...
- Quem vai acabar tendo um ataque aqui sou eu! Como é que você chegou de manhã se ontem, dez da noite, você estava em Mossoró!?
- Eu vim andando. - Depois se vira para Bella - Isabella, já preparou os colchões e a roupa como lhe pedi?
- Já, fofo, mas já disse pra me chamar só de Bella...
- Vocês três tomem banho e descansem: há muito trabalho pela frente e vocês mal se agüentam em pé. Vou voltar pro posto.
Antes que qualquer um possa falar qualquer coisa ele some e nos deixa lá sem saber o que fazer.
- Posto?! Que posto?! - o Jardel começa a gritar. Nunca o vi tão nervoso assim, parece até que está sofrendo um ataque. - Fazer o quê num posto?!
- Encher a cara é que não é... - o carinha responde. Está assustado ainda com tudo isso, mas já parece começar a se preocupar.
- Mário! - A Bella vem do quarto com uma toalha e roupas. Espere, eu conheço essas roupas... - Você deixou aqui outro dia. Terminou servindo pra alguma coisa, né? Olha, vá tomar banho logo pra dormir que cê tá muito cansado.
- Tá. Obrigado, Bella. - Eu lhe dou um beijo no rosto. Ela é mesmo um doce de pessoa. Agora não está sob efeito de droga. Deve ser a presença do Catarino...
Opa, o Jardel vai pegar no meu pé de novo... Olhando bem, acho difícil. Esse lance do Catarino deixou ele meio lelé. Não deve estar conseguindo pensar em outra coisa. Bom, vou tomar banho então. Estou mesmo cansado.
O banheiro é pequeno como o resto da casa mas, assim como o resto da casa, parece aconchegante. Tiro a roupa e entro no chuveiro.
Nem disse como estava a Bella, não é mesmo? Com o cabelo solto, de camisa branca simples, short e, mais importante, sem cara de louca que ela fica às vezes. Sabe como é, com esse negócio de droga...
A sala é pequena. Tem só um sofá de dois e outro de um lugar, além da televisão, é claro. Não mudou muito.
Quanto àquilo do Andarilho, tudo bem que é esquisito, mas o Jardel também... Ora, mas o qué que eu tou falando? Eu já tinha presenciado as esquisitices do Catarino - ou quase isso - pelo menos duas vezes! É incompreensível sim e pra um cara que tem todas as verdades cuidadosamente arrumadas na cabeça, é uma tragédia. Posso até estar enganado, mas acho que foi o que aconteceu.
E o bandido do carinha? Esqueci de perguntar o nome do miserável. Deixa pra lá, depois pergunto. Agora, o que tenho que fazer - e pelo jeito só depois de dormir um pouco - é ter uma conversa com o Catarino. E nem precisa me explicar esse lance de sumir num canto e aparecer no outro. Pelo menos não é o mais importante agora. O que eu quero saber é a troco de quê eu perdi meus pertences e minha chance de mudar de vida.
Talvez pareça estranho eu não querer dar tanta importância às bruxarias do Catarino, mas se eu ligasse tanto pra isso talvez estivesse agora como o Jardel, a um passo da loucura.
Bom, acho que acabei o banho... E, sabe? Além de eu estar com sono tem mais dois esperando o banheiro. Melhor sair logo.
Olha só que demais! Outra jaqueta! Que sorte, hein? Deve ter ficado escondida em algum buraco por aí da última vez que vim passar um tempo com a Bella. Eu visto a roupa, depois de me enxugar, e saio.
Lá estão os dois... Quase dormindo no sofá.
- Próximo!
- Ôpa! - o carinha salta e entra no banheiro com uma pressa que só vendo... O Jardel permanece no sofá, segurando uma roupa que a Bella deve ter lhe dado.
- Descobri! - ele grita, de um salto.
- Descobriu o quê, homem?
- Descobri o mistério do Catarino!
- É? E o que foi que houve?
- Ele é um agente do governo de algum país!
- Ah, meu, fala sério...
- Olha só! Olha só! É mesmo! Saca só: ele tem armamento desconhecido que é capaz de criar relâmpagos; ele é bem do tipo agente secreto e tem o maior segredo dos cientistas de hoje: o teletransporte!
- Cara, quer um conselho? Esquece isso, tá?
- Não, mais é sério!
- É? Peraí... Ah, lembrei! Um agente secreto tem medo de entrar em um carro?
- Não, mas deve ter uma explicação!
- Com certeza. Olha, vou dormir e depois você me fala qualqer coisa, certo?
- Tá bem, tá bem.
- Ei, gente! - A Bella chega com uns pacotes de pipoca. - Cês tão com fome?
- Eu não tou não, Bella, obrigado. - respondo - Estou só com sono.
- Então venha. Você dorme na cama da Bonnie. Vocês podem dormir naquele quarto ali, tá Jardel? Vou deixar a pipoca aqui. ...ah, vou levar uma pra mim, né?
Jardel faz sinal de positivo e continua com sua cara mudada. Não sei se parece mais alguém sério e pensativo ou um Zé no vaso com o trabalho preso, se é que cê entende o que eu digo...
- E aí? Como foi? - A Bella pergunta, já se deitando na cama ao lado com as pipocas. A cama é a dela mesmo. Eu vou pra cama da Bonnie. Ela deve estar trabalhando e não vai achar ruim não, pelo que conheço dela.
- O quê?
- Ah, como foi a viagem? O que aconteceu por lá?
- Foi meio... Sabe? É... O Catarino não lhe contou nada?
- Não, ele mal falou comigo e saiu... - Ela muda a expressão e uma lágrima cai de seu olho esquerdo. - Eu acho que nem dá bola pra mim...
- Ah, Bella... Por quê que cê diz isso? - Eu seguro sua mão. Ela estava tão feliz e de uma hora pra outra ficou toda triste assim... - Fala assim não, Bella... Você não sabe os problemas que ele tem que resolver...
- E você sabe?
- Não... Mas ele não disse que ia pra um posto lá?
- Mário, seu bestão, ele foi pra vigiar algum canto, não é posto assim lugar não! - Que alívio, já voltou a sorrir. - Não é de gasolina nem vacina não! Mas deixa pra lá. - Ela fala tirando a lágrima do queixo e enxugando o rosto com a mão. - Vou lá pra sala falar com o Jardel que eu tou te atrapalhando. Você precisa dormir. Sonha com os anjos, tá?
- Obrigado, Bella. Boa noite.
- Boa noite?!
- Não! Quero dizer, até a noite.
- Até mais tarde, Mário.
É... Ainda bem que ela não voltou a tocar no assunto da viagem. Não sei por que razão o Catarino não falou nada pra ela, mas como ele fez isso, deve ter alguma razão. Quer dizer que ele está vigiando algum canto... Ô cara esquisito, não? Esquisito demais até pra que a gente possa falar alguma coisa dele com relação à Bella. Ele devia dar mais atenção a ela, já que ele é a única coisa, da Terra ou do além, que mantém a Bella longe das drogas. É incrível! Não entendo isso. Basta a presença dele!
Quanto à Bonnie, só vi umas duas vezes. É uma garota bem bonita, mas não é nenhum avião. A Bella, a Pat e a Cíntia são muito mais gatas que ela, mas tudo bem... Continuando: ela tem cabelo preto, longo e liso e é branca, mas daquele branco mesmo que só se vê em alguns lugares da Europa. Quem nunca viu gente albina pensa que ela é albina. Mas não é por isso que eu disse que ela não é tão bonita não... É que o rosto dela é muito magro e fino e ela também não tem muito peito nem bunda. Mas ela é amiga da Bella e a gente tem que respeitar. Parece também muito séria, sabe? Bom, mas não agüento mais um segundo acordado não. O sono está forte e, sabe como é, quando a gente...
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Ah... Que horas? Sete! Puxa!
- Mário? - A Bella está sentada na cama ao lado riscando alguma coisa. - Já acordou?
- É, acho que já... Tá fazendo o quê?
- Nada não. - Ela esconde os papéis. Depois, com um sorriso envergonhado mostra rapidamente: corações para o Catarino.
- Certo... E a sua amiga? Já chegou? Estou atrapalhando aqui...
- Nada! Ela está é lá na sala conversando com o Jardel e o outro lá. Só falta mesmo o Catarino chegar pra gente jantar. Tá todo mundo aqui. ...fora o Catarino.
- E ela não achou ruim tanta gente aqui e eu na cama dela? - Eu pergunto, falando um pouco baixo.
- A Bonnie?! Você nem imagina... Devia ter visto a cara dela quando entrou. "Quem tá aqui? Você viu o carro que tá lá fora, Bella?" De lá pra cá não larga mais o pé do Jardel.
- E ele? Dormiu não?
- Dormiu sim! Mas só dez minutos e aí ficou acordado pensando todo esquisito. Ele cheirou alguma coisa?
- Não, Bella! Mas acho que ele viu mais coisas do que agüentava...
- Então foi verdade mesmo?
- O quê?
- Ele contou umas coisas estranhas...
- Que tipo de coisa? - Isso está começando a me preocupar. Afinal, o Catarino não queria que ela soubesse, ao menos agora, deve haver uma razão. Ela é mesmo uma garota bem frágil...
- Sobre uma anaconda que ele viu e sobre um raio que o Catarino fez... Então eu fiz bem em falar com ele...
Que surpresa! A Bella está me assustando com essa tranqüilidade toda...
- Ele quem?
- O Jardel, Mário! O Jardel! Cê tá prestando atenção em mim ou tá viajando?
- Claro que estou!
- Que tá o quê?
- Que tou prestando atenção em você, Bella, mas... Que foi que cê disse pra ele?
- Nada demais, cara, só disse que aquilo tudo tinha um sentido, mas que ele não se preocupasse. Disse que tudo isso faz sentido mas que é escondido das pessoas e ele não tem informação pra desvendar esse mistério todo...
- Caramba! Então você sabe mais do que eu imaginava! Sabe muito mais que eu! O que cê sabe dessa história toda, Bella?
- O Catarino me falou uma coisa e eu acreditei. Não é nada demais não, fofo, ele só disse que eu não achasse que as coisas do mundo são como elas são, porque nunca são.
- Agora eu viagei...
- É que eu não ficasse achando que o mundo é assim ou de outro jeito porque na verdade ele não é. Que as coisas não são assim tipo que a gente possa entender, sabe Mário?
- É... Acho que estou entendendo... E se entendi direito, ou isso é muito sábio e filosófico ou é a maior besteira que alguém já disse.
- E o que você acha depois do que aconteceu com vocês?
- Digo que está mais pra primeira opção.
- É... O Catarino é tão inteligente, né?
A Bella está mesmo caidinha por ele, não? E o cara deve ser meio místico mesmo. Sei que já disse isso um montão de vezes, mas não deixa de me espantar o jeito como a Bella fica livre de drogas quando o cara tá por perto.
- Por falar nele, o Catarino já veio?
- Não, só falta ele pra gente jantar.
- E o Jardel? ...ah, desculpa, você já disse, né? Ele está conversando com a Bonnie lá na sala, né?
- É, isso mesmo. Pelo menos ele se distrai, né Mário?
- É sim. Vou lá ver como estão as coisas.
Muito esperto o Catarino, não? Não disse nada pra Bella e ao mesmo tempo preparou pra ela receber qualquer notícia desse tipo. Eu fico pensando se ele pretendia ou não dizer a ela o que aconteceu mais tarde. No fundo, acho que ele já esperava que a gente dissesse... Isso é mau, pois cada vez parece ligar menos pra Bella.
Lá estão os três conversando. É sobre...
- Se esse tal de Silvano tivesse ido lá, ela teria encontrado o Caetano com as coisas dela, aí...
- Sim, mas ela não podia ir lá porque tinha um encontro marcado com o Laerton e...
Não tenha a menor idéia de quem são esses aí que eles tão falando e eu poderia arriscar que se trata de uma novela. Até o carinha lá se envolveu no papo! Ele não assiste essas coisas não, pelo modo como fala... É, tem horas que se precisa fazer qualquer coisa pra matar o tédio e a ansiedade.
- Oi, Bonnie!
- Oi, Mário! ...E a prima dela, a Samanta, tinha tentado se matar na semana passada.
Esse papo não dá pra mim não... Vou lá fora ver o movimento na rua. Aqui não é muito longe do Bar do Chileno... Eu podia dar um pulo lá pra ver os amigos, sabe? Daqui a pouco eu volto... Mas será que... É melhor eu dizer pra Bella pra não se preocupar... Pensando bem, é rápido. E se eu digo a ela é capaz de não querer me deixar ir. Ela disse que só faltava o Catarino pro jantar. Se eu for lá e o Catarino aparecer, vai ficar todo mundo me procurando e quando eu disser que fui lá é que vão ficar com raiva.
Mas é rápido! Eu vou lá só rever os amigos e volto! Bem, então er vou lá mesmo.
A rua está meio vazia de pessoas e vez ou outra passa um carro. Está tudo escuro e, é claro que está escuro mesmo, não é noite? Tem poste aceso, mas são poucos. A cidade não mudou nada nesse tempo que passei for.a Continua parada e um tanto hostil como toda cidade dos nossos dias.
Alguém me disse, e não lembro quando, que antigamente as cidades não eram assim tão hostis. As pessoas conversvam e eram bem agradáveis, principalmente aqui no Nordeste. Mas sei lá, sabe? Nem sei se isso é verdade mesmo. A única coisa que sei é que a tecnologia é um traço perigoso e a gente conseguiu se afastar dela, mas não nos livramos dela não. Estão aparecendo pessoas como o Jardel, que acreditam que a tecnologia é boa e quando começarem a chegar coisas tecnológicas vai ser um só golpe. Logo todo mundo estará andando com bagulho implantado no coração pra ser controlado pelos poderosos, do mesmo jeito que eu vi num livro.
Não que eu tenha lido mesmo esse livro. Eu olhei atrás dele, sabe? No texto que explica do que se trata.
Como será que está a galera? O Gilson de vez em quando passava lá no bar... Tem tanta gente... É, minha vida é aqui mesmo, não em Melodia. Talvez isso tudo tenha acontecido pro meu bem. A Pat sabia tanto quanto eu que ali estava um saco. Não dá pra viver assim não, cara! Sem amigos, sem cerveja... Sozinho numa cidade perfeitamente chata.
Tô até começando a achar que foi uma grande besteira eu querer mudar minha vida. Minha vida é massa aqui, é sim! Foi o lance lá com o livro que me fez ficar querendo ser diferente. A gente tem que aceitar ser como a gente é. Além do mais, não foi o "Mário certinho da cidade" que fez o livro, foi o "Mário do Bar do Chileno". Em Melodia, não escrevi porcaria nenhuma.
Bem, estou chegando... O Bar do Chileno fica em três ruas. Não que ele fique instalado em três ruas ao mesmo tempo, mas faltam três ruas pra eu chegar lá. Como é bom estar de volta...
- Mário.
- Que é que foi? - É ele sim, o Catarino. Que merda ele faz aqui?
- Vamos pra casa da Isabella agora.
- Por quê? Eu só vou dar um pulo ali pra rever uns amigos!
- Não. Você vai pra casa da Isabella. Não são os amigos o que você quer ver.
- Como não! Olha, cara, eu vim até aqui de lá da casa da Bella. Já estou quase lá e não vou voltar antes de rever meus amigos não.
- Pra casa da Isabella. Precisamos conversar. Depois você decide se vai voltar ou não.
- Como assim? E pára de chamar de Isabella. Ela gosta que chamem de Bella!
- Eu pedi pra me chamarem de Catarino? Vamos.
- Está bem, está bem! Mas depois dessa conversa eu venho aqui de novo e não quero nem saber.
- Vamos, estão nos esperando.
Está bem... Fazer o quê? Tenho que ir lá mesmo, né? Mas continuo dizendo que vou lá no Bar do Chileno depois. É bom ter essa reunião que só assim eu pergunto porque que ele me botou nessa história maluca e perigosa.
Nós seguimos de volta à casa da Bella. Lá chegando, ncontramos os quatro lá na sala conversando alguma coisa.
- Mário! Catarino! - A Bella se levanta. - Finalmente vocês chegaram!
- Bem, temos assuntos a tratar.
- Mas primeiro, vamos todos jantar. - A Bella sai meio dançando para a cozinha.
O Catarino faz uma cara que só vendo. Não dá pra entender se ele ficou com raiva da Bella por tê-lo feito esperar mais pela reunião ou se achou a cena tão engraçada quanto eu achei. É o seguinte: o Catarino ficou só arrumando desculpa pra nao dizer o que está havendo. Quando a gente perguntava qualquer coisa ele vinha com esse papo de "tempo oportuno". Agora, parece-me que ele levou uma dessas da Bella, pois queria fazer a reunião agora, mas a Bella veio com essa de jantar.
O jantar não é lá um jantar importante, é um jantar bem simples como em qualquer casa de classe média baixa: só comida naquelas conservas industrializadas. A gente colocou num preparador e pronto. A comida não tem gosto assim, mas dá pra engolir.
- Mário, esqueci de dizer: a Pat ligou. Estava preocupada com você.
- E o que foi que cês falaram?
- Eu disse pra ela não se preocupar que cê tava bem.
- Certo... Foi quando?
- Quando cê tava dormindo. Cê não vai comer não, Catarino?
- Não.
- Cê não come? Tem que comer pra ficar forte!
- Não preciso, Bella. Já estou satisfeito.
- Mas ninguém vive sem comer!
- O que lhe disse sobre...
- Eu sei, eu sei. As coisas não são como são. Você comu lá fora? - Ele não responde. - Ele comeu lá fora.
A Bella falou pra todos. Espera um pouco! O Catarino chamou de Bella! Isso talvez seja um bom sinal.
Já quanto aos dois lá no canto - Jardel e Bonnie - parece que está rolando um clima. Os dois até que se combinam: ele parece americano e ela parece franceza ou sei lá o quê. Os dois parecem gente de filme. O carinha está lá também. Estão conversando desde cedo. Falando de televisão. Não sabia que o Jardel era tão ligado assim em TV.
Mas logo a gente acaba a refeição e o Catarino resolve aproveitar a mesa e conversar ali mesmo.
- Vou ser breve e, por favor, não falem nada do que for discutido aqui para terceiros. - Ele pára um pouco e olha para a Bonnie com ar sério. Está mais que claro que ele não quer que ela faça parte da reunião.
- Deixa, fofo, ela é minha amiga, não fala pra ninguém não!
- Está bem, mas não se atreva a conversar fora da reunião sobre o que aqui se passar.
Não sei se isso é jogo para valorizar o que ele vai dizer ou se é tão importante assim, mas ele está fazendo uma preparação para falar que está deixando todo mundo cada vez mais curioso. Vamos ouvir o que ele tem a dizer.
- Estou em uma missão cujas conseqüências atingirão um nível que vocês nem mesmo têm como imaginar. Partirei ao amanhecer e todo o perigo que vocês - aponta para nós três, que chegamos hoje - viveram nem de longe parecem com os que devemos passar. É uma missão perigosa com todas as letras e mais algumas.
- Eu não quero ir, mano! - é o carinha que fala. - Já perdi tempo demais nesse troço aí.
- Eu não lhe dei o direito de escolher: você faz parte da missão. A todos os demais presentes é concedido o direito de decidir se vão ou ficam. Não precisam falar agora, em uma hora eu volto.
- Espera aí, cara! - Eu falo quando ele se levanta. - Mas que droga de missão é essa?! Diga mais alguma coisa que está muito vago!
- Isso era tudo o que eu podia dizer. Decidam-se baseados nisso.
Ele sai. O que vamos fazer agora? Bem, ele não disse quase nada!
- O que vocês acham? - Eu pergunto, depois de um tempo.
- Eu vou. - a Bella responde, feliz.
- Você está louca? Fazer o quê? - Bonnie responde. - Isso não em a ver com ninguém, só com eles!
- Mas eu vou, porque quero ir e ele disse que ia deixar a gente decidir. Não disse isso? Pois eu decido ir!
- Ah, tá! Você é uma maluca, isso sim!
- Pois vá você! Eu não quero ir. - o carinha se levanta, parece bastante irritado. - Quem sabe vocês se arrumam e têm um "Catareco" lá no meio do mato ou seja lá onde for!
- Vai pra onde? - Eu pergunto.
- Vou embora enquanto é tempo!
- Ei! Espera aí! - Jardel se levanta. - Isso tudo que a gente passou foi por causa de você. Acha que o Catarino vai deixar você em paz?
- Se eu fosse de ficar "achando" eu ainda estava no Rio. Vou fazer algo que dê mais resultado.
Ele se dirige à porta, mas o Jardel fala de novo.
- Você já esqueceu que ele soltou um raio? Ele é perigoso, eu acho que você não devia desafiá-lo.
- É? Você acha? Pois eu acho que você devia cuidar da sua vida. E todo mundo também, esse bando de bunda mole.
Ele sai mesmo e a Bonnie fala:
- Esse era o único de juízo dos três. - depois se vira para a Bella. - Eu ainda não estou acreditando que você quer mesmo ir. Você está maluca, por acaso?
- Ah, Bonnie, deixa de ser porre! O que é que tem demais?
- O que é que tem?! Tem tudo! Isso sim! Você não tem nada a ver com nada e pelo jeito que ele falou isso é bronca, Bella!
- Deixa, pelo menos eu fico perto dele.
- Eu não acredito... - O Jardel fala, em voz baixa.
- O quê, Jardel?
- Ahn... Nada! Estou só pensando.
Saco! E agora o que é que eu faço, droga! Já estraguei a minha vida e não posso voltar pra Melodia. Mas eu posso ficar por aqui mesmo ou até ir pra casa da Pat... E o Jardel? Será que o cara vai? Outras horas ele não ia não, mas o bicho está ficando tão doido que é bem capaz de ele querer ir.
É, eu fico por aqui mesmo. As duas ainda estão discutindo. É engraçado isso, sabe? A Bonnie está totalmente irritada gritando e agitando os braços enquanto a Bella responde sempre calma e meiga que vai porque vai. Parece até que está sob efeito de...
Não, o que é que estou dizendo?! Nada químico deixa a Bella assim. Com umas drogas lá ela ficava meio besta e às vezes irritada. Sem elas era como quem está no mundo esperando o dia de morrer, toda séria, deprimida e às vezes mal de saúde. Mas ela nunca ficava muito tempo assim não, ia atrás de mais e voltava a ficar besta e irritada...
Apesar disso, as horas boas para falar com ela eram justamente quando estava falando que ia morrer e tal. Pelo menos as conversas eram mais inteligentes e, sabe? Não posso falar muita coisa não que eu também ficava bêbado muitas vezes e só descobria as besteiras que tinha feito dias depois.
Pensando bem, essa Bella de agora parece bastante a Bella que eu conheci, só que agora parece mais madura. Eu sei, eu sei, é esquisito sim. Até eu estou achando estranho chamar aquela maluquinha de madura, mas ela parece mais decidida, digamos assim. Tudo isso por causa do Catarino, com certeza. O cara não pode ser desse mundo. Eu já tentei de tudo que é jeito tirar a Bella das drogas e basta a presença dele pra Bella se livrar das porcarias. Não sei quanto a você, mas eu acho incrível.
Talvez você comece a pensar como o Jardel, que eu tenho uma queda pela Bella, mas não é bem assim. Garota que eu gosto é como a Pat, por exemplo. Gosto pra ficar. Mas ainda está pra nascer mina pra me prender. Tudo bem, tudo bem, desculpe, eu me empolguei. Estava falando da Bella. É que eu sou muito amigo dela e ela com todos os problemas que tem... Sabe? Eu me sinto meio um protetor dela e, depois de ficar tanto tempo fora e tê-la deixado aqui com a Bonnie, eu estou preocupado.
Ah, e ela quer ir! Já tinha me esquecido!
- Bella, você quer ir mesmo? Faz isso não, mina...
- Ouviu, Bella? Ouça o seu amigo aí já que não me dá mais bola!
- Ou, Bonnie... Você é uma graça... É, Mário, eu vou sim. Venha também! Vai ser divertido!
- Bella, Bella...
- E você ainda vai ficar longe das loiras!
- É, preferia ter ficado lá em Melodia.
- Então volta pra lá.
- Não dá, o Catarino me queimou feio.
- Vamos então...
- Isabella Siqueira, a senhorita devia ficar.
- Sr. Mário Dantes... Venha também! Vamos! Vai ser legal!
- Ah, Mário, já tentei, mas essa maluca quer se acabar na briga dos outros. Não tem jeito...
- Ah, Bonnie, deixa de ser quadrada!
- Quadrada!? Eu!? Ora...
Pronto, as duas voltam a discutir. Acho que a Bella faz isso só pra ver a Bonnie irritada.
É, se a Bella for acho que vou também pra cuidar dela, sabe?
- Jardel?
- Oi! Mário!?
- Oi! Aqui! Você não tá no telefone não? O que decidiu?
- De quê?
- Oh, cara! Onde é que cê tá com a cabeça, meu? O Catarino!
- Ah,certo!
- E aí? O que resolveu?
- Cara, o seguinte: é a grande chance da minha vida de descobrir o que está havendo. Eu fiquei pensando: o que acontece se eu disser não?
- Não sei! O quê?!
- Eu vou passar o resto da minha vida curioso e sem entender porcaria nenhuma do que aconteceu aqui. E eu sei que vou me arrepender de não ter ido.
- Isso quer dizer que você vai.
- Não! Eu fico! Eu adoro tomar decisão que sei que vou me arrepender depois!
- Como é?
- Mário, o que aconteceu com você? Está ficando burro? Ha ha! É como disse o Nando: "Eu não vou pra lá! Eu já fui!"
Vou nem perguntar que Nando é esse... O Jarel parece que não está batendo bem da cabeça também, sabe? É... Por que essa gente gosta de complicar? Não era mais fácil dizer "vou" ou "não vou"?
- E você, Mário? Já resolveu?
- Estou vendo ainda...
Cara, não sei... Realmente não sei se vou ou não.
- Bella, tem um chopp?
- Não senhor! Que vergonha! E sua decisão de deixar o álcool?!
- É só pra eu decidir o que faço...
- Não senhor, começa assim...
- Se quiser, eu vou pegar.
- Não senhora, Bonnie! Pode ficar onde está!
- Está bem, está bem, Bella... Pode deixar, precisa mais não...
Pelo que estou vendo, ela não confia em mim. Era só pra ajudar a decidir... Mas tudo bem, deixa pra lá, ela não quer que eu volte a beber como antes, até dá pra entender. Ela está livre de droga por enquanto e quer que eu fique longe do álcool.
Voltando ao problema da viagem. Bem, os dois aqui decidiram acompanhar o Catarino. O carinha fugiu e a Bonnie ainda está tentando convencer a Bella a ficar, mas ela não vai mudar a decisão que tomou, ao que tudo indica. Vou ou não? Se eu ficar, poderei voltar à minha velha vida de antigamente. Por outro lado, se eu for, posso morrer ou algo assim... Mas se por um lado eu tenho que fazer companhia à Bella, por outro tem muita gente que eu nunca mais vi e estou com uma saudade... Sem falar na Pat, que deve ter ficado bastante preocupada...
Por que é tão difícil tomar uma decisão dessas? Cara... É complicado isso de tomar decisão. Principalmente quando as conseqüências podem ser grandes. Mas, sabe? Acho que não tem jeito mesmo. Vou ter que ir. Fazer o quê?
A Bonnie está impaciente. Parece que ela queria ir pegar a cerveja pra mim só pra ter a chance de se levantar um pouco. Jardel está pensativo, mas já disse que vai. Bella está ali distraída também.
E o figura lá? Deu no pé mesmo! Já estou vendo o Catarino entrar trazendo o figura pelo pescoço e sacudindo dentro da sala... Não sei... Tá muito estranho isso tudo, é claro, mas até que faz sentido ele fazer essa questão toda de levar o carinha. Tipo, ele foi bater lá em Melodia parece que só atrás do cara! Hmmm... Que besteira que pensei agora, vou nem falar nada...
- Bella, você está doida! - É a Bonnie, pra variar.
- Por quê?!
- Ah, não agüento mais não!
Bonnie se levanta e vai pro banheiro se trancar. Não sei o que se passa em sua cabeça, mas ela é bem "certinha", deve estar ficando braba com todo mundo querendo ir. Vou nem dizer que vou ter que ir também agora, pro trauma dela não ser maior.
- Vamos descansar?
É a Bella? Fiquei um bom tempo aqui parado e não estamos fazendo nada mesmo, mas...
- Descansar?
- Sim, descansar, Mário! Pelo jeito o Catarino não vem tão cedo. Vocês deviam ir dormir um pouco.
- Sei...
- É sério!
- Dormir como? Não tou com sono.
- Mas o Jardel tá. Olha pra ele!
- É, Bella, mas a gente dorme onde? Não quero incomodar a Bonnie.
- Ah, a Bonnie. Bom, então vocês podiam dormir por aqui mesmo. No tapete e no sofá.
- É, pode ser.
Bom então.
Jardel já está dormindo na poltrona. Acho que tá bom ele ficar por lá. Acho totalmente sem sentido acordar uma pessoa pra mandar ir dormir. "Ei, acorde! Vai dormir!" Muito doido isso.
A Bella está lá no sofá, meio deitada, abraçando uma almofada.
- Tá, e você? Vai pro quarto não?
- Nada! Fico aqui pra quando o Catarino chegar.
- Tudo bem então.
- Vou apagar a luz pra você dormir.
- Já disse que não tou com sono.
- Não importa, precisa descansar.
Ela desliga a luz e volta pro sofá. Está tentando ser mais forte que o sono, mas acho que ela desligou a luz foi mais pra ela mesma dormir. Melhor assim. Espero os dois dormirem e dou um pulinho ali no Bar do Chileno...
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- Me larga! Que p*##%! - A voz está distante. Que tá havendo aqui!? Tudo escuro! Eu dormi?
- Que tá havendo? - Bella acende a luz e eu pergunto. Enquanto a imagem borrada começa a se tornar nítida (ela também está esfregando os olhos, enquanto Jardel caminha até a porta).
- Me deixa em paz! Será possível!? - Sim, é a voz do figura que decidiu fugir agora há pouco. Vamos correndo até a porta ver o que está acontecendo.
Claro, é perfeitamente previsível. O Catarino com o cara trazido pelo braço, se contorcendo de todo jeito.
- Vamos entrar.
O Catarino entra com jeito firme, com o sujeito, até o sofá.
- Estão prontos?
- Acho que sim, né? Que horas?
- Agora!? - A Bella pergunta.
- É, agora.
- Está muito cedo! São... Quatro e meia!?
- Temos que sair cedo.
- Ah, mas não é assim! Temos que nos arrumar. - Bella fala, enquanto o Catarino olha com olhar intraduzível. - A gente precisa de um tempinho mais!
- Quanto tempo?
- Não sei, uma...
- Vinte minutos. Está bem?
- ...Está bem. - Bella se vira pra gente. - Vamos, pessoal, vamos correr!
Uma pancada forte do quarto. Bonnie deve ter batido a porta com força. Deve ter saído do banheiro agora ou algo assim.
E lá vamos nós tomar café na maior pressa. Todo mundo come biscoito e sanduíche com refrigerante rapidamente. Ainda dá tempo de a Bella ir no banheiro e arrumar suas coisas.
Pô, a Bonnie simplesmente trancou a porta do quarto! Enquanto nós três acabamos de comer, Bella fica gritando na porta do quarto pra ver se a Bonnie abre a porta. Sem resultado.
- Que droga, Bonnie! Abre a porta!
- ...
- Que droga! Não, tudo bem! Pode deixar! Não quer abrir, não abra! Engula a porta e o quarto todo também!
Bella volta pra cozinha e começa a vasculhar numa porta de um armário.
- Iiiiisso! Sabia que tava em algum lugar!
Ela sai com uma bolsa grande e amassada.
- É uma bolsa que eu deixei por aqui outro dia. Agora dá pra ir.
Ela junta algumas roupas recém lavadas - eu acho - na bolsa e vai lá no banheiro de novo.
Acabamos de comer e temos que ir no banheiro também, rapidamente. Afinal, a viagem talvez seja longa.
Bella sai do banheiro, com a carinha um pouco triste e diz "Tá livre". Jardel vai lá usar o quartinho especial. Sei como é quanto à Bella... Deve estar triste pela Bonnie ter ficado assim chateada. E pensar que vai conseguir impedir os outros de fazer o que querem assim, na força. Se bem que eu achava mais seguro a Bella ter ficado, mas ela quer ir, fazer o quê, né?
Depois que o carinha sai, vou eu, mas logo saio pra gente poder se mandar. Fato curioso, pra variar, é que o Catarino simplesmente não comeu nada. Ô cara esquisito esse, hein!
- Está na hora.
Vamos pra fora. O Sol nem apareceu, só está um pouquinho claro. Jardel entra no carro com o Catarino no banco da frente, do seu lado. Bella insiste que quer ficar atrás do Catarino, enquanto eu fico no meio e o carinha fica do meu lado esquerdo.
Pensei que talvez o Catarino quisesse que a gente cercasse o figura, mas acho que não. Se ele fugiu e foi pego de volta naquela hora, acho que nada vai conseguir livrar esse ladrão de ser pego de novo pelo Catarino. Então, sem problema. Jardel liga o carro e vamos embora.
Parte 4 - Viagem
A casa não era lá tão espaçosa. Também não era tão pequena como aqueles módulos japoneses. Ela era uma casa improvisada, feita colada com a loja e a lanchonete. Tinha primeiro andar, e o quarto da gente ficava lá em cima. Na tal casa morava uma senhora resmungona. Uma velha chata mesmo! O tipo ali morava com ela... Ô cara corajoso...
A porta ficava de lado, sabe? Nem na frente nem atrás. Aí tinha uma sala bagunçada. Ou melhor, não é bagunçada mesmo, entende? É arrumada, mas... De um jeito esquisito, com poucas coisas e, mesmo sem estar suja, parece não estar limpa. É meio complicado sim e se você entendeu ótimo, mas se não entendeu desculpa, mas eu vou pro quarto.
A escada é daquela simples, com degraus simples até chegar no andar, sabe? Lá só tem um mesmo e a gente pode chamar de "o andar", não precisamos contar: primeiro, segundo... Ah, que saudade da Bella... Será que ela está com drogas! Dessa vez a pergunta não é idiota, pois ela viu o Catarino... Isso foi quando? Ontem ou hoje mesmo! Bom, ela ligou hoje... Sabe por que eu me lembrei dela assim de repente? Quem inventou essa história de "o andar" foi ela...
Depois da escada, lá em cima a gente vê um corredor pequeno ou um algo que queria ser corredor. Só tem um quarto e um som ali. Daqueles de fita e disco de vinil. Sabe? Há alguns anos lançaram os DCs. São uma espécie de cartões de dados... Quando saíram, diziam que iam revolucionar o mundo e substituir fitas, CDs e tudo, até livros! Eu achei que não, que era jogo. Depois, graças a gente como o Jardel eles estão se popularizando cada vez mais. Acho que em uns três anos eles acabam com as fitas e discos. Quanto aos livros, não sei não...
As paredes aqui são amareladas, meio verdes. Não tenho a menor idéia de que cor seja aquela. O quarto tem uma janela que dá para os fundos do posto: dá até pra ver o carro do Jardel. Mas só tem uma cama dentro do quarto e o Jardel tomou pra ele dizendo que ele tinha pago tudo. Felizmente a cama ficava no meio do quarto, tendo espaço dos dois lados e era nesses lados que eu e o carinha íamos dormir: eu do lado esquerdo do Jardel e ele do lado direito. A janela fica bem em cima da cabeça do Jardel e não há muita coisa no quarto além da cama: uma mesa pequena ali e um cabide. Há um guarda-roupas pequeno, de cerca de um metro de altura, encostado bem perto da porta, mas a gente não dorme logo: estamos sem sono.
- Se eu soubesse que a gente ia ficar por aqui mesmo, tinha pego uma cerveja.
- É, Jardel, nem me fale em cerveja...
- Por quê? Ainda não entendi essa história de você querer parar de beber...
- Meu, já ouviu que o álcool faz mal?
- Pouco, mas já. Mas a gente ainda está vivo, cara! Já ouviu que respirar faz mal?
- Eu falo sério, cara! Dá certo não...
- Tudo bem, tudo bem... Você bebia demais mesmo, mas o que é que tem beber de vez em quando?
- Nada! Quando é só de vez em quando mesmo. Mas no nosso caso em especial, você ia dirigir...
- Você não ouviu o que eu disse? Eu não bebi justamente por causa disso! Mas a gente terminou ficando aqui! Você não queria beber não?
- Não queria que eu bebesse...
- Entendo... No fundo você morre de vontade de botar álcool na goela...
- Vamos mudar de assunto.
- Certo... O que você acha daquela experiência russa?
- Qual? Dos soldados perfeitos?
- É, justamente da Força Russa que eu estou falando.
- Foi uma grande polêmica... Criar um soldado perfeito montando o material genético e depois clonar o resultado, fazendo reprogramação cerebral. Muita gente chiou na época, não foi?
- É, foi. Eles criaram guerreiros telecinéticos poderosíssimos, que são os policiais conhecidos como a Força Russa, mas isso todo mundo sabe. O que eu quero saber é o que você acha disso tudo.
- O que eu acho disso tudo... Bem, Jardel, eu diria que isso tudo não passa de mais um caso em que a tecnologia fez algo ruim para a humanidade e bom só pra quem pagou, o dono do bixo. Pelo que entendi, eles cometeram vários crimes de uma vez só...
- Crimes? Como assim?
- Crimes não, é... Eles não foram éticos. Primeiro, a criação de uma pessoa montada; depois, a clonagem e, como se não bastasse, fazem programação cerebral. É como se as pessoas fossem caixas. Eu acho desumano isso de programação cerebral...
- É, eles fazem isso como se as pessoas fossem computadores, né?
- Essa eu não entendi.
- Como você acha que nascem os programas de computadores? As pessoas têm que fazer os programas: a gente chama isso de programar.
- Ah, certo. Pensei que fosse só "escrever programa".
- Não, não é não...
- Vocês dois - o carinha interrompe - não sabem de nada. Por mais que pareça um bando massa e fodão, isso não funciona. É porque ninguém quis, mas quando alguém estiver a fim de quebrar os brinquedinhos dos russos é só fazer um vírus especial pro DNA daqueles bixos, saca? Aí acaba tudinho e não sobra um.
Puxa! Esse carinha quando abre a boca... Eu não sei como é que funciona esse negócio, mas se ele estiver falando sério, o que foi feito é uma grande merda.
- É, não precisava fazer isso, né? - o Jardel fala, finalmente quebrando o silêncio. - Pelo menos não era o caminho certo... Os japoneses devem ter mais sorte com os megamen.
Uma gargalhada ecoa no quarto. Uma gargalhada muito esquisita. Não é ninguém que tenha chegado, mas o infeliz do bandido. Depois, ele fala:
- E você acha que os neo-samurai vão deixar um bando de circuitos substituí-los?
- Neo-samurai? - Curioso... Nunca ouvi falar disso.
- É, são a elite dos homens japoneses. Eles não querem ser trocados por um monte de latas eletrônicas...
- É... Não conheço, mas estou começando a gostar desses caras...
- Pelo que vi, você não gosta desses troços tecnológicos, né? Pois nem fique tão empolgado assim que eles usam armaduras espertas, pistola laser e coisa e tal.
Samurais modernos... Isso é interessante. E mais uma vez querem substituir homens por máquinas; ainda bem que tem gente contra isso.
- Interessante... - Eu falo, então. - A gente passou por aquilo, fugindo de um monstro de outro mundo e quando acabar fica aqui conversando sobre Rússia, Japão... Como se não estivesse acontecendo nada...
- E era pra gente fazer o quê, Mario? - O Jardel pergunta, depois de ficar um tempo calado. - Era pra gente estar correndo e gritando pelo quarto: Ahhh! Socorro! Um monstro! Cai na real, cara! Ia ser ridículo!
- Sei lá! Só acho estranho demais, só isso!
- Ah, vamos sair correndo pelo quarto e gritando então. Socorro! Eu vi uma cobra! Socorro!
- Ei, mano... Não é por nada não, mas... Dá pra ficar calado? Assim vão começar a pensar besteira da gente...
- É... Você já viu o Coração Russo, Mário?
- A megalópole? Não, já foi lá?
- Não, mas...
- Ei, cês dois! - O carinha de novo, parece que se empolgou mesmo. - Tá na hora de dormir não? A gente tem que sair cedo amanhã.
- E quem é você pra me dar ordem? - Jardel revida.
- O único que tem um pouco de juízo, pelo jeito: vamos dormir logo, falei?
A gente não pode dar espaço pra esse cara. É do tipo muito convencido. A gente deixa um pouquinho ele falar e já quer mandar nos outros... Mas sabe que ele está certo? A gente tem mesmo que dormir, que já virou a madrugada e de manhã temos que dar no pé.
- Vai apagar a luz não? - o carinha pergunta.
- Não. - o Jardel responde prontamente, sem dar corda para o bandido não ficar falando besteira e enchendo nosso saco.
Agora, pensando no carinha... Será que ele é um espião ou coisa assim? Cara de espião ele não tem, mas isso pode até aumentar as chances de ele ser mesmo um espião. Sabe? Se ele não tem cara de espião e for espião, isso facilita seu trabalho. Não sei, mas ele é um cara bastante esperto, apesar da língua suja e frouxa. Talvez seja um espião ou agente especial que o Catarino está perseguindo. É que ele parece saber demais, eu acho. Pra um cara das ruas, pelo menos. Achei incrível ele saber mais que o Jardel...
A gente estava falando da Rússia, né? Da megalópole russa conhecida como Coração Russo. Aí o carinha se meteu na conversa pra dizer que a gente tinha que ir dormir... Eu nunca vi nada de lá não, mas já ouvi falar que é muito frio e que o negócio pega por lá... Que tem muita violência e que as cidades não têm mais tantas praças e áreas bonitas como antigamente. Dizem que a Força Russa é útil lá justamente combatendo a violência. Mas há quem diga que eles usam violência demais, tornando o lugar mais violento do que seria sem eles. Pelo jeito, vou acabar tendo que ir pra lá ou pra algum canto assim quando esse negócio aqui acabar e o Andarilho me deixar em paz de uma vez.
Já está ficando muito tarde, mais do que seria confortável, é melhor eu ir dormir de uma vez.
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- O que é isso!? - Um barulho de fim de mundo no quarto!
Um pedaço da parede caiu! Cadê o Jardel? É de madrugada ainda e... O carinha tá lá ainda, sentado no colchão e ofegante.
- Vamos dar o fora daqui! - grito finalmente. Nós nos levantamos e corremos em direção à porta. A poeira toma todo o lugar e, antes de sair, tenho a impressão de ver a cama sendo tragada pela poeira. Finalmente saímos do quarto.
Corremos pelo corredor em direção à escada apenas alguns ppassos e outra explosão vem quando a parede do quarto é derrubada bem atrás de nós. Quase caio sentado, mas pude me apoiar no braço do carinha. Nós descemos a escada em dois saltos e alcançamos a porta de entrada. Que merda! Que é que a gente vai fazer aqui fora? A porta é aberta e vemos o BMW do Jardel com a porta aberta.
A gente não entra no carro, a gente mergulha mesmo e o Jardel pisa com força no acelerador.
- Que merda foi aquilo?! - eu pergunto, sentando-me direito no banco.
- Era aquilo de novo! Que merda!
- A anaconda?!
Olho pra trás e lá está ela! É enorme e se sacode sobre o asfalto como uma serpente no deserto, correndo muito.
- Ela tá vindo!
- Puta merda!
O tempo parece parar enquanto a vejo. O Jardel se vira pra frente e o carinha grita apontando para o bixo, mas não sei o que diz. Ela é verde-escura com algumas linhas amarelas. Deve ter uns três metros de diâmetro e uma porrada deles de comprimento. Seus olhos amarelos e ovalados passam uma sensação de pavor e desespero. Sua boca parece sorrir e ela parece ter um pequeno chifre na testa.
Espere! Um caminhão passa por nós, parece de combustível. Enquanto a anaconda parece se aproximar de nós, o caminhão perde o controle e se choca com ela. Uma explosão - e uma outra maoior depois - ilumina toda a estrada. Já era o caminhão, o posto e a cobra... Ainda bem que a pista era reta, senão a gente já era também.
- O que faz um caminhão uma hora dessas na estrada?
- Não faço idéia, mas não achei ruim não. Uh-Hu!! Conseguimos de novo! E sem seu amigo de sei-lá-de-onde!
- Jardel... Você é doido.
- Eu? Por quê?
- Onde você estava?
- Fui beber água quando ouvi o barulho. Aí fui pegar o carro!
- Muito obrigado por ter nos esperado.
- Ora... Qual era a graça se eu saísse embora?
- E obrigado - Eu me viro pro carinha - por ter me ajudado quando podia ter me deixado pra trás.
- Falou, mano. E valeu também por ter esperado a gente, ô do volante!
- Como estamos gentis hoje...
- Ainda são duas e meia! Que merda! A gente não dormiu nada!
- É, mas depois dessa eu não quero dormir tão cedo... Nem estou com sono...
- Nem acredito que conseguimos fugir daquilo...
- Vocês acham - Jardel pergunta - que a anaconda morreu? Digo, naquela explosão?
- Claro!
- Eu não sei... - o carinha responde.
- Como assim?
- Sabe lá o que era aquilo, por acaso? Queria eu que tivesse morrido mesmo mas, mano, aquele bicho lá consegue derrubar parede de brincadeira. Pode ser que não tenha batido as botas ainda.
- É... Sei lá, né?
O cara está indo muito rápido... Ah, deixa pra lá... Quem vai se preocupar com velocidade agora, depois da nova aparição da tal anaconda? É melhor a gente correr mesmo: vou botar o cinto.
- Só estou preocupado com uma coisa: aquele pessoal lá do posto - eu desabafo.
- Morreram todos, cara! Que é que a gente pode fazer? Além do mais eles não eram boa gente não: o gigante cheio de moral e a velha resmungona... E o tapado que cuida do posto... Acho que já deve estar em casa. Que droga! Devia estar no posto também...
- Ah, deixa dessa, Jardel. Só porque o cara é tapado não quer dizer que tenha que morrer.
- É claro que tem! Ele só está na Terra pra fazer merda mesmo!
- Mas acho que ele escapou. Quanto aos dois do posto, você não pode dizer que eles eram imprestáveis e mereciam morrer não. Você por acaso esqueceu que ele saiu da casa dele e foi abrir a lanchonete pra gente lanchar? E que depois alugou um quarto pra gente dormir? Não é em todo canto que tem gente assim, Jardel...
- É, talvez cê tenha razão. Mas vamos falar mais nisso não, senão acabo ficando triste por eles também.
Dá pra entender esse cara? Isso aí foi mais uma piada sem graça ou foi o quê?
Quanto àquele bicho, era uma criatura muito bonita e mortal. Era incrível mesmo e não sei se conseguiria descrevê-la de forma boa, que passe metade daquilo que senti. Mas eu vou tentar. Um dia eu tento...
Aquilo lá não é normal: todos sabemos disso. Afinal, nunca ouvi falar de cobra que tem força pra derrubar parede... E o Jardel teve sorte de ter ido beber água, pois o pedaço da parede onde fica a janela caiu exatamente onde ele estaria, na cama.
Mas não é só por causa dessas coisas que estou achando que aquela cobra não é normal... Só de olhar pra ela se percebe, e não por causa do seu tamanho ou coisas assim.
"Por quê? Por causa de quê?" Eu não sei exatamente, mas ela tinha um olhar. Um olhar de quem tinha uma tarefa a cumprir, quase uma obsessão. Ela não é normal, ela tem inteligência ou, pelo menos, é treinada para alguma coisa que a gente acha que é pegar o carinha aqui.
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- Dormindo, Mário?! - Jardel pergunta.
- Não, só pensando...
- Sei...
- Quando a gente vai passar por aquela cidade que você falou?
- Souza? Já passamos! Você estava dormindo...
- Eu não estava dormindo, já disse. - Esse Jardel quando quer pegar no meu pé... - Ninguém aqui está com fome?
- Sim! Estou! Mas a pergunta é: alguém quer parar pra procurar comida agora? Acho que a gente agüenta pelo menos até amanhecer.
- Já são três horas... Faltam duas pra amanhecer e um bocado pra chegarmos a Alagoinhas: ainda estamos na Paraíba!
- É... "Paraíba masculina, mulher macho sim sinhô!"
- Jardel, você como cantor é um ótimo motorista.
- Ah, obrigado! Dirijo desde criancinha!
Tem horas que eu penso que o Jardel é meio doido...
- Espera um pouco!
- Que foi? É pra parar o carro?
- Não! O... Jardel, você viu a anaconda atrás do carro?
- Vi sim.
- É a mesma lá de Mossoró?
- Eu não entendo de anaconda não... Nem de cobra! Mas acho que era. Pelo menos era bem parecida, por quê?
- Se ela estava agora por aqui...
- Então a gente pode encontrá-la de novo lá na frente!
- Não! O que quero dizer é: se ela estava por aqui, então o que houve com o Catarino?
- É verdade... Ou ele morreu, ou fugiu...
- Isso é problema. Se não me engano, a gente não sabe o que fazer quando chegar em Alagoinhas...
- É bom que ele morra mesmo - o infeliz do carinha fala. - Só assim langa do meu pé de uma vez!
- Quem pediu sua opinião?! - o Jardel responde. Ainda bem que ele já se encheu com o bandido também.
Essa do Catarino ter morrido está me preocupando. Se ele tinha poderes, como aquele do relâmpago, acho difícil que tenha sido derrotado, mas não é impossível não: a anaconda tinha força pra derrubar parede! De um jeito ou de outro, prefiro acreditar que o Catarino escapou, A anaconda pode ter fingido de morta ou fugido ou até podem ser duas também. Já que já está tudo perdido mesmo pra mim, gostaria que tudo isso desse certo, pra que pelo menos eu não tenha perdido tudo o que perdi à toa.
O carinha aqui do lado dormiu, quem diria... Acho que não suportou o sono, afinal de contas dormimos só por duas horas... E o engraçado é que não consigo ver o que está acontecendo, por mais que pare pra pensar no assunto. O Catarino aparece e faz coisas impossíveis, feito um bruxo; aparece o carinha aqui que o Catarino parece proteger de algum mal. Esse mal aparece numa anaconda que derruba prédios. Sinceramente, não estou entendendo nada. Estou ansioso pra chegar logo em Alagoinhas e esperar o Catarino pra gente trocar umas idéias. Ele vai ter que esclarecer algumas coisas que não estão bem resolvidas e...
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Ôpa! O carro parou! Já é de dia? Deixa ver... Seis horas... A gente está num posto de gasolina com lanchonete.
- Onde a gente está?
- A gente está em Itabaiana, cara! Vamos lá, chega de folga: vamos todo mundo descer e ir no banheiro. A gente podia lanchar aqui também, mas depois do que aconteceu lá atrás, talvez seja melhor lanchar no carro mesmo, na estrada.
Descemos todos do carro e fomos pra lanchonete quase vazia. Havia caminhões parados aqui também. O banheiro ficava lá no fundo. Fomos e havia dois vasos: advinha quem ficou esperando... O carinha, claro!
Fomos ao balcão. Não tinha salgado nenhum, só daquelas pipocas industrializadas e salgadinhos. Não parecia nem mesmo haver lugar pra salgados lá.
- Me dá seis sanduíches e refrigerantes. - o Jardel pede. A vendedora, que não é feia mas também não chega a ser uma gata, em menos de um minuto traz as caixinhas de sanduíche empacotado. - Sabe de uma coisa? Vamos lanchar aqui mesmo!
Jardel paga e a gente vai até uma mesa desocupada. Lá a gente começa a comer esses sanduíches com gosto de nada. Cada um come dois deles e toma apenas uma lata de refrigerante. Durante esse tempo, um homem esquisito do balcão não pára de nos observar. O que ele quer? Vai saber...
- Alguém ainda com fome?
Não, respondemos com a cabeça. Estávamos satisfeitos. O Jardel então se levanta e vai até o balcão. Não, ele não está com fome - ou pelo menos não é só por isso que vai ao balcão -. Ele pega mais sanduíches e latas para a viagem, para não termos que parar logo adiante.
Nó dois outros nos levantamos e vamos até a porta esperá-lo. Curioso... O caminhoneiro galego de barba não está mais no balcão... Por falar em balcão... A atendente acaba de vender os sanduíches e as latas e está acenando um adeus para mim. Respondo, claro, mas com cuidado para não dar muita corda, pois tem muitas melhores de onde veio essa.
Bem, nós partimos da lanchonete e encontramos o tal caminhoneiro à janela nos observando atentamente. É como se ele soubesse alguma coisa ou quisesse nos dizer alguma coisa, ou... Claro! Ele sorri agora confirmando minha suspeita? É um telepata! Um maldito telepata lendo nossos pensamentos atuais! O que será que ele sabe? Será que descobriu muito sobre nós? Deixa pra lá... Melhor a gente ir embora logo antes que alguém entregue alguma informação a ele, mesmo sem querer. Essa gente é perigosa e ele já deve saber mais do que seria adequado.
Entramos no carro e Jardel sai, mas pára antes de deixar o posto.
- É... Melhor abastecer logo.
A BMW desliza pelo posto até alcançar uma bomba. De novo vem um cara pedir a chave e Jardel mais uma vez diz "Abro daqui". O carro é recarregado de combustível, o valor é pago e vamos embora, afinal, nunca se sabe o que nos persegue e o que pode nos encontrar a qualquer momento.
- Ah, cara, tô começando a ficar com sono...
- Não invente de dormir dirigindo...
- Ah, então vamos pensar em alguma coisa... - Ele pára e ninguém responde. - Que tal cantarmos?
- Ah, ótimo! Do jeito que sabemos cantar! Pelo menos, com certeza você não vai dormir nem que queira, Jardel!
- Mas você não é poeta? Deve pelo menos gostar de música, não?
- Mais ou menos...
- Puxe aí uma!
Ah, que coisa ridícula! Só faltava essa! A gente - três marmanjos - cantarolando como um bando de criança indo pra escola! Mas, fazer o quê? Depois de tudo o que a gente viu, talvez seja bom rever nosso conceito de ridículo...
- "Caminhava eu sozinho; à noite, olhando para o chão; de repente eu vi uma figura; que de longe tocou meu coração"...
- Ah, meu, sério! Essa aí só você conhece... De onde você tirou?
- Essa é antiga... Conhecem não mesmo? Então tá, deixa eu ver outra...
- "Olhei para o relógio: era uma da manhã; bem no meio da dança ela tirou o soutien"...
- He, he, gostei dessa... Mas não conheço também.
- Ah, então diga uma!
- "Deve haver mais pessoas na Grécia que em qualquer outro lugar; em tapetes persas, sob a luz solar; e quem sabe a notícia se espalha e por muitos tempos depois assim será!"
- Essa é nova?
- É do ano passado, daquela banda com nome de comida, sabe? Aquela banda mineira...
- Ah, sei não...
- Ah, tá, deixa ver outra... "Não foi o Sol que fechou; é o ciborgue que vem, que vem lá de Moscou, e traz no sangue o veneno que queima o sistema do mal; o veneno que queima o sistema nervoso central".
- Também não conheço.
- Aí fica difícil. Então vamos começar de outro jeito: "Seu Lobato tinha um sítio, Ia, Ia, ô"! - Ele pára e solta uma mão do volante para gesticular que a gente responda.
- Ah, também só sei até aí...
- Então tá... Deixa ver: "Eu tinha uma galinha que se chamava Mary lú!"
Essa pelo menos eu conheço.
"Um dia fiquei com fomo e papei a Mary Lú."
"Mary Lú, Mary Lú, tinha cara de babaca..."
Nós cantamos Mary Lú, Aquele Abraço e Faroeste Caboclo, do Legião Urbana. Tudo música antiga pra caramba, mas que vale a pena alguém lembrar... E por falar em Legião, é interessante como uma banda que era revolucionária acabou com as músicas virando pop e hoje qualquer grupo toca Legião Urbana como quem canta "Atirei o pau no gato"... Isso só mostra como as pessoas de hoje em dia não ligam mais pra essas coisas de revolta, de lutar por alguma causa justa. Até que acham bonito isso, mas na televisão...
Cerca de meia hora depois de deixarmos o posto, passamos pelo posto policial e entramos em Pernambuco. Finalmente! Não que não goste da Paraíba, mas é que eu estou muito ansioso pra chegar logo em Alagoinhas. Felizmente ninguém parou o Jardel e a gente passou numa boa.
Nós seguimos cantando até as 7:30, quando passamos pelo caminho que nos levaria a Recife, mas não pegamos o desvio. Quando disse que cantávamos, se me permite voltar, referia-me a mim mesmo e ao Jardel, pois o carinha mala não queria fazer parte dessa "atitude pivete". Até que foi divertido, sabe? Mas foi por pouco tempo e às 7:30 já estava ficando cansativo e chato, pra ser mais preciso.
- Sabe que cê canta bem, Mário?
- Ah, é? Obrigado, mas não canto nada! E já está ficando chato, não?
- É, está... O que é que a gente faz então? - O Jardel pára um tempo e conclui - Já sei! Tem o seu livro aí?
- Não, tenho não... - E que droga! As cópias que eu tinha guardado pra mim ficaram lá em Melodia. Agora já era...
- Mas você se lembra de algumas? Podia falar pra passar o tempo...
- Recitar! É, talvez eu me lembre de algumas...
- Pois recite então!
- Certo... Vou começar com "A Geração de 1995 e a Revolta Contra as Máquinas": "Vocês viveram um sonho comercial..."
Eu consigo me lembrar da poesia completa e recito.
- É, você não gosta mesmo de máquinas, não é?
- Não sem razão, você tem que reconhecer.
- Se eu não te conhecesse, diria que você tem visto muito filme...
- É, mas a questão é que eu lembro bem o que acontece: a informática é suja e eu perdi meus pais por causa disso.
- Isso eu não sabia.
- Pois foi. Na época da revolta contra as máquinas surgiu um grupo chamado "Unabomber na Bahia". Na verdade foram vários grupos assim, mas esse foi o que matou meu pai quando ele defendeu os computadores. Minha mãe foi morta anos depois.
- Sinto muito, Mário. - o Jardel fala, enquanto o carinha coloca a mão no meu ombro como quem diz o mesmo. Daí, Jardel fala. - Mas deixa eu ver se entendi direito. Seus pais foram mortos por um grupo anti-tecnologia, não foi?
- Foi e sei onde você quer chegar com essa conversa. Na verdade, por muitos anos eu odiei os dois lados: a tecnologia e quem era contra. Enfim, odiei o mundo. Foi por isso que fugi da casa de meus avós e vivi desde cedo nos bares. Mas o tempo foi passando e fui amadurecendo, as coisas foram clareando e eu vi melhor.
- Aí você virou simpatizante desse grupo que mateu seus pais!?
- Uma coisa é você dizer que é contra a poluição, outra é você sair por aí destruindo carros, ônibus e indústrias só porque poluem. Eu não gosto das máquinas, mas sou contra qualquer atitude terrorista, entende?
- Entendo. Certo, legal seu ponto de vista, mas acho que vou continuar com o meu mesmo. E aí, tem outra?
- Tem, tem uma que eu fiz pra Bella.
- Eu não digo!
- "Isabella": "Gira o ventilador..." - eu recito esta poesia também.
- Isso foi antes, né?
- Antes de quê?
- Antes de rolar o lance entre os dois! Hoje você chama de Bella...
- Já disse que somos só amigos...
- E eu já disse que "Ah tá"...
Eu olho pro lado e vejo o carinha de preto de braços cruzados olhando pela janela.
- Tá certo, tá certo... Legal, tem outra?
- Va parar de me encher o saco?
- Tá bem, eu páro.
Eu recito mais algumas, as que lembro no momento. Não é tão fácil lembrar as coisas que a gente escreve, sabe? É mais fácil lembrar o que a gente lê. Talvez seja porque a gente não sabe como pensam as outras pessoas e o que elas escrevem só nos mostra um caminho. Por outro lado, quando se trata do que escrevemos, muitas vezes há pontos em que podíamos ter tomado qualquer caminho. E aí não sabemos o que tomamos e... ah, deixa pra lá. Quando eu começo a pensar coisas assim, nem eu mesmo entendo...
- Legal, principalmente a do Andarilho, que eu conheço agora. Quer dizer, mais ou menos, ou conheci, não sei se ele sobreviveu... - Ele se volta para a frente, depois fala. - Lembra mais alguma não?
- Não, só essas mesmo...
- Mas são muitas no livro?
- Ainda tem mais umas trinta.
- Caramba! Ou sua memória é curta ou você não leva muito a sério o que faz, hein?
- Nenhum dos dois, na verdade.
- Certo... Não tem mais nenhuma... Que é que a gente faz agora?
Já são 7:40 e continuamos indo rápido, mas acho que não percorremos nem metade do caminho até a terra da Bella, onde eu morei por tantos anos, antes deste, quando resolvi - e consegui - ir para uma cidade perfeita e tentar mudar de vida. Deixei tudo do pouco que tinha por lá... Ainda bem que apareceu o Jardel. Ainda bem mesmo! Não podia ter tido ajuda melhor que a de alguém de carro e com dinheiro mas...
- Jardel? Uma curiosidade...
- Fala!
- Pra onde é que você ia quando a gente saiu para Mossoró? Era alguma coisa muito importante?
- Importante, você disse? Que grande piada! Você me conhece, cara! Sabe que o que importa pra mim é curtir a vida! Coisa importante, você pergunta? Eu tava indo visitar uns amigos lá e ia ter uma festa na casa do Estêvão, conhece?
- Não.
- Era só isso... Mas isso aqui está bem mais divertido! Estou me sentindo até como se tivesse dentro de um filme: não vejo a hora de chegar em Alagoinhas e ver o que vai acontecer.
- Depois a gente é que quer vida boa... - o carinha desabafa. Depois completa. - Quem muitas vezes precisa roubar pra ter uma vida normal, as pessoas chamam de vagabundo, aí aparece um bando de mauricinho filho de político que só faz gastar o dinheiro do pai e são chamados de quê? Vagabundo, não; ele é filho do Fulano de Tal...
- Como é que sabe que eu sou filho de político?
- Ah, fala sério, cara! Qualquer idiota percebe!
- Se me chamar de vagabundo mais uma vez... Você tem é inveja, seu bosta! Que é um ninguém e eu sou filho de político, tenho uma BMW e posso ir pra onde quiser!
O clima parece que está ficando pesado... Dois mundos brigando... Ainda bem que não pertenço a nenhum dos dois e posso ficar em cima do muro.
- ...não é, Mário?
Ou talvez não...
- É... O quê?
- Não, que eu tava dizendo...
- História, é papo, mano...
- Por que vocês não deixam isso pra lá?
- Ah tá... Quando ele assumir que roubar é coisa de vagabundo e que coisa assim não tem desculpa.
- É? E um vagabundo que não faz nada da vida quer me fazer dizer isso?!
A discussão prossegue e estava demorando mesmo pra começar. Lá se vai o clima leve e "infantil" que a gente estava agora há pouco. Também, o nervosismo tem dessas coisas: deixa a gente alegre cantando ou com raiva discutindo com a mesma facilidade.
Prefiro não participar disso porque no fundo os dois estão certos. Pelo menos como o Jardel falou, ele é um folgado vagabundo sim. Por outro lado, é preciso alguém falar muito e fazer malabarismo com as palavras pra me convencer que roubar pode ser justificado.
Como os dois lados tinham alguma razão, a discussão contidnua sem que nem um, nem outro, dê a vitória. Passamos por várias cidades, por vários cantos e a discussão continua. Entramos em Alagoas sem ninguém nos parar. É claro que quando a gente se aproximava dos pontos policiais, o Jardel diminuía a velocidade pra disfarçar. Quando a gente passava, ele acelerava de novo.
Independente disso, a discussão prosseguia. Era xingamento pros dois lados e poucos argumentos. Eis aqui um dos grandes males da humanidade. Discussões e ofensas superando a razão.
Por volta das 9:30 a gente faz o lanche e eles param um pouco de discutir. O Jardel parece que pensava em lanchar dirigindo, mas ele muda de idéia e estaciona no acostamento. Nós lanchamos dois sanduíches cada, pois a fome estava braba e assim acabam nossos suprimentos...
- Jardel! A gente se esqueceu da água!
- É, também tinha notado... A gente compra em União.
- União?
- União dos Palmares. Está perto.
- Cara, cê manja mesmo de viagem, né?
- Que nada! Tinha uma placa lá atrás, saca?
- Pelo menos o mano aí sabe ler... - o carinha não perde a chance de provocar.
- E você fique calado que a conversa ainda vai passar no chiqueiro antes de chegar no estábulo.
O Jardel e suas associações. Ele adora mudar frases conhecidas, não? Aquela história de "bateria de nervos" e agora isso...
A gente entra na cidade e compra água como ele havia prometido. Depois seguimos viagem. Ele joga as garrafas de água no banco de trás e saímos na mesma velocidade de antes.
Interessante foi que enquanto comprava a água, o Jardel; um monte de criancinhas veio olhar o carro admiradas. Os adultos olhavam com cara de quem não gostava nem um pouco disso. Acho que seria perigoso ficarmos lá mais tempo.
A viagem seguiu agora mais tranquila aqui dentro do carro. Todos permaneceram calados e só houve um diálogo em Alagoas.
- Por aqui a gente vai pra Maceió - falou Jardel quando passávamos em algum canto.
- Será possível que além de não entrar em nenhuma capital a gente sempre vai passar perto desse jeito? - eu perguntei. afinal era a segunda capital seguida que a gente "quase entrava".
- Esquenta não! - ele respondeu. - A gente almoça em Aracaju...
E assim foi a viagem. Não deu mais sono porque estava perto do meio-dia. Primeiro a discussao com "vagabundo" pra lá e "ladrão" pra cá... Agora o silêncio. Sabe? Fico curioso sobre o que vai acontecer agora.
São 12:40 e já estamos em Sergipe. Passamos, faz uma hora, pela ponte em cima do Rio São Francisco. Estamos perto de Aracaju ao que tudo indica. Sempre voando no asfalto, mas às vezes os carros e caminhões atrapalham e atrasam a gente um pouco, mas tudo bem.
- Vamos procurar uma churrascaria.
Não demorou muito pra encontrarmos uma. Acho que o Jardel não foi muito com a cara dela, mas parou o carro. Depois do que aconteceu na Paraíba, ele percebeu que a gente não pode perder tempo.
Descemos do carro e prontamente vieram três pivetes pedindo pra olhá-lo. Pedindo ao Jardel que confiasse em sua vigilância. Se ainda não entendeu, vou dizer só mais uma palavra: flanelinhas.
Entramos na churrascaria e escolhemos uma mesa. Aproveitamos para tirar água do joelho e lavamos as mãos também. Jardel pediu um churrasco de boi.
Não demorou muito e veio o tal churrasco com arroz, feijão, macarrão e o churrasco em si, em um espeto apenas ilustrativo... Sabe como é... Hoje em dia o churrasco vem pré-passado. Só precisa mesmo esquentar. Fica pronto mais rápido, mas já comi churrasco de verdade algumas vezes e posso dizer que a diferença no gosto é grande.
Um guaraná pra acompanhar e almoçamos debaixo do ventilador, vendo televisão. Tem poucas mesas aqui, mas tem algumas notas lá fora: hoje em dia se ganha mais com a entrega em domicílio.
Terminamos enfim o almoço. Jardel paga a conta e vamos para o carro. Já estão lá, prontamente esperando a gorgeta, os três pivetes de antes, com mais oito ao redor. Aí começa a confusão: "Eu olhei", "ele tava olhando não". Para não perdermos muito tempo, o Jardel puxa uma nota de cinqüenta e diz, entregando a um deles:
- Dividam aí.
Saem todos correndo e discutindo e nos deixam em paz. Entramos no carro e logo deixamos Aracaju mais uma vez rumo a Alagoinhas.
- Vamos ter que inventar alguma coisa... - Jardel comenta.
- Como assim? - pergunto.
- Pra espantar o sono.
- Sei. E aí?
- Deixa ver... Que tal a gente fazer um quiz?
- O que é isso?
- É um jogo de perguntas e respostas!
- Ah, sei como é... Eu pergunto uma coisa e você me pergunta outra, como um jogo de adivinhação!
- Não! Um pergunta para os dois, mas não é adivinhação não, é coisa séria, tipo: qual a capital da Holanda? Saca?
- Sei... E aí, vai? - eu pergunto, mas o carinha de preto só sacode os ombros, como quem diz tanto faz... - Bem, tem pontuação, não é? E pode ser qualquer assunto?
- É, tem pountuação e pode ser qualquer assunto.
- Então eu pergunto.
- Vamos lá!
- Qual a capital da Holanda? Quem sabe? Quem sabe?
- Não é assim não, Mário! Tem que perguntar pra um e pro outro, se o primeiro não souber. Ou outra pergunta. Comece com ele!
- Tá bem... Qual a capital da Holanda?
- E eu sei lá! - o carinha responde, soltando um leve riso.
- E agora?
- Agora você me pergunta.
- Qual é...
- Já sei qual a pergunta, pô! Sei lá qual é!
- E agora?
- Agora a pergunta morreu! Faz outra!
- Pô, cês não sabem qual a capital da Holanda?
- Não, qual é?
- É... Eu sei lá! Vamos ver... Quantos estados tem o Nordeste?
- Boa, Mário, essa é boa!
- Dez! - o carinha responde, depois de pensar um pouco.
- Como dez? São nove!
- Nove? São dez, ó: Tocantins, Maranhão...
- Não tem Tocantins não! Tocantins é do Norte!
- Sério?
- É, perdeu, perdeu! - o Jardel fala. - Agora eu ganhei o ponto e o Mário pergunta pra mim.
- Certo, é... Qual a placa desse carro?
- Ei! Assim não vale, mano! Tão com armação pro meu lado, é?
- É, Mário, essa não vale. Vai sério.
- Tá... Deixa ver... O que é que tem na Península Ibérica?
- Ah, sei não. Pergunta pra ele.
- A Itália, né?
- Não! Portugal e Espanha!
- Assim não vale, cês tão enrolando.
- Tô não, vamos ver outra... Quem nasce em Salvador é o quê?
- Sei não - o Jardel fala, rindo -, pergunta pra ele!
- Ah, dessa vez você caiu do cavalo, mano! Essa eu sei! Saca só! Saca só! So-te-ro-po-li-ta-no!
- Boa, acertou! Agora eu pergunto a você, não é, Jardel?
- É, manda aí!
- Qual... a capital do Amapá?
- Ah, mano, essa é baba. - o carinha protesta. - Vale não...
- Deixa ver... É... Rio branco!
- Não, errou fei! Ponto pra ele.
- É Macapá, mané!
- Vamos lá, sua pergunta...
- Vamos sair da Geografia, por favor! Tá um saco! - Jardel reclama.
- Tudo bem, vejamos... Já sei! Qual o nome como era conhecido o terreno que hoje é Glasscity, nos Estados Unidos?
- Área 51!
- Certo!
- Mas isso era Geografia!
- Não, é História!
- Pior ainda! É Geografia de antigamente!
- E você quer o quê? Televisão?
- Seria ótimo!
- Mas não dá não, vejamos... Qual a fórmula da água?
- Deixa ver... - o Jardel fica pensando um pouco. - O-2! Não, não! Peraí! H-2-O!
- Tá, vou aceitar. Acertou. Agora você: O-2 é o quê?
- Oxigênio! "O" não é Oxigênio? Se botar um monte continua sendo oxigênio, não é não?
- Acertou, mas não é não. Agora o Jardel... Como se chama o troço que a gente tem dentro das células que diz quem somos?
- Deixa ver... Células?
- Não, errou! Que ridículo! Qual o nome dos bixos que têm oito pés?
- Vale não. - Jardel protesta. - Essa tá muito fácil!
- Ah, é? Pois eu não sei. - o carinha responde - Pois responda que eu não sei.
- É aracnídeo! Aê!
- Acertou! Você! Qual a ilha maior do Brasil? E mais conhecida?
- Ah, sei não, mano! E aqui tem ilha?
- Tem. Jardel?
- Não faço nem idéia!
- Não acredito! Fernando de Noronha!
- Ah, é...
- Bem, então vamos para outra. Onde é que eu fico de noite lá em Alagoinhas?
- Ah, mano, essa é foda! Como é que eu sei?
- Eu disse numa poesia... É um bar...
- No Bar do... Argentino?
- Não, do Chileno! Jardel? Que time foi campeão brasileiro ano passado?
- Foi o... Botafogo da Paraíba!
- Certo... Quais são as cores do arco-íris?
- Não sei, pergunta pro bonzão aí.
- Vermelho, Laranja, Amarelo, Azul e Violeta.
- Errou! Faltou duas, Jardel! Agora você... Qual o terceiro planeta depois do Sol?
- Pergunta pro mano aí!
- É... Deixa ver... Vênus!
- Errou de novo! É a Terra!
- É não, ó: Sol, Mercúrio...
- Depois do Sol! O Sol não conta! Qual o peixe típico da cozinha portuguesa?
- Pergunta pra ele aí!
- É o bacalhau?
- Certo!
- Aê!
- Onde moravam os deuses na Grécia?
- Ah, agora eu respondo senão ele ganha. No céu?
- Não, errou!
- Não é no céu não, véi?
- Não. Jardel? Quantos oceanos existem?
- Não sei, passa pra ele.
- Três?
- É, são três!
- Olha, a gente está chegando!
- Só pra encerrar: Jardel agora, não é? Qual é a pontuação atual?
- Não sei. E já ia dizer que você era bom nisso...
É, ninguém sabe quem ganhou, mas chegamos em Alagoinhas.





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